Luh Oliveira


(...) embriago-me          em mim          só me basta eu           totalmente desnuda          imersa          no sangue-tinto          do seco vinho...          ...após a ressaca          volto a ser          apenas mais uma          na multidão (...)



Sobras

a mim

o que resta

:

uma fresta

na janela

onde faz festa

o sabiá

 


Gravidez

e foi naquela noite enluarada

que o gameta-luz

fecundou as letras
 

houve um trepidar de estrelas

no vasto céu de minha boca
 

aos poucos tudo silencia


faço uma descoberta

:

estou grávida

grávida de poesia

 


Espelho

Dor que lateja

em lascas de sangue

jorrando da face

que o espelho reflete
 

Navalha afiada

transfigura o rosto

que não reconheço
 

Antigo álbum

de fotografias

detalhes que nunca

existiram
 

Um sinal, uma ruga

um olhar

que já se foi
 

Presa no reflexo

côncavo e convexo

não sou eu

mas a dor é minha

 


Artesã de sonhos

Sento-me no banco da praça
lindo fim de tarde
sol se pondo
luzes acendendo a cidade

Fito as linhas em minhas mãos
cada matiz
cada nuance
arco-íris

Entrelaço os fios
em doce aquarela
tecendo desejos
e suspiros

De ponto em ponto
de cruz em cruz
bordados de sonhos
revelam
suaves tons
de vida
que anseia

Colcha em mãos
percorre caminhos
na afiada ponta
da agulha
que permeia
a direção
dos ventos

Tecelã de estradas
encruzilhadas
cruzadas
amadas
no vai-e-vem
das linhas
do horizonte

Noite adentra
sentada na praça
artesã
de meus próprios
sonhos

 

 
Achados e Perdidos

Perdi a minha bolsa

carregada de sonhos

e contas vencidas

 

balas de hortelã

beijos desejados

palavras escondidas

 

Perdi minha bolsa

na esquina

dos pesadelos

cruzamento

entre o sorriso

e a lágrima

 

Quem a achar

favor não guardar

jogue-a no abismo

da esperança

para que um dia

eu possa

encontrá-la

 

 
Labirinto

tranquei-me

dentro

de mim

depois

joguei

as chaves

fora

 


Embriaguez

Hipnotizada

pelo reflexo da Lua

dispo-me

de mim

e mergulho

profundamente

nesta taça

de vinho tinto

sobre a mesa
 

Conduzo-me

ao fundo

onde posso

abrir os olhos

e ver-me

claramente

refletida

no cristal

do tempo
 

Embriago-me

em mim

só me basta eu

totalmente desnuda

imersa

no sangue-tinto

do seco vinho
 

Afogo-me

em meu delírio

até a última gota

de esperança
 

Após a ressaca

volto a ser

apenas mais uma

na multidão

que passa

 


Tempero da Baiana

Mulher baiana

sorriso dendê

estampado na cara

lágrima transformada

em batuque

de berimbau

 

Pau-de-chuva

pulsante som

que ecoa

por todo horizonte

leva o gingado

do corpo dançante

enquanto seduz

teu prazer

 

Pimenta vermelha

na branca pele

ardente em teu desejo

bailado em atabaques

percussão ritmada

no palpitar do asfalto

em que desfila

alfazemas incandescentes

 

Baiana mulher

pecado entre as pernas

cintura corri mão

onde sobes os degraus

da paixão des medida

em doses afro disíacas

de mel e tequila

que formatam

teus sentidos sutis

 

Mulher baiana

sobe a ladeira

samba em flores

suor cascata

entre os seios

que seguem a marcação

do pulsar febril

emanado dos

olhares ciganos

que se rendem

ao seu encanto

 


Sabedoria
Luh Oliveira / Luiz Prôa

no balanço das ondas

em ritmo de lua cheia

a maré vem e vai

como se soubesse

que a vida

é sempre mais

que

brincadeira

 


Poema Instante

Profundo silêncio da madrugada

um ruído-inquietação em meu peito

Desligo o computador

por vezes, único companheiro

nas solitárias noites sem fim.

Percorro os cômodos da casa

Confiro se tudo está bem fechado

(Tempos em que bandidos ficam soltos

e inocentes presos em suas celas)

Paro diante do quarto das crianças

Tudo tão quieto!

As camas perfeitamente arrumadas

Todos os bichinhos de pelúcia no lugar

Os livros uniformemente organizados na prateleira

Nenhuma sandália espalhada pelo chão

 

Por alguns instantes saio de mim mesma

e viajo em um tempo transcendental

 

Parada diante do quarto

vejo berço, móbiles, fraldas

Escuto chorinhos dengosos

Seios fartos de leite-vida

Sinto o perfume lavanda-bebê

As camas vão chegando

Os sapatinhos aumentam de tamanho

(Como aumentam rápido!)

 

Chegam os uniformes escolares

As mochilas do Piu-piu

As paredes riscadas com garatujas

Os livros ilustrados preenchendo toda a estante

 

Chegam os diários

O rosa das colchas e lençóis muda de tom

No lugar das bonecas

um mp3 em alto e bom som

 

Chegam as chaves das portas

e todos seus segredos

O salto alto, o volante

a coragem e todos os medos

 

No porta-retrato chegam as imagens masculinas

Os livros de histórias tornam-se romances

Os desenhos livres transformam-se em poesia.

O som das risadas e das temidas lágrimas

Os sonhos para o futuro

O eterno discordar de tudo

e seguir seu próprio destino

 

Naquele breve instante

ali

parada

diante do quarto

vejo o tempo diante de meus olhos

Estive presente a cada segundo

como anjo-da-guarda

como mãe ou como fada

Errando para acertar

amando só por AMAR

 

Peço com força a Deus

que as flores que de mim brotaram

sejam muito melhores

e mais felizes que eu

 



 

En cena

Seria bom ser artista
por um dia
vestir a máscara da alegria
tirar a maquiagem
sair do salto
pisar na areia
sorrir para o dia

Seria bom ser artista
por uma semana inteira
falar verdades e baboseira
nada de monotonia
platéias, bandeiras
destino jogado
sem eira nem beira

Seria bom ser artista
por um mês fechado
curtir a vida adoidado
ser mocinho, ser bandido
criar verdades e pecados
ficar rico, ficar pobre
ter um encontro marcado

Seria bom ser artista
pela vida afora
encenar sempre o agora
semana que dá semente
domingo que não demora
ter um palco-brincadeira
ver a vida indo embora

Seria bom ser artista
neste exato minuto
em que escrevo
ensaiando o script
que a vida me deu
por sorteio





Menina

Ei menina
vai embora não
preciso de você
pra poder sonhar

Comer nuvem
com calda de chocolate
morder a lua
e beber água do mar

Acreditar
que o amanhã existe
e que todos são capazes
de mudar

Enxergar a alma
de cada ser
e ter certeza de que
a bondade vai vingar

Ei menina
vai embora não
no corpo desta mulher
ainda bate seu coração
 




 



Luh Oliveira, pseudônimo da baiana Luciana Oliveira, nascida em Ilhéus,
terra de Jorge Amado. Revelou seus versos para o mundo virtual em 2005
e desde lá tem publicações em sites de literatura, e-books e em algumas
coletâneas: Coletânea Komedi (2007), Casa do Poeta Rio-Grandense - 42 anos (2006)
e 43 anos (2007), e Poesia do Brasil, volume 6 e 8.
Participa do Congresso Brasileiro de Poesia desde 2006.
É coordenadora do Proyecto Sur-Brasil
e também coordena o site Alma de Poeta, em sua cidade.
Divide seu tempo com seu trabalho nas escolas,
com suas filhas e com a POESIA, sua paixão.
 


Se você gostou indique o endereço: www.almadepoeta.com/luh_oliveira.htm
E envie seu comentário para o e-mail da autora:
lukaoliveira@oi.com.br
Mais poemas da Luh em:
www.almadepoeta.com/luholiveira.htm


Tenha sua Página Pessoal no Alma de Poeta


Clique na imagem acima.


home    galeria de arte    poetas em destaque    poetas 3x4    poetas imortais    colunistas    cinema    concursos

páginas pessoais     agenda poética     poetas no You Tube      fala poesia      entrevistas      histórico

Clique e entre


Seu site de poesia, arte e algo mais...


©Copyright 2000/2011 by Luiz Fernando Prôa

21/11/2008