Maria do Carmo Bomfim


(...)  a vida tem vários nunca mais           tristes daqueles que não têm saudades           de um tempo que ficou pra traz



Noite/Dia

A melhor hora pra fazer poesia

é quando estamos quase adormecendo

entre a vigília e o sono

as idéias mescladas de delírios

numa conjunção poética

 

A melhor hora para o amor

é quando, em nosso torpor

perdemos o senso do real

e embarcamos bêbados e livres

nesta viagem deslumbrante

 

ciceroneados pelos nossos corpos

poetizados e amantes



                Biblioteca Popular de Botafogo/RJ - Acervo da autora



Mar

Diante desse azul imenso

faço o mar de espelho.

Os fragmentos que compõem o meu ser

são por ele refletidos.

E venho e vou

me recompondo em suas ondas

no musical balanço

manso manso.

 


                                                                                                     
Clique: Luiz Fernando Prôa
 


Farsa

Ser feliz?

que pretensão:

tanta miséria,

faces sofridas,

terra maldita,

a vida se escoando

por uma bala perdida,

perdido o sangue,

perdida a vida.

 


                          Lançamento da 1a. Antologia dos Poetas Lusófonos - Acervo da autora


Enigma

Abri a pasta

onde guardo os meus poemas

e, com espanto,

vi que eles emanavam

uma luz que me cegava

Toquei no primeiro

que se transformou num coração ferido,

o sangue jorrava,

o segundo sorria,

o terceiro chorava.

E assim as palavras

foram tomando corpo

recriando a expressão

que de mim brotava

 


                                                                                                              
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Contrastes em Copacabana

Que seres somos nós?

Humanos ou robôs?

Andamos pelas ruas,

apressados, assustados

correndo não sabemos de quê.

Em cada esquina

há o que se ver.

 

O garoto malabarista

maneja no ar,

com maestria,

bolas verdes, azuis, vermelhas.

Ninguém nota,

nem param por ele.

 

O sinal abre

e quase o atropelam.

Os motoristas seguem

de olhar reto, sem vida,

escondidos no insufilm

dos seus medos.


                                                                                                                     
Clique: Luiz Fernando Prôa
 


Comemorando a Vida

A vida não é o que sonhamos

nada de castelos fadas príncipes

À medida que envelhecemos

olhamos para trás

vemos tudo diferente

e constatamos

como é difícil viver

Amadurecidos criamos outros valores

e sem perceber

estamos novamente reiniciando

caminhos abandonados

e agora resgatados

pelo prazer de viver

 


Cartão Postal

As árvores douradas brilhando

no outono de Paris

neste domingo de sol,

me fazem lembrar

os casais de namorados

passeando às margens do rio

ou agarrados pelos jardins

que enfeitam a cidade.

Nesta viagem não os encontro.

Onde foi parar o amor dos jovens

neste mundo ficante

sem fantasia e sem romantismo,

em que todos os mistérios

parecem desvendados,

a curiosidade é individual

e o afeto é narcísico

sem laços, par e compromisso?

 


                                                                                                                 Paris - Acervo da autora


Bicho

Não quero saber do passado,

nada de olhar para trás.

Estou nascendo hoje,

saindo do ovo,

quebrando a casca,

botando a cabeça

e o coração para fora.

Daqui há pouco vou andar.

Eu quero é viver,

e a vida começa agora.

 


                                                                                   Barcelona - Acervo da autora


Ato

Será mesmo o poeta um fingidor?

Há vezes em que a inspiração se vai,

o cotidiano não traz

qualquer resquício de fantasia,

o sonho não é lembrado

e a escrita é falsa

ou não traduz o que ele quis.

Aí o poeta veste a máscara

e se lança nessa tarefa árdua

de não dizer o que realmente

o coração lhe diz.

 


                                         Lápide no Mosteiro dos Jerônimos, em Lisboa. Clique: Maria do Carmo Bomfim



Alagoas

Quero ficar em Penedo

navegar no São Francisco

onde ficaram as lembranças

do meu pai

Comer jacaré

tucunaré

piaba munguzá

rapadura feijão verde

castanha de caju

mangaba pitu

Fazer moringa de barro

brincar com bruxa de pano

À tarde dar adeus

aos pescadores

que vão de rio à dentro

Aguardar o retorno

barcos cheios de frutos

(O velho Chico é generoso)

deitada na rede

tomando água de coco.

 


                                                             Rio São Francisco - Penedo - AL - Acervo da autora


Sem Nostalgia

Gostaria de rever a rua

da minha infância,

esburacada e sem calçamento

(barro molhado pela chuva),

onde brincava de esculpir,

com os meus amigos,

potes, bichos e bonecos

(muitos bonecos).

Temo não encontrar mais

a linha do trem,

talvez desativada,

o muro da vizinha

que eu tanto pulava,

as árvores dos quintais

onde trepava pra colher frutos.

Não, prefiro ficar com meus

companheiros de infância

na lembrança.

A vida tem vários nunca mais.

Tristes daqueles que não têm saudades

de um tempo que ficou pra traz.

 




Nem Verso Nem Prosa

Não me venha com regras:

não vou segui-las.

Não me traga limites:

vou ultrapassá-los.

Meu sentimento flui sem barreiras,

livre livre

 


                                                                                               Egito - Acervo da autora


 





Maria do Carmo de Lima Bomfim (Maria do Carmo Bomfim) é psicóloga clínica e trabalha
como autônoma na cidade do Rio de Janeiro, onde nasceu e vive. Há cinco anos,
participa de oficinas de literatura (SINPRO e CAIRO TRINDADE).
Finalista dos concursos da APPERJ, SEERJ, ABRACI,
FESTIVAL DE POESIA FALADA DE VARGINHA.
No final de 2009 obteve o 2º lugar no respeitado e já tradicional
concurso da Universidade FEUC, no Rio de Janeiro.
Tem poemas publicados em algumas antologias nacionais 
e na I, II e III Antologias de Poetas Lusófonos, editadas em Portugal
.
 


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E envie seu comentário para o e-mail da autora:
mcarmobomfim@gmail.com


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02/08/2009