Salgado
          Maranhão

 



Aves e Víveres


Aves em busca de víveres, voamos

tontos de luz e dos apegos vãos

e se ao longe avistamos frutos sãos

não raro erramos o lugar dos ramos.

Pois é de nós que nos embaraçamos

nos mínimos véus, nos pequenos grãos

e se é incompleto o que nos chega às mãos

mas, tão pouco é sublime o que doamos.

São dardos zoando a música do espanto

e tanta lácera e desertos tantos

esgarçando no molde a própria vida

que o tecido do amor já vem puído.

E qualquer um de nós cede ao descuido,

sob a febre da morte consentida.

 



Limítrofe 5

(Ogivas) Para Cacau

Teus olhos água lúmen

               na xícara de chá.

 

São duas ervilhas

                            virgens:

tuas ogivas ágeis.

 

Falam pela córnea exilada

em mim

 

que rasga à flor do lábio

o hálito de pequenas

mortes.

 

Um a um, os teus gestos

grifam

           secretos acervos

mesmo quando púrpura

rosna

a cidade dos humores.

 

Agarro-me

                  a teus capilares

rotas em fuga

                       e permanência.

 

A nudez nos aborda

nas entrelinhas

                        tortas

e nos desacordes.

 

Livres do cerco de fogo

erguemos no pó

             nosso ramo de fábulas.

 



do Raio

Nem o acre sabor das uvas

nos aplaca. Nem a chuva

 

nos olhos incendidos

devolve o que é vivido.

 

O magma que nos evapora

tange o rascunho das horas

 

sob um raio de suspense.

Nem o que é nosso nos pertence.

 


Fêmea


Por tua causa eu aprendi a matar,

a igualar-me às hienas e aos corvos

-demarcando com sangue o meu lugar-

pelo direito de nascer de novo.

E em nome desta fé em dominar,

só em muralha ou saque me renovo,

como um EU disforme a me desmembrar

para torna-me no meu próprio estorvo.

Pois é assim que moldo em tua essência

o blefe travestido em consciência.

E disto é o fogo que te incende as vestes

a transmutar-te o ser, com tal ciência,

em que teu coração, sem norte ou leste,

acabe por amar o que deteste.




BILRO
Para Adriano Espínola

No bilro – em conta-gotas percussivo

como num fio de orvalho rutilante –

enreda-se a rendeira, em gesto altivo,

como se o vôo das mãos dissesse: cante!

E diz, no labirinto remissivo

de linhas que se cruzam conflitantes

pelo refrão de outro tear-arquivo,

que o tempo descostura a cada instante:

o coração, que em sua tecelagem

de ritmos e reveses leva à estiagem

o sopro da existência e sua lenda,

num fluir secreto e com tal voltagem,

que o que se tece já não é a renda,

é a própria vida que se desemenda.

 


Do arbítrio


Das estrias que a mão

esculpi

             só o que brilha

sobrevive.

 

Nômade a manhã

despe o sol

                   à flor

da carne,

 

               múltipla,

à vertigem da linguagem.

 

Não há comportas

nem caminhos

 

não há saaras

nem vienas

 

em tudo há rinhas

e arestas

de flores

              e esquifes.

 

Em tudo entalha-se

ao revés

              coisas que se mostram

e não se dão,

 

que só no verso vêem-se,

no peeling pelo avesso.

 

(Delitos que em seu exílio

transbordam de rubro

                                   a lira,

resenham através do júbilo,

rasuram através da ira.)

 

Sopra revanche de ritmos

No íntimo viés do não dito,

 

sopra o arbítrio dos dias.

 


da Dor

Invicto

o coração

desata

incêndios

 

intacto

o estio

na carne

incrusta

 

até onde

é lanho

o exaspero

 

e a dor

servida

à la carte

 

no afã

de dar

ao verso

              víscera.

 


Coda

Para Ferreira Gullar

Agora que cantar é flor

de lavas, lides

e o sol sangüíneo raia

nosso cais,

uma foz de lábios

nos incesta ao arbítrio

antes que rapinas raptem

nosso último grão de víscera.

 

Cantar como as pedras rolam

cantar como o sangue cinge

os dígitos do amor mensurável.

 

Radical amanhece

a ramagem de incêndios

sobre as vinhas.

 

Do sublime à barbárie

eis que o destino inscreve-se

nos dentes.

 

Transidos recolhemos a penugem

do sol

           e o silêncio

em riste.

 

No ermo de ter-se sem se pertencer

só o impermanente permanece.

 



Se, Se

Para Ivan Junqueira

Se tudo que nos beija e nos acende

Leva o que migra para o não-sei-onde

escrito numa vírgula que fende

um nome que se grita e não responde,

haveria alguma senha que resplende

dessa teia de vozes que se esconde

sabendo que o amanhã é só the end

sentindo que o agora já é longe?

Nada se negue ao que o viver instrui

que o fato de somar já diminui

como o vôo de um pássaro que recua;

ou transeunte que, entre becos, flui

feito um bicho urbandido, um cão de rua

a farejar na lama a flor da lua.

 


das Coisas

As coisas órfãs de luz
assaltam nossos azuis

 

dispersos. As peças vivas

- lavas de sombra à deriva –

 

zoam na humana paisagem

rente à linha de montagem

 

do desejo. (Ou cintilância

que o poder das coisas lança?)

 

Tralha que nos cerra os cílios,

vida, loja de utensílios,

 

víveres. Onde outros rumos

aos que no tecido ousem

 

roer o fio do prumo

dos que de coisas se cosem?

 


da Lâmina

Do silêncio da faca

que entre frutas medita

seguem-se alegorias

das artérias aflitas

 

que de susto vislumbram

o que na faca alude

em seu bote certeiro,

em sua trama rude.

 

Do silêncio afiado

que na faca labute

decolam águas rubras

que se querem desfrute

 

da carne que lateja

seu líquido sangüíneo

 a tornar-se erosão

sob o mesmo moinho.

 

Pois tudo reina a um triz

do corte cego no ar,

algo que se pressente

mas se busca olvidar,

 

o furor tão sutil

como o brilho de um quartzo

a lembrar que a partida

encerra-se num lapso.

 

Ardis, luares, tertúlias...

são só brechas no muro

da espera ante o rilhar

da lâmina no escuro.

 

Tal como – ao quebra-mar –

sobre os frutos da pedra,

em seu tecido de átomo

a terra se desprega.

 

Tal como a rede puindo

sobre um solo de farpas

e o prumo do equilíbrio

que o temporal desata.

 

Ou a frase em meio-tom

- entre o outono e a canícula –

tendo o enredo da vida

suspenso numa vírgula.

 


Limítrofe 3
(Tear de afetos)

Floram

manhãs

sobre a caligem

                          de argila

fundida

             ao vento.

 

Sopram rumores

da trama

              elástica

que se desata,

a comer hipóteses

a tingir meu sangue

em ciclos.

 

Da névoa

estende-se o cortejo

de vozes,

               o tear

de tessituras

ávidas.

 

O aço ríspido

que arrasta

                  as flores

da canícula,

não lacera a memória

do olho

nem as cores tangidas

ao informulado.

 

Apenas amanhece

                              meu júbilo

com palavras.

 

Denso é o silêncio

a inundar

          o que gela

e o que ruge.

 

Destro é o vento

(antiqüíssimo),

que me assalta

para sua penugem.

 

Não cantarei no cais

a noite ininterrupta

nem terei corvos

                           (de guarda)

à minha porta.

 

Anfíbio,

             sigo um tempo

que transmigra

a recolher tua ausência

pressentida.

 

  

Limítrofe 4
(Imaginário mar)

Impávido, o amor –

mor

       reedita

a fugaz simetria

dos corpos.

 

No stand do desejo

a mão hiberna

os frutos

              impalpáveis:

 

relíquias

que o olho cifra

no imaginário

                       mar;

 

liquens

do salitre

               que escarna

a nudez

             de tudo

e

torna

o retorno

a zero

          - sem palco

          e sem platéia –

 

ou

sola e brilha

no imenso

                 nada

 

como o ouro

das estrelas mortas.




Onde outros rumos          aos que no tecido ousem         roer o fio do prumo         dos que de coisas se cosem?



Fero


Tento esculpir a litania

dos pássaros

e as palavras mordem

a inocência. Aferram-se

ao que é de pedra

e perda.

 

(Canto ao coração e tudo é víscera

como na savana.)

 

Restolhos de espera

e crimes;

insights de insânia

e súplica; volúpias insolúveis

acossam-me a página

em branco

qual bandido bárbaro

ou mar revolto

a rasgar a calha

do poema.

 

Nada me resgata.

Não sei se sou quem morre

ou quem mata.





 



Salgado Maranhão
(José Salgado Santos) nasceu em Caxias, no Maranhão,
tem 48 anos e vive no Rio de Janeiro desde 1973.  
Seus primeiros poemas saíram na antologia Ebulição da Escrivatura,
editada pela Civilização Brasileira em 1978.

A partir de 1989, Salgado teve 7 livros publicados:
Punhos da Serpente, (Achiamé, 1989), 
Palávora, (Sette Letras, 1995), O Beijo da Fera (Sette Letras, 1996),
Prêmio da União Brasileira dos Escritores, em ( 1998 ), Mural de Ventos,
(José Olympio , 1998), Prêmio Jabuti, de 1999 e Sol Sanguíneo,
(Imago, 2001); Solo de Gaveta  (Sesc.Som, 2005).

Salgado Maranhão é também letrista e tem parcerias com Ivan Lins, Paulinho da Viola,
Ney Matogrosso, Zizi Possi, Elton Medeiros, Xangai, Herman Torres, entre outros.
 


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Curadoria: Andrea Paola Costa Prado


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