Laura Esteves


Contos



A mulher, a pedra

 
A pedra era a segunda casa de Alice, a mulher faladeira.

Ela passava dias e dias ali, sentada.

Do seu posto, tomava conta da vida das mulheres da vizinhança. Só das mulheres, “porque homem pode tudo”, “porque em homem nada pega”, dizia.

Mulher tinha que ser direita, honesta e econômica. Ela não era assim?

Nunca teve amantes, mesmo sentindo as coxas em fogo e o corpo cheio de desejo. E poderia, pois Joventino, o marido que ela cerimoniosamente chamou de seu Gonçalves durante os oito anos de convivência, há muito havia partido, deixando-lhe, além de contas para pagar, mais tempo para se dedicar à pedra.

Se ela conseguia ser fiel à memória do falecido, por que Diva, mulher casada, com marido vivo, foi arranjar outro homem?

Ela, Alice, é que era uma boa mulher e, além do mais, controlava direitinho o dinheiro da família. As outras eram umas tontas, que só sabiam gastar em rouge e batom. Um desperdício!

E aquelas sem-vergonhas que casavam de véu e grinalda sem merecer?

Umas arrombadas! Mas não adiantava, a mentira logo aparecia: “A grinalda ficava torta na cabeça”.

Alice falava para as filhas pequenas: “Homem nenhum pode tocar nos peitos de vocês. Se encostar desaba tudo, os peitos caem”.

As meninas nada entendiam. As mocinhas da vizinhança ficavam apavoradas porque ela afirmava que sabia muito bem quem já estava ficando com os peitinhos caídos. Um terror em forma de mulher, que tudo via. Assim era Alice.

Inventava também e, com suas mentiras, destruiu muitos namoros, noivados e casamentos. Todas sentiam medo da fofoqueira, mas só cochichavam, nada de enfrentá-la.

O tempo passou. A pedra já tomava a forma da bunda da mulher.

As filhas cresceram, o mundo mudou, mas ela não se deu conta, tão entretida estava em falar mal da vida dos outros.

Jandira, a filha mais velha, arrumou emprego num escritório e iniciou a gastação: perfume, batom, calcinhas e vestidos.

Helena, a mais nova, arrumou um namorado e iniciou a gestação, com uma barriguinha de grávida que nem procurou esconder.

Aos poucos, Alice começou a perceber que algo diferente estava acontecendo: já não possuía tanto poder.

A vizinhança não ligava mais para o que ela falava. As mulheres usavam calça comprida, fumavam, traíam, transavam e riam dela pelas costas. O ano de 1968 foi terrível para Alice! Não agüentou e, pouco a pouco, foi enlouquecendo.

Pirou de vez no dia em que, por causa de uma obra, a pedra foi dinamitada. Ensandecida, catava as lascas da pedra e gritava todos os palavrões guardados dentro da cabeça, coração e útero.

Foi piorando cada vez mais e passou a ficar trancada dentro de casa.

Certo dia, logo pela manhã, as filhas notaram que algo estranho ocorria. Primeiro, foram algumas letrinhas aqui e acolá, espalhadas pela sala. Depois, a situação foi complicando: Alice xingava e as letras escorriam de sua boca, caindo ao chão, formando palavrões. As filhas, incrédulas, liam: vaca, safada, sacana, piranha... E, logo em seguida: porra, puta que pariu, vai se foder...

Jandira, aflita, varria as palavras para debaixo da cama e lá elas ficavam.

Helena, com um barrigão enorme, só conseguia chorar.

A vergonha era tanta, que as duas moças não comentaram com ninguém sobre aquela desgraça. Desgraça que acabou virando tragédia. Nervosa, Alice berrava cada vez mais alto e, à medida que aumentava o volume da voz, os palavrões caíam como cascata, inundando quarto, sala e cozinha.

Quando as palavras transbordaram e começaram a sair pela porta e pelas janelas, as filhas desistiram de tudo e foram embora.

Ao anoitecer, as mulheres do lugar encontraram Alice quase no teto da casa, afogada nas próprias palavras. Segurava um pedaço da pedra!
 



        Ibis Libris - RJ - 2004



Futuro do passado

 
Seis meses de vida, o médico falou para David. Direto, sem subterfúgios.
Ele aceitou, resignado, o pouco tempo que lhe restava. Sempre foi assim:
frio e racional. Conversou com a mulher. Falou com sua “doce Iracema”
sobre os sofrimentos que lhe aguardavam e como ela deveria proceder
em caso de dor extrema. Conversou sobre o futuro dos três filhos
homens e adolescentes. Medrosa, a mulher escutava em silêncio,
olhos bem abertos, para não perder nem uma só palavra.

– Traga meu livro de apontamentos, vou começar a inventariar tudo
o que temos – ele pediu à Iracema.

Ela, bem mandada, trouxe. E trouxe também um sofrimento enorme,
uma aflição sem tamanho, dentro do peito.

– O que vai ser de mim, David? Você é a coisa mais importante que eu tenho, meu primeiro e único homem. Não sei fazer nada, nunca trabalhei, nem cheque eu sei passar. O que vai ser do futuro dos meninos?

David teve pena daquela sua mulher tão solícita, tão terna e tão incompetente.

“Eu fui o culpado e agora preciso arrumar uma solução”, pensava o doente, dia e noite.

A solução apareceu no dia da passagem do ano. Os filhos na rua com os amigos, a mulher dormindo à custa de calmantes. Procurou o velho gravador e a fita cassete. Naquela mesma noite, começou as gravações.

Sem tempo para perder, David passava a maior parte da tarde gravando sentimentos, ordens e providências. Gravando o futuro:

“Iracema, eu gostei muito de você, tenha a certeza do meu afeto”.

“Continue assim como você é: dedicada aos nossos filhos e à casa”.

“Eu peço, pela última vez: não corte os cabelos, use cores discretas e não saia sozinha. O mundo é perigoso, minha querida”.

“Joãozinho é o único que tem capacidade para entrar no Colégio Militar, faça um sacrifício e pague um cursinho”.

“Pedro e Daniel deverão passar para uma escola noturna, pois irão trabalhar durante o dia”.

“Você poderá fazer salgadinhos em casa e conseguir uma renda extra”.

“Abra uma conta conjunta com meu irmão Nilton. Ele entende tudo de banco. Aliás, ele pode ajudar na questão da minha aposentadoria, da pensão”.

“Todos os meses faça uma lista com as despesas. Exatamente, como eu fazia. Pegue meus apontamentos na primeira gaveta da cômoda do nosso quarto. Nilton pode ajudar também”.

Tim-tim por tim-tim, foi tudo explicado. Sessenta dias de gravação. O futuro em quinze fitas cassetes. David morreu três meses depois. Em paz com a sua consciência.

Ano seguinte, na missa pela alma de David, todos comentavam: “Como a viúva remoçou”.

Três anos depois, amigos e familiares foram convidados para a recepção do casamento de Iracema e Nilton. Festança de varar a noite, em clube chique da zona sul. Ela, cabelos curtos, vestido grená. O casal aproveitava para comemorar também a inauguração da cafeteria da “doce Iracema” e a entrada de Joãozinho na escola de Artes Dramáticas. Um talento no palco! Os outros filhos não puderam comparecer, estavam em excursão com uma banda de rock pelo interior de São Paulo. Vocalista e percussionista.

As quinze fitas aguardam, no sótão da casa da Tijuca, um futuro que jamais aconteceu.

 



Paredes

Tão linda!,
todos diziam da mãe. Era a mais bonita de Petrópolis. Dia de festa na escola, fazia questão: chegava de braço dado com ela. O pai junto, apaixonado. Uma rainha mimada e seu séqüito. Não sei quando tudo começou. Acho que foi lá pelos idos de 1954. Eu, perdido nos meus catorze anos e só pensando nas meninas. Mãe danou de ficar triste, falando pelos cantos:

– Ele vai chorar lágrimas de sangue.

– Quem, mãe?

– Nada, ninguém. Vá estudar, não se meta com os mais velhos. Que vergonha, meu Deus! Que vergonha!

– O que a senhora está falando?

– Não importa. Cuide da sua vida.

A primeira parede, ela ergueu no ano seguinte: junho de 1955. Eu tinha acabado de completar quinze anos.

– Mãe, logo na sala? Tanto espaço no jardim! A senhora falou com o pai?

– Falar o quê, menino? Nem vejo mais Leonel.

– Verdade, ele não liga mais pra gente. Passa o dia fora. Não tem sábado nem domingo.

– Deixe seu pai em paz, já falei! Tome conta da sua vida! Quero tudo branco. Paredes e chão. Minha sala de estar.

Eu saía para as brincadeiras e namoros no clube. Já nem me lembrava do acontecido. Mãe, sozinha. Ela e os empregados.

Ali, na sua sala, passava a maior parte do tempo. Lia revistas, fazia crochê e as refeições também. Escrevia intermináveis cartas. Engordava.

A segunda parede surgiu três anos depois. Eu estava entrando para a faculdade de Engenharia. Em breve, estaria fora de casa, morando com amigos no Flamengo. Livre e feliz.

– Mãe, deixe disso. A sala está ficando pequena. A casa perdeu o estilo. Salinhas, salinhas... Vamos ao Rio. Está passando um filme ótimo no Rian, em Copacabana. Eu levo você. Vamos chamar o pai.

– Quero seu pai fora disso. Não toque no seu nome. Vou ficar aqui vendo minha televisão. Não se intrometa no que não lhe diz respeito!

Lá ia eu em paz com minha consciência: “Fiz o que pude”.

Minha mãe engordou muito: cem quilos. Mal conseguia andar. O belo rosto disforme. Nunca mais foi à rua. Eu pouco aparecia por lá.

Quando completou quarenta e cinco anos, exatamente no mesmo dia, ela iniciou a terceira parede. Quarenta e cinco anos e parecia uma velha matrona.

Sentada em sua cadeira de balanço, na salinha dois por dois, continuava sua misteriosa correspondência sem volta.

Papai? Este continuava encantando e encantado pela vida. Vivia pelas ruas. Ele e o acordeão. Ele e as mulheres.

Pai e mãe faleceram, já lá se vai um tempão. As paredes estão lá. Não mexi em nada. As cartas, nunca as encontrei.

A antiga empregada, quase noventa anos, diz que escuta vozes vindo das paredes. São cartas de mulher apaixonada.  Ela tem certeza. Para mim, são alucinações. Coisa de gente caduca.

Por que conto esta história? Não sei, talvez arrependimento. Poderia ter feito mais. Ajudado a mãe. Mas o que eu podia fazer? Fui ensinado assim: “Não se intrometa na vida dos outros”.
 




Desejos


– Domingas, venha cá! Vou lhe dar anel de noivado, pulseira e cordãozinho. Quero casar logo, no juiz e na igreja.

Durante anos, esperaram a morte do velho. Ele não morreu e desandou a ter desejos. Apaixonou-se por mulher mais jovem.

– Absurdo casar nesta idade! Já falei para o Jonas que ele não pode permitir que o pai caia na armadilha da sem-vergonha. Tem que tomar providências!

– Isto mesmo, mãe. Pobre do vô! Não vamos deixar. Ninguém toma o lugar da vó Deolinda, que está lá no céu, olhando. A enfermeira sabida quer é ser dona deste apartamento.

– Três quartos, na Tijuca, não é pra qualquer um, Sara. seu avô trabalhou muito pra conseguir.

– Ela não vai nem esperar ele morrer. Vende e gasta tudo.

– Morrer?! Vira a boca pro outro lado, menina! Seu Augusto tem que viver muito ainda. Jonas é um moleirão mesmo, sem emprego, essa pobreza franciscana... Se não fosse o dinheiro da aposentadoria da universidade, Deus nos livre!

– Domingas, cadê você? Não me deixe, meu amor! – implorava o velhinho.

Não adiantou. A enfermeira foi mandada embora.

O único momento de felicidade era quando ele conseguia ligar para o hospital onde ela trabalhava.

– Seu Augusto, este mês a conta do telefone foi astronômica. Vamos economizar. O dinheiro não está chegando – avisou a nora.

O telefone foi bloqueado: chave, corrente, cadeado.

O velho balançou a cabeça. E se conformou por algum tempo.

– Vou mudar, minha gente. Apartamento pequeno, quarto e sala, uma nesga de vista para o mar. Tão bom ver o horizonte!

Sonho antigo, que só agora ele tinha coragem para contar.

Queria tanto ver os navios chegando e saindo carregados de tudo que houvesse! PUUU! PUUU! “Lá vai um barquinho carregadinho de...”, assim ele brincava com a neta Sarita, quando ela era criança.

– O vô está diferente, deve ser esclerose. Mudar pra Copacabana, lugar de sem-vergonhices, onde já se viu?

– Tenho medo de que ele venda o que tem e fique sem nada.

– Não vamos deixar. Vou falar com o pai.

– Não se preocupe, querida, Jonas sabe muito bem que o velho precisa morar aqui com a gente. Afinal, quem toma conta da pensão dele? Se não ficarmos atentos, ele gasta tudo em bobagens: chocolate, lavanda, lenços de bolso, até aula de dança. Virou um esbanjador.

De mudança nunca mais ninguém falou. Assunto proibido! Tristonho, o velho passava os dias procurando anúncios de apartamentos nos classificados: “Copacabana, com vista para o mar”.

Minucioso, recortava os pedacinhos de jornal e colava tudo, bem certinho, numa folha de cartolina branca, formando figuras de peixes, barcos e pássaros.  Repetia e repetia sem cessar:

– Eu quero voar, eu quero nadar, sair pelo mundo, me esborrachar. Eu quero voar, eu quero nadar...

– Jonas, precisamos distrair o seu pai. O coitado está com idéia fixa. Canta e corta jornal o dia inteiro.

– Pai, de hoje em diante, nada de jornal, está bem? Não fique triste. Tome esta revista do mês passado. Foi o namorado da Sarita quem mandou. Ele gosta muito do senhor. Vai trazer sempre.

Resignado, seu Augusto balançou a cabeça novamente e pegou a revista.

Moça bonita na capa, receitas de dar água na boca. Tudo o que ele sempre amou. O velhinho ficou feliz. Copiava e copiava o tal Cabrito alentejano. Namorava e namorava a modelo que o espiava do retângulo de papel brilhante.

– Vovô não larga a revista nem para ir ao banheiro.

– Velho saliente, isso sim, minha filha. Vai acabar enfartando antes da hora, melhor acabar com essa história de revista.

Almoço de sábado, família reunida, o velhinho começou a chorar.

– Não como, não gosto!

Um aperto no coração, vontade das coisas boas do passado: Jonas ainda pequeno, Deolinda muito nova, na cozinha preparando a comida para a família. O cheiro do tempero dourando na panela e chegando até a sala, o feijão socadinho, o bife acebolado, o tomate em rodelas.

– Quero um bife de verdade. Quero sentir o gostinho de antigamente. O bife da minha mulher.

– Jonas, converse com o seu pai. Eu estou pensando no bem dele. Depois dos sessenta, só carne de soja. Já está com quase oitenta. Antigamente... Antigamente... Que mania!

– Pai, seja razoável! Silvana adora o senhor. Está preocupada com a sua saúde. Deixe a carne para os mais jovens!

O velho ficou quieto, baixou os olhos e deixou de comer. De vez em quando, um copo de leite ou uma fruta. Começou a definhar.

– Quero morrer logo. Minha vida está muito sem graça, não tem mais sentido. Deus, por favor, me leve!

– Não pode, seu Augusto. Que desejo mais doido! Como vamos viver sem o senhor?

Outra vez ele concordou e, em silêncio, permaneceu: sem uma queixa ou alegria. Durou mais cinco anos. Tempo suficiente para Jonas arrumar emprego, se aprumar na vida e a neta acabar os estudos.

– Agora sim, pode ir em paz, seu Augusto. Mas desculpe, vai ser enterrado no Catumbi. O senhor entende, é mais perto de casa. Prometo que vamos cuidar muito bem de seu túmulo.

Cemitério São João Batista... Lugar de grã-fino... Velho besta! Onde já se viu tamanho desperdício?
 




  Classificados


    Aqui está:

Casa de vila no Encantado.

Antiga: MCMXXX. Varanda,

2 quartos, sala, cozinha,

banheiro e puxado com tanque.

Só 50 mil!

 
Não vende! Está anunciada há quase dois anos: jornal e placa na porta.

Os poucos interessados olham, olham... Perguntam o que deve ser perguntado e desaparecem.

E eu sei o porquê. Acompanhei tudo. Para que servem os meus oitenta anos? O moço da imobiliária, novinho, o coitado, não sabe.

Casa é como gente: tem história e destino.

Os primeiros moradores foram dona Cacilda e seu Antero, pais da menina Salete. Bela moça!

Ali, na varanda, junto à samambaia, Alfredo começou a namorar Salete. Corria o ano de 1945. A guerra estava acabando, por isso, guardei bem.

Foi um casamento de contos de fada. Os doces vieram de Campos, coisa de tia solteirona: rocambole de goiabada, papo-de-anjo, pingo-de-ouro, chuvisco, bala de coco feita na pedra de mármore, casadinho branco e preto, beijinho, baba-de-moça na compoteira... Tudo no maior capricho, enfeitado com fitas, fitilhos, miosótis e arabescos. Um luxo!

A noiva parecia uma princesa saindo das nuvens.

Ficaram morando ali mesmo. No quarto da frente, o de cor lilás. Deus me perdoe, mas é a cor do pecado!

As crianças foram nascendo em fieira e virando tudo anjinho: um, dois, três, quatro... Só vingou o Cado, doente, doente... Salete seguia triste. O marido, na rua, seguia na maior farra. De repente, o povo da vila danou a falar de Salete: “Tá mudada”, “usando calça de homem”, “saindo todos os dias”, essas coisas.

Naquele 27 de setembro de 1958, dia de Cosme e Damião, Alfredo chegou mareado: pra lá e pra cá. Bebida, muita bebida.

Foram dois tiros na mulher. Ela caiu no chão do quarto lilás.

A praga saiu da boca da pobre, com o último suspiro: “Danação! Ninguém, nunca mais, conseguirá viver sob este teto!”

O resto, todos da vila conhecem muito bem: mortes, doenças, brigas, ciúmes (que já é quase morte).

Quem vai comprar esta casa com seu triste destino?

O senhor está interessado?
 




O poeta-soldado

 
O envelope chegou no fim do ano, véspera de Natal. Não era um cartão de boas-festas. Dentro, uma convocação. Embarcou no dia nove de fevereiro.

Deixou com a irmã os intermináveis escritos. Tudo bem arrumado, em pasta de papelão. “Um tesouro”, disse antes de embarcar. Chegou à ilha uma semana depois. Viagem de navio. Após seis meses regressou, chorando e repetindo: “Marchar.” “Atirar.” “Barulho.” “Morte.” “Inimigo.” “Meu coração.” “Não agüento.” “Meu Deus!” Foi internado no asilo de loucos em junho de 1944. Disciplinado, marchava todos os dias pelos corredores de azulejos azuis. Os outros atrás. Felizes, recitavam poemas de Drummond, Cecília, Bandeira, Cassiano... Um, dois; um, dois... “Num salão de Paris/ a linda moça de olhar gris/ toma café/ moça feliz...” Um, dois; um, dois... A pasta de papelão, debaixo do braço, estourando de palavras bonitas: algaravia, alfenim, alegoria, alcaçuz... Os enfermeiros riam das estranhas palavras, da estranha parada militar. “Continue poeta-soldado, continue. Nosso comandante está chegando para a revista geral”. Morreu vinte anos depois. Levou novas palavras consigo: solidão, deboche, desprezo.
 




Viagem no tempo
 

Naquela madrugada de novembro, o único barulho era o do bonde subindo as ladeiras do Chiado. Foi quando José Lourenço tomou-se de coragem e se chegou ao poeta. Sentou-se, cheio de mesuras:

– Licença, por obséquio, com o seu consentimento...

Não fosse o poeta tomá-lo por um tonto, mas, num momento tão importante como aquele, uma bagaceira até que desceria muito bem.

– Então, o poeta também gosta? Grande maroto! Deixa-te estar, que amanhã trago dois copitos e a garrafa cheia.

Passados alguns meses, ousou mostrar ao poeta seus primeiros versos e sentiu a aceitação no olhar de Pessoa. Daí desandou a falar sobre o “Passeio dos tristes” e “A roda do vento”. Tudo o poeta, complacente, aprovava. A cada aprovação, mais e mais copos de bagaceira. E assim fez José Lourenço, por quinze anos seguidos.

Bebida, versos inacabados e risos dos vizinhos pelas frestas das janelas do Chiado.

Pileques sem fim de José Lourenço, que morreu de cirrose hepática no Hospital Beneficente.

Foi enterrado, sem acompanhamento, no Cemitério dos Prazeres.

Contam que, naquela noite, o poeta Fernando Pessoa sentiu-se mais só e uma lágrima desceu pela face da sua estátua de bronze, sentada, como sempre, à porta do café “A Brasileira”.

Seria o orvalho?

                                     Lisboa, 1998




Uma luz na escuridão


Era preta retinta. Uma negrinha triste e batida. Vivia pela cozinha molhando legumes e verduras com suas lágrimas. As meninas da casa gritando por ela:

– Nega suja, cadê meu vestido novo?

– Nega suja, você já preparou o meu suco?

Tanto que ela queria ser clarinha como “as meninas da casa”! Por que só as palmas dos pés e das mãos eram brancas? Hora do banho, esfregava bem o corpo, com força e bicarbonato. Não adiantava. Dia de domingo, acordava muito cedo e ia pra dentro do rio: horas e horas de banho. Continuava negrinha, mas não perdia as esperanças.

Naquela noite, faria o que as meninas lhe haviam ensinado. Daria certo, tinha certeza. Jogou álcool por todo o corpo e riscou o fósforo.
 




Retratos


Fim de tarde, o casal chega à Praça XV. Vão em busca do cromo prometido por Giuseppe. “Uma jóia, seu Daniel, uma jóia. Bem amarelado, em relevo, a mocinha do barco parece sorrir pra gente. Raridade. Trago na próxima semana”, o italiano havia prometido.

Enquanto o marido se debruça sobre a figura, Gucha, curiosa, examina fotos antigas: mulheres vestidas de renda, boquinhas pintadas, guirlandas, famílias inteiras com o patriarca.

– Amor, veja como este rapaz é parecido com você. É a sua cara mais jovem... Um belo retrato de casamento.

Daniel se aproxima e leva um susto. Coração aos saltos, grita descontrolado:

– Como o senhor conseguiu isto?

– Comprei de uma dona lá pras bandas da Usina. Gostou? Vendo baratinho.Vendo todas. É uma coleção de dez. Mas são recentes, coisa de trinta anos no máximo, veja a data atrás. Comprei só pra ajudar, nem valem muito. Têm certo clima anos 70: calça boca-de-sino, noiva hippie, flores...

– Como Isaltina teve coragem? Não respeitou nem a morte da irmã. Pobre Celinha, não merecia passar por isso. No fundo, era uma santa mulher. Aturou poucas e boas. Eu fui danado, seu Giuseppe. Repara como os olhos dela estão expressivos!

Daniel, comovido, chora. O vendedor, atônito, nada entende. Gucha, sem graça, tenta contornar o que não tem jeito.

– Daniel, meu bem, do que você está falando?

– Ela me chamava de Dan Dan. Tão carinhosa. Meu primeiro casamento. A cara de contentamento de Celinha... Minha túnica bordada... Nunca mais. Eu quero estas fotos, são minhas.

– Só pagando, seu Daniel. Só pagando.

– Elas me pertencem. O senhor está roubando um pedaço de mim.

– Daniel, você enlouqueceu. Não é justo falar assim na minha frente. Eu largo você agora mesmo — Gucha fala, soluçando.

– Larga? Tudo bem, pode largar, mas eu quero o que é meu.

– Só comprando, vendo pela metade do preço – responde prontamente o vendedor.

– Metade? Negócio fechado. Cinqüenta cada... Quinhentos... Metade, duzentos e cinqüenta. Eu levo tudo.

– Daniel, eu exijo respeito, sou a sua mulher e não quero estas fotografias velhas lá em casa, jogo tudo no lixo – Gucha não se controla, grita, histérica.

– Leva tudo, seu Daniel. Não liga para o que ela diz. Casamento é o primeiro, os outros são mera repetição. A falecida será eternamente grata ao senhor – o vendedor está feliz e apreensivo, quer finalizar a transação.

– Ou eu, ou as fotos! Esta é a sua última chance! – a mulher chora convulsivamente.

Transeuntes se aproximam atraídos pelos gritos e pelas lágrimas. A roda aumenta cada vez mais. Sussurros, palavras. Torcidas se organizam:

Leva! Não leva! Larga essa bruaca, ela não tem coração! Se fosse meu marido, eu ia embora agora mesmo. Que sujeito safado. O primeiro amor a gente não esquece!

De repente, saído da multidão, cabelos longos, colete bordado, lantejoulas, aparece o lambe-lambe. Aproxima-se do grupo, entrega uma guirlanda de flores para Gucha enfeitar os cabelos, uma capa bordada para Daniel – um príncipe – e rosas para o povo presente. A foto é tirada em frente ao chafariz de Mestre Valentim.

– Noivo beija a noiva. Ênfase! Ênfase! Seu Giuseppe, por favor, segure as antigas fotos. Quero elas em destaque. Os outros... Figuração! Todos sorrindo! Olha o passarinho! Bela foto! Vai valer muito no futuro. Tem história...
 




Diversão


Todos os da minha idade já se foram. Só resta eu. Os mais jovens me olham como se eu fosse uma caixa velha, esquecida no meio da sala. Uma caixa da qual retiraram a boneca e deixaram as tripas de celofane pra fora. De vez em quando, uns restos de sorriso nas caras bobas de meus netos. Sobras de alguém, de um amigo ou namorado. Me agarro àquelas sobras de alegria.

Tento, com muito esforço, subir pelos seus fios. Não consigo, e logo os restos de sorriso se apagam. O rosto se fecha. Me olham de cara feia. Estorvo! E lá estou eu, novamente sozinha, contando as pintas pretas do dorso da minha mão.

– Não é dorso, bisa: é torço.

Que meninos ignorantes! Me divirto com tanta burrice. Estico a corda.

– Pegue a almotolia, Carlinhos. Vou lubrificar a máquina de costura.

– Caluda, Vandinha! Preciso descansar.

– Leo, você está parecendo um mondongo. Tome jeito, menino!

Eles nem sabem do que se trata, do que eu estou falando. Falta de cultura.

E você, já pegou o dicionário?
 


Todos os textos foram extraídos do livro A mulher, a pedra.

Veja também: www.almadepoeta.com/lauraesteves.htm
E-mail:
laura.esteves@terra.com.br


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