Mônica
         Montone

 



... seco minhas lágrimas     ao vê-los passar      eles não sabem      que por trás     de cada estrela     há um sonho     pedindo para acordar ...



Mulher de minutos


Não sou mulher de minutos

Daquelas que os segundos varrem para debaixo do tapete sujo

Não pinto os cabelos de fogo

Nem faço tatuagem no umbigo

Me recuso a usar corpetes e cinta-liga

 
Há sementes em meu ventre

São poemas que ainda não reguei

Prefiro guardá-los em silêncio

Até que o tempo amadureça meus minutos

E a vida me contemple com seus frutos


Não borro meus cílios com a solidão da noite

Nem pinto meu rosto com a palidez das manhãs

Meu corpo é feito de marés

Onde navegam mil anseios

Veleiros sem direção

Estou sempre na contramão

 




Céu


Enfeitei meu corpo de céu

E o sol se pôs em meu umbigo


Pintas viraram estrelas

Cabelo, fios de horizonte

Saliva, chuva

Peitos, lua

 
Enfeitei meu corpo de céu

Para fugir dos meus perigos

E o diabo

Atento aos detalhes

Tomou meu corpo como seu abrigo

 




Musa


Nos invejosos despertou ira

Nos fracos serventia

Era o sonho inatingível de muitos

Realidade de ninguém

 
E a musa, pobre coitada

Só queria alguém para chamar de "meu bem"
 


... escuto as vozes do mundo            sempre que abro um livro           de algum poeta vagabundo ...



Denuncie


Denuncie o padeiro com seus pães vencidos

O motorista que avança os sinais

O ciclista que invade as calçadas

 
Denuncie o tráfico de drogas nas esquinas

As meninas prostituídas

A taxa de juros

A falta de cultura


Denuncie a rua suja

O congestionamento nas filas do estacionamento

O assaltante de galinhas e o magnata de gravata

 
Denuncie a hipocrisia

As ideologias que aprisionam, mas

Vendem em seus discursos a liberdade do pensamento

A falta de respeito, vergonha e poesia

 
Denuncie o preconceito

A falta de leito nos hospitais

Sua indignação frente à guerra, estampada nos jornais

 
Denuncie a incompetência

As condutas erradas


A palavra é sua única arma
 




Suicidas


Cuidado!

Os suicidas invadiram as  ruas

O asfalto queima em chamas

Os camelôs berram

O trânsito não anda

 
Balas perdidas roubam vidas

Beijos picantes inocência

Há perigo em todas as esquinas


Mendigos dormem nas marquises

Meretrizes fazem pose para plebeus

O Rio está ao avesso

E os suicidas caminham lentamente


No topo dos dois irmãos

Há somente luzes

Gatos de qualquer barraco

 
Barrigas roncam na Rocinha

Traficantes acordam no Vidigal

Meninas de família trepam em troca de proseco

E os suicidas caminham...

 
Seco minhas lágrimas ao vê-los passar

Eles não sabem

Que por trás de cada estrela

Há um sonho pedindo para acordar
 


... eu daria o mundo      por um canto em mim      um pedaço de alma qualquer ...      ... e caber dentro do meu coração ...



Amor de mar


Bombordo, boreste

Nunca soube a direção

Sempre naveguei

 
Ao longe no cais

Uma mão se levantou

Os pés descalços aportaram meu navio

Invadiram meu convés sem licença

 
Tinha olhos de marujo

E na boca, o silêncio de oceano

Ancorou-se em minhas pernas

Acariciou meus mamilos, como quem pega peixes escorregadios


Sob o sol, à deriva

Saciamos a fome com desejo

A sede com saliva...


Ele não sabia que meu navio não tinha direção

 




Te amo de amor


Te amo de amor

A qualquer hora

O dia inteiro

Do jeito que for

 
Te amo simplesmente

Sem mistério, vícios ou pudor


Amo o amarelo dos seus olhos 

Sol poente em plena madrugada

Suas melodias

Suas trilhas

 
Amo sem precisar ser amada em retribuição

Sem hora marcada

Sem demora

 
Amo na cama e no chão

No meio da rua e na calçada

Debaixo de chuva

Sóbria ou embriagada

 
Te amo de amor

E não há nada que você possa fazer

Nem contra ou a favor

 




As coisas que amo


Eu não sei dizer te amo!

Porque as coisas que amo, parecem não caber no amor

 
Amo o aconchego das casas

E a maneira como os pés se procuram debaixo das cobertas



Amo a ciranda dos dedos sobre a pele

E o aroma dos poemas do Jorge de Lima

 
Amo o som de água

O cheiro de chuva

O motivo do riso, não a risada


Amo a beleza que põe mesa

A beleza do erro

do engano

e da imperfeição


Amo o desejo de amar


O tédio de não querer nada

O desejo de tudo querer


Amo o cheiro dos ouvidos

O jeito de falar

A maneira como se olha


Eu não sei dizer te amo!

Porque as coisas que amo, parecem não caber no amor


Eu sei sentir te amo

 


... enfeitei meu corpo de céu              e o sol se pôs em meu umbigo...



Vozes do mundo


Escuto as vozes do mundo

Soprando versos em meus ouvidos

O canto das marés

A filosofia dos mendigos

 
Elas tocam e confundem

São estranhamente conhecidas

Embora eu não as reconheça como minhas

 
Revelam segredos

Abrem caminhos

Pedem passagem

 
Falam de São Jorge e seu amor pela lua

Da lâmina cravada na carne

Do primeiro beijo

Da chuva

 
Falam de mim

De nós, de vós

Silenciam somente para o sol nascer

Depois do gozo

Durante o sonho e o ronco

 
São como vaga-lumes 

Estrelas cadentes

Candelabros na escuridão

 
Escuto as vozes do mundo

Sempre que abro um livro

De algum poeta vagabundo

 




Tenho pena das mulheres que não gozam


Tenho pena das mulheres que não gozam

Elas não sabem

Que sob o colchão

A pele derrete

E que suas grutas ficam quentes

Como lava de vulcão

 
Desconhecem a meninice dos dedos

Que pulam de um mamilo ao outro

E brincam de esconde-esconde

Sob a chuva de estrelas mil

 
Não imaginam para que servem as mãos

Nem para que suas bocas foram feitas -

Talvez seja por isso que falem demais

 
Tenho pena das mulheres que invejam aquelas que gozam

Elas não sabem

Que seus seios são frutas maduras

Morangos, pêssegos, pêras, uvas

Pequenas cerejas mergulhadas em doces trufas

 
Por suas pernas e ancas

Jamais escorreu o néctar dos deuses

A bebida sagrada

O mel branco que é alimento

Feito leite de cabra


Tenho pena dessas mulheres

Por que elas serão eternamente amargas
 



Histeria


Berta sorria para espantar o medo de se expor

Berto sorria para provocar o medo de Berta de se expor

Berta dizia que não diria tudo a Berto

Berto dizia que dizia tudo a Berta

Berta fingia acreditar que Berto dizia tudo

Berto fingia acreditar que Berta acreditava em tudo o que ele dizia

Berta dizia somente o que acreditava convir a Berto

Berto acreditava que dizia somente o que convinha a Berta

Berta falava de estradas

E como um eco, Berto falava de trilhas

Berta falava de catapultas

Berto falava de armadilhas

Ambos falavam a mesma língua

Ambos fingiam desconhecer o que cada um dizia

Ambos fingiam não dizer nada

Enquanto os gestos traiam

Berto queria Berta

Berta queria Berto

Mas ambos se perderam no deserto da sedução

E o que restou daquela noite foi apenas a distancia

Provocada pelo reflexo do espelho

E pelo jogo de palavras vãs

 
Inspirado no livro do psicanalista Ronald Laing, Laços

 




O que sempre está


O que vem depois do mito?

O que existe por trás do véu?

O que há de invisível nas amendoeiras

que a olhos nus não podemos enxergar?


O que há com as palavras

que vazam como água invisível

enquanto morremos de sede em frente ao mar?


O que há com o Homem

que castiga sua nudez

sangra a própria pele com adornos

e depois se lança no desejo alheio

como quem devora segredos ignaros?


O que há de raro no aroma das amoras

Na beleza do figo partido ao meio

Na crueldade do tempo que avança?


A sutileza não possui contorno ou explicação

É como um pressagio

É como ter sombra de cão e alma de alazão


A sutileza pode ser:

Uma cama posta

Uma mesa feita

Uma vela acesa

Um vinho aberto

E um poema de Affonso Romano de Sant´Anna para brindar


A sutileza nunca “é”

Mas sempre “está”
 




 

Antes mesmo de lançar seu primeiro livro “Mulher de Minutos”
- Íbis Libris, RJ, 2003, a escritora Mônica Montone já fazia sucesso na Internet.
O
seu texto criticando "a geração tribalista" circulou pelo Brasil todo, foi prova
de vestibular e chegou até a ser confundido com um texto do Jabor.

 Após uma experiência bem sucedida na internet com a coluna Ponto M no
site  Culturall, a jovem escritora de 28 anos, atendendo a pedidos dos seus
leitores, montou o seu blog pessoal Fina Flor que em menos de 6 meses
no ar atingiu a marca de 8000 acessos.

Mônica que além do seu próprio livro de poesias participou de mais três
antologias poéticas: “República dos poetas; Museu da República, 2005”;
Antologia Poética Ponte de Versos -
Íbis Libris, 2004  e “Seleta de Natal,
poemas; organizada por Mauro Salles, 2006, atua em eventos literários
por todo o Brasil e produz o programa Palavrão - primeiro programa
de poesia da TV brasileira, no Canal Brasil.

Campineira, radicada no Rio de Janeiro há seis anos, formada em Psicologia,
Mônica Montone foi apontada pelo ex-presidente da Academia Brasileira de Letras,
Ivan Junqueira, como uma das promessas da literatura feminina e teve um poema
seu publicado na coluna de Affonso Romano de Sant´Anna no jornal O Globo. 
 

 @ @ @


Formada em psicologia pela PUC-RIO;

 Autora do livro de poesia "Mulher de Minutos";

Coordenadora e editora da coluna PONTO M no site de cultura www.culturall.com.br;

Participação no livro “Antologia Poética da Ponte de Versos”,
editora Ibis Libris; 2003;

 Participação na antologia poética do Museu da República do Rio de Janeiro,
“República dos poetas”,
editora Museu da República; 2005;

 Participação na Antologia Poética Seleta de Natal, organizada pelo
poeta Mauro Salles, 2006;

 Atuação nos recitais de poesia: Ver o Verso, Ponte de Versos, Poesia Simplesmente, PoemaShow, Poesia Esporte Clube, Verso Livre, Festa da Luta Anti-manicomial na
praia de Copacabana, festa de aniversário da livraria Argumento, Alto-Falante, CEP20000, Poesia com letras, Quarta-Capa, Republica dos Poetas, Dizer Poesia,
Letras Poéticas, Poesia no Corcovado, Poesia Digital, Poesia Voa, Santa Poesia,
Movimento Inverso, entre outros;

 Participação e atuação no Congresso de Cultura e Desenvolvimento de Cuba, 2003;

 Atuação no projeto Paixão de Ler da Secretaria Municipal do Rio de Janeiro, 2003;

 Produção e atuação artística do evento poético “Tributo aos vinte anos de Os Camaleões”, com Pedro Bial, Claufe Rodrigues, Mano Melo, Luiz Petry,
Cássia Kiss e Gabriel o Pensador; Rio de Janeiro, 2004;

 Integrante do show de poesia Eros, Leros e Boleros, ao lado dos poetas
Claufe Rodrigues e Mano Melo;

Participação e atuação no evento Fórum de Poesia
da Universidade UFRJ, 2005, 2006;

 Participação no evento “48 horas de arte”, da Dandi Brasil,
Ipanema; Rio de Janeiro 2004;

 Atuação no evento “Tributo a Jorge de Lima”, editora Record;
Rio de Janeiro, 2004;

 Participação e atuação no evento “Santa Poesia”;
Rio de Janeiro, 2004, 2005, 2006;

 Participação e atuação no XII Congresso Brasileiro de Poesia de Bento Gonçalves;
Rio Grande do Sul,  2004,2005, 2006;

Participação e atuação no Jirau de Poesia, realizado na
Bienal Internacional do Livro; Rio de Janeiro, 2005

 Participação e atuação na Bienal do livro de Recife, 2005;

 Participação e atuação da Primeira festa do livro de Aracati; Ceará, 2005;

 Atuação na Bienal do livro de Fortaleza, 2006;

 Participação e atuação no evento Poesia Voa, no Circo Voador;
Rio de Janeiro, 2006

 Colunista colaboradora do fanzine PNOB; São Paulo;

 Trabalhou no site www.vaidarcerto.com.br como consultora sentimental, respondendo cartas dos leitores e escrevendo matérias e artigos sobre relacionamentos;

Produziu o Palavrão, primeiro programa de poesia da TV brasileira;
Canal Brasil, 2005/2006

 Recentemente montou o blog Fina Flor www.finaflormonicamontone.blogspot.com
que com menos de seis mês na rede teve 8000 acessos.
 


Se você gostou indique o endereço: http://www.almadepoeta.com/monica_montone.htm
E leia mais sobre a autora:
www.almadepoeta.com/poetas3x4.htm
E-mail:
monicamontone@yahoo.com.br


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