TONHO FRANÇA     



uma noite,            um pedido,           uma oração,           não solta a minha mão.



ACALANTO


Depois do desespero, uma brisa
depois do destempero,
uma dose de vida
uma paixão inesperada,
uma voz antiga
uma calça amassada
uma alma mais atrevida
uma rima improvisada
junto aos sonhos na bolsa
mal arrumada
à Santa a despedida
a lua como morada
e vou pelas ruas vadias
as dores não cicatrizadas
disfarçadas, exalando poesia.
 




Coisa alguma...


Quem sabe lágrimas,
Quem sabe linho.
Quem sabe nada
Quem sabe um vinho?
Quem sabe ao certo
Pra onde e quem foi
Com o caminho?
Quem sabe nada...
Além de sonhos,
Que não pese tanto,
Que seja azul,
Quem sabe um jazz?
Quem sabe um blues?
Quem sabe nada...
Renascer, reflorescer
Como mananciais
Revoadas, nada mais.
 


 

saudade           é amanhecer todo dia                 insistindo em ver                a mesma fotografia

 



Hoje não tem poesia.


Hoje não tem poesia
Mas tem café, bolachas
Pão com manteiga.
Uma receita de bolo
Que era de minha avó.
Hoje não tem poesia,
Sobre a mesa, geléia, torradas macias
Toalha de antigo bordado encontra
O passado sobre a cadeira vazia.
 




Foi assim...

Sexta-feira,
O vinho entorna pelos olhos,
As ultimas lágrimas
Tintas, secas!
O brinde feito em solidão
a taça ecoa um som cristalino:
O que não quis admitir,
O que nunca quis ver,
O amor ausente,
O coração presente,
São as últimas lágrimas
A correr.
 


 

há flores em meus olhos     que não nascem nas primaveras     que são de infinitas esperas     azuis, intactas, nascem a revelia     orvalhadas pelas lágrimas     caladas da minha poesia

 



Saudades, nada mais...

Almíscar, Artemísia, hortelã,
arruda, manjerona, cidreira,
Sonhos antigos semeados
Por canteiros e orações.
O colibri entre seduções,
Descansa na mangueira,
A tarde parece descer a serra,
Como se em prece, tão serena,
A noite logo chega,
O vazio na rede, tange o coração,
Lembra o amor que não se fez,
Voa colibri, um dia eu vôo de vez.
 




Domingo

Os domingos passam por mim,
Não pedem licença,
Não perguntam dos meus hábitos,
Passam por mim,
A revelia, autoritários,
Eu não vivo aos domingos,
As lembranças, as cicatrizes
São profundas,
Eu alterei meu calendário,
Hoje eu sou segunda.
 




Cores...(dores)

A tarde repousa no quintal
Púrpuros tons de anjos
Folhas e flores brincam ao vento
Como a se recolher da noite
Fecho as janelas,
(protejo-me de mim mesmo)
Vinho e cigarro e a mesma tosse,
A mesma música e os olhos fixos
Na tela que descansa em tons claros
Tua imagem,
O tempo não tira isso de mim,
Éramos azuis, e tínhamos a profundidade do mar.
Éramos rosa, e tínhamos o mesmo olhar,
Éramos lilás e sabíamos dançar
(vinho, cigarro e a tosse que insiste).
Éramos furta-cores, todas as cores, aquarela.
Hoje lembranças, onde sangro, sagradamente,
Tua imagem em tons claros na mesma tela.
 



Fim de amor.     Um cálice de vinho     Um cale-se ao coração     Papel e caneta na mão     no peito o Agnus Dei.     o resto, confesso:     É dor.Até quando?     Não sei.

 



Fim de outono

Nuances de cinza pinceladas no firmamento,
densa e fria névoa serena sobre os telhados
as mesmas cantigas do passado,
pela janela observo o tempo
severo, ríspido, fugaz
e as marcas tão vivas em mim
você não mais
você não mais
você não mais
Difícil viver assim,
ainda tudo no mesmo lugar
ainda tudo no mesmo lugar
ainda tudo no mesmo lugar
intacto
difícil viver assim,
coração amputado
de mim.
 




Blues à tarde (com flauta doce...)

Pausa à tarde ecoa flauta doce
Pelos canteiros da avenida
Brilha um alecrim-de-angola distraído
O charuto cubano mantém-me sóbrio
Apesar do cheiro de anis
(não aspiro à pressa dos prédios e dos homens)
Os elevadores presos no subsolo
Deixa-me com sensação de liberdade e improviso
(lembra-me blues, solos de blues)
Ainda tenho uma ampulheta,
Uma estatueta de louça
Fotos onde amarelam sorrisos brancos de tantos amigos
(todos ali estáticos como se não houvessem partido)
Um sax americano dos anos sessenta
E alguns selos antigos
(o camelô da esquina vendia-me até sonhos...)
mas o charuto cubano é legítimo
essa lágrima que verte sozinha, é legitima
o verso que hoje não escrevi
fez-se por si e é legítimo
e essa pausa na tarde que ecoa flauta doce,
faz o sol pôr-se em mim, sol em mim
solos de blues,
solos de blues,
solos de mim...




Volta...

Volta enquanto a lua existe,
Enquanto cantam as borboletas,
Os caminhos resistem ao erguer dos castelos.
Volta enquanto a maré está baixa
Enquanto trocam a guarda,
Rápido, a noite se encerra,
Volta, depois se entende a razão,
Volta, enquanto ainda bate meu coração.
 


já passou a hora de termos vozes,     nenhuma música toca,      nenhum ponteiro se move



Sem amor

Lanço ao chão a última taça
O cristal que já fomos cacos são.
E maldito seja o vinho que nele brindamos.
Éramos eternos, de repente passamos.
Já é tarde para qualquer pergunta
Já passou a hora de termos vozes,
Nenhuma música toca,
Nenhum ponteiro se move
O universo em profunda dor silencia
Enquanto os anjos reerguem as ruínas
Pois sabem, o mundo morre um pouco
A cada amor que termina.
 




Abajur

Na sombra calada do abajur
Traços claros de um tempo
Que já não é mais.
Onde a música ouvia-se livre
A reluzir nas louças,
Nos vidros antigos da cristaleira.
O mesmo relógio que canta as horas
Inteiras, canta as meias-
Badalas parecem eternas,
Ba da la das
Ba da la das
O cachimbo e um vinho do porto
Protegem-me da solidão das pessoas
Mas o mundo ainda parece tão perto
Ba da la das
Ba da la das
A vida foi-se nos olhos claros da madrugada,
Na sombra calada do abajur
Já não mais.
Jaz...
 


 

incenso aceso, dança lenta              teus traços inundam a sala              a saudade tem cheio de menta

 




THE END...

Risco com sangue,
Corto meus pulsos,
Arranco as cortinas,
Encerro o ato.
Enfeitiço o destino,
Desfaço o desatino,
Cubro-me com flores,
Esqueço os amores
Saio antes do fim,
desfaleço meus eus,
um a um, todos dentro de mim.

 


Tonho França, é paulista, nascido em 1965, sob o signo de Áries,
começou a escrever aos 12 anos para o Jornal “A Tribuna do Norte” de Pindamonhangaba.
Depois de longo tempo em outras atividades, o poeta retorna e dedica-se a poesia,
tem dois livros solos publicados “Entre Parênteses” e “Sinos de Outono”,
e participação em 12 coletâneas, é membro da U.B.E, e da A.P.P.E.R.J.
Ministra oficinas de poesia, faz trabalhos voluntários na área cultural para Ongs.
Escreve editoriais e poesias para alguns jornais da região.
“Escrevo não para agradar ou convencer, escrevo o que minha alma grita e meu
coração extravasa, por devoção a arte, escrevo por ser extremamente a verdade”


Se você gostou indique o endereço: www.almadepoeta.com/tonho_franca.htm
Visite também: www.almadepoeta.com/poetas3x4b.htm
E-mail: tonhofranca@terra.com.br


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