Poetas 3 x 4

Rui Galanternick



O Desejo

Eu
posso escrever agora,

eu posso dizer agora

o que vi,

naquele porão,

naquela noite fechada,

a tua roupa rasgada,

a minha boca na tua,

o cheiro de orgasmo na sala.

 

Já posso lembrar agora

dos cantos, do pranto, das histórias,

da angústia infinita, da imensa glória,

do desejo no corpo, do desejo na boca,

do intenso desejo

de todo o teu corpo engolir.

 

Eu posso te jurar agora

que vi teus olhos vazados,

ao ver meu corpo, alquebrado,

morrer na cama, em silêncio. 
 



Copacabana

Não há mais nada para escrever esta noite,

em que até as prostitutas e os travestis bocejam.

Não há mais nada a esperar.

Não há mais ninguém a não dormir esta noite,

a não ser as putas e os putos,

mesmo quando não resta mais nada.

 

as calçadas gemem sob os passos

dos cães de raça que vêm saudar o sol

pelas mãos de seus donos.

E nãomais nada a perder ou ganhar esta noite,

que boceja a caminho do fim.

 

É Copacabana, minha santa,

minha mansa irmã, meu pedaço de vida,

onde a morte não tem funeral,

mas revoada de pássaros

a espalhar as cinzas,

as tuas e as minhas,

como assim vai ser um dia.

 



Rui Galanternick, nascido em 1941, em Porto Alegre, filho de pais brasileiros e descendente judeu, 
vindos da  atual Moldávia, da Romênia, da França, de Portugal e de Tetuan, no Marrocos espanhol
- e que aqui chegaram na 1ª década do século XX; formado em medicina pela UFRGS;
transferiu-se para o Rio de Janeiro, em 1968, por amor à cidade, onde vive e trabalha
como psicoterapeuta de  orientação analítica. Escreve poemas, há quase 50 anos, e a partir
de 1998 passou a ler seus trabalhos  em  saraus, no Rio. Está para lançar seu primeiro livro, em abril de 2009. Tem trabalhos publicados em jornais, revistas e antologias,  dentre os quais: Ponte de Versos, 4 anos, Íbis Ed., 2003; Ponte de Versos, 8 anos, Íbis Ed., 2008; Poesia nos Arcos, Oficina Ed., 2006; 2555 Dias de Poesia, EXATO Ed.; Revisa Literária Plural, Ano 3, Nº 2, nov 2006. Escreveu numerosas crônicas para  jornal literário "O Correio",  nos primeiros anos do 2º milênio.


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