Laura Esteves


preciso de um mapa                uma rota bem feita                    uma trilha segura                 que me leve inteira



Rastros

Perguntas tanto...

 Queres me conhecer inteira.

Impossível! Impossível!

Existem apenas vestígios.

Em meus andares, vou deixando rastros.

Pegadas que sinalizam quem sou.

É só ficares atento

ao vestido sobre a cadeira,

às dobras do meu casaco,

às sobras do meu sorriso,

ao meu olhar triste e opaco.

É só prestares atenção

ao meu resto de bebida,

intacto, no fundo do copo;

ao que desenho no papel

quando estou bem distraída;

ao jeito como fecho a porta

e como toco a campainha.

Repara aquela natureza morta

junto ao degrau da escada,

meu belo bule de barro,

a colcha de barra bordada

e a flor que murcha no jarro.

Poemas também deixam vestígios.

Metáforas, alegorias.

Por eles, se chega a atalhos,

retalhos de toda uma vida.

Se queres um pouco de mim,

procura em minha poesia.
 



Comunhão


Minha caneca de ágata

 
era de um azul-que-não-mais-existe.

 Agora, só na minha memória,

 nesta vontade de voltar ao Engenho-Novo,

puxar a saia da mãe

e receber a caneca de suas mãos:

 o pão molhado no café-com-leite.

 Minha hóstia. Aqui, mãe: eu necessito.

 


    Falo do amor                         falo da morte                   de inveja            limite          saudade                             - do que é humano


Corpo & Alma

 
Quem à minha porta bate, pedindo guarida,

 entra por algumas horas,

bebe da minha água,

come da minha comida.


Quem o meu corpo toca, cheio de tesão,

fica por algum tempo,

goza com minhas carícias,

se encharca de paixão.


Quem esbarra em minha alma,

este sim, é pra vida inteira,

terá o meu amor,

o meu saber, o meu sabor
 

              e o calor da minha fogueira.

 



Transmutação


A poesia espana o meu cotidiano.

 A poeira sobe, se esparrama

 e brilha à luz do sol.

Tudo me pertence.

Sinto, ouço, vejo, transformo.

Tenho licença.

Falo do objeto:

matizes, serventias,

 conteúdo, transcendência.

Falo não só da caneca,

 mas do cálice sagrado.

Falo do amor, falo da morte,

                                    de inveja, limite, saudade,

- do que é humano.

 Tão simples, tão complicado.

A poesia espanta o meu cotidiano!
 


poemas também deixam vestígios                                metáforas, alegorias                                 por eles, se chega a atalhos                                retalhos de toda uma vida


 Uma luz sobre nós


Corpo em arco, flecha em chama,

 direção: céu.

Virou estrela!

Estrelas são mulheres, têm luz própria.

Você é exceção.

Estrela macho, ao lado de Aldebarã: Galdino e Aldebarã.

Um astrônomo, uma surpresa, uma nova estrela!

O Huble mostrará você bem prosa,

tudo iluminando: corações e mentes.

Raio azul da compaixão! Compaixão pelos meninos.

Assassinos que vivem sob o manto do poder.

Poder que manda/ mata/ mente.

Compaixão pelos rapazes e moças

que, sem ideais ou causas, pelejam as falsas batalhas.

Compaixão pelas mães dos cinco jovens.

Culpadas, como só as mulheres sabem ser.

Perplexas e perdidas neste mundo. Sem referências.

Compaixão por nós, brasileiros,

elite deste país, preocupados apenas

com nossas coisas pequenas.

Estrela pataxó, por favor, um raio de luz

para os marginalizados e excluídos!

Estes de que nos fala Saramago, em seu “Ensaio sobre a cegueira” .

Presentes aqui, todos:

os índios, Galdino, seus irmãos;

os sem-terra e os sem teto;

as crianças que trabalham como gente grande;

os meninos de rua, que tanto tememos;

as mulheres que apanham de seus homens;

os doentes sem socorro;

os homossexuais assassinados;

as prostitutas que ganham/perdem a vida nas calçadas;

os favelados, que vivem em guetos;

os escravos, nas minas e nas lavouras;

os poderosos, guardados em seus modernos castelos

e que de lá não podem sair.

Um raio de luz, Galdino, índio/estrela!

Possamos nós enxergar tão claro

que desperte em todos a possibilidade

de um mundo novo,

uma nova utopia.

 

( Escrito no dia da morte do índio Galdino )
 


 


Desertor


Tem dia que deserto de mim.

O fenômeno acontece poucas vezes.

Decerto, porque sou forte por natureza.

Nesses dias, vago tonto na poeira.

Não atendo súplica nem pedido.

Perdido em meu mundo periférico,

viro seixas e torquato,

viro pedra, viro seixo,

                          viro a vida a três por quatro,

viro pedra, viro seixo,

                           viro a vida a três por quatro.

“Louco!”, escuto à minha passagem.

Então, estremeço e caio estático.

Querem saber o porquê?

É que eu morro de medo

de hospital psiquiátrico.
 


Transgrido    sofro    estou viva              Todos os dramas humanos são meus                Toda alegria da vida é minha


Cheiro

           
M A R E S I A
 R
 O
        S E X O
 




Lúcida Mente Louca


era um louco

que refletia quieto num canto

                                      filósofo

que recitava poemas de vanguarda

                                      pós-moderno

que pregava ajoelhado para o povo

                                      visionário

que distribuía fantasias para todos

                                      folião

que dançava seminu pelas ruas

                                      feliz

que cumprimentava as estátuas

                                      fidalgo

que urinava em cada poste

                                debochado

filósofo/pós-moderno/visionário/folião/feliz/fidalgo/debochado

os outros riam dele

                   histéricos

xingavam e gritavam/

                   mal-educados

jogavam pedras

                   sem compaixão

histéricos/mal-educados/sem compaixão    

                                      quem era o louco?                
  


Trago rugas no rosto, não trago rugas na alma.                               Esta, conservo intacta, apesar dos desvarios.                             Tratada com delicadeza, aconchego e atavios.


Ode à Tropicália

                                         Para Torquato Neto e Mário de Andrade
                                 

Abro a janela e, orgulhosa,

vejo um Continente:

oito milhões de quilômetros quadrados,

o maior rio navegável,

o maior superávit primário,

a maior fome,

o maior futebol,

a maior miséria,

o maior carnaval,

a maior floresta do mundo.

É a maior! É a maior!

É a maior roubada.

Onça, quati, queixada.

Em tempo, viva Ademir Menezes!

Viva Mané Garrincha!

Viva a Copa de cinqüenta!

Voa canarinho, voa.

Xô periquito, pintassilgo, papagaio.

Sabiá já foi pro exílio.

Vocês não vão escapar.

Duzentos milhões em ação.

Salve a seleção ( de basquete )...

da U.S.A, via canal da NET.

Búfalos, gaviões, rapinas.

Um enorme hipermercado.

Globalizado!!!

Consumo, balança de pagamentos.

Balança, quase cai, mas se agüenta.

Balança a vida, o rabo e a banda.

Irajá, Copacabana, Ipanema.

Super delícias para todos.

Cessão de direitos.

Levem o solo e o sub-solo.

É um país legal, super neoliberal.

Seção de importados.

Jack Daniel, chicletes, games,

Reebok, rapadura, macacheira.

Ah, que orgulho!

Eta, lougar arretado

parra eu jougar o minha esteirra.”

Bumba, bamba, bunda.

Meu boi: alcatra, rabada, coxão.

De norte a sul, de leste a oeste,

em nenhum lugar, encontrarás

um filé-mignon como este.

Meu bom: no pé.

Samba, baião, hip-hop.

Rock, axé, fox-trot.

                             Guitarra, pandeiro, violão.

Pixinguinha centenário.

Carinhoso, carcará, canário.

Pego, mato e como, que eu não sou besta.

Besta, que mata, é a fome.

Meu bumbum: papa fina.

Preferência nacional.

Gringo passeia, agarrado

à boneca de pixe/cabelos de lã.

Segura mãos, peitos, bunda

Segura o tchan.

Tchan! Tchan! Tchan!

Repito meus senhores:

sinto orgulho de morar neste lugar.

Brasil: americano/asiático/africano.

Internacional!

MIXegenado! Mistura tudo.

Mistura fina, o mais novo prazer.

Branco/ índio/preto/

mameluco/mais maluco/

cafuso/confuso/

urubus/airbus/

dengo/dengue.

Quatrocentões sem grana.

Emergentes com grama:

celulares, BMWs, bytes, softs.

        Nada mais importa.        

Tudo importado.

                            Aculturado.

A Barra é nossa Miami.

                                                  Que beleza!

Colonização.

Capim colonião,

onde se esconde capivara,

anta, político, ladrão.

País verde, amarelo, platinado.

Plim! Plim!

Purpurina!

Pelos becos: lágrimas, suor e urina.

País muito vermelho.

É o comunismo chegando?

Não! Não! E não!

Vermelho é o sangue

                            que escorre dos esgotos

                         desta nação.



Constructor sui
- para as mulheres que precisam se construir a cada dia -

Trago rugas no rosto, não trago rugas na alma.

Esta, conservo intacta, apesar dos desvarios.

Tratada com delicadeza, aconchego e atavios.

                         
  E vou lhe dizer o porquê.                   

Escute com atenção, o a-bê-cê desta mulher madura,

mistura de santa e puta,

                                   mistura de carnaval e clausura:

meus seios mataram a fome de homens e de crianças;

o ventre, meu ninho/minha gruta, já não tão liso,

                                        gerou os filhos que irão me continuar;

os vincos de meu rosto, uma paisagem

                                   com rios que correm formando trilhas,

são os risos, as lágrimas, as gargalhadas que derramei;

o olhar, um tanto opaco, revela tudo o que eu passei.

Mas estejam certos: busquei sempre a felicidade,

esta estranha palavra que demorei tanto a entender.

Sou ainda a menina assombrada com a vida.

Tenho um coração que palpita, salta, transborda

Apaixono-me, desmesuradamente, por tudo que faço ou toco:

Bicho, planta, planos, gente.

Sou o sonho, sou o susto, sou mais sábia.

Uma sabiá que pela Via-Láctea faz firulas.

Que não teme o novo nem a aventura.

Uma sabiá que faz ninho no telhado.

Se aquieta e aprende com o passado.

Assim eu sou. Eu sou assim.

Um ser que se transforma até o fim.

Que transgride, se acomoda.

E nesta contradição, de maneira surpreendente,

me construo, sempre, sempre. 

Eu sou aquela do espelho:

mais gorda, mais inteligente, mais generosa.

Sou importante para alguns, sou importante para mim.

         Instauro o meu domínio. Decido até onde ir.         

Transgrido. Sofro. Estou viva.

Todos os dramas humanos são meus.

Toda alegria da vida é minha.

Vida, esta grande viagem, dia a dia, mês a mês,

       onde somos aprendizes e PhDês.        

            Meu peito caiu? Não faz mal.              

Sou tudo de bom. Sou inteira.

Mulher/sabiá-laranjeira.

             Mulher/mistério. Abissal.              
 


 



Noivado


vou é pra Catanduvas
não gosto do frio
gosto do nome
do som:
catando uvas
não sei aonde fica
nem como chegar

preciso de um mapa
uma rota bem feita
uma trilha segura
que me leve inteira
a esse lugar

vou buscar o rapaz
que mora na roça
não conhece o mar
que vai trazer o bolso
da calça bem cheio
de tudo o que tem
pedra colorida
sapo seco/ferreiro
gafanhoto verdinho
galho de alecrim
e anel de noivado também

o rapaz é tímido
mas comigo não é
me beija e abraça
segura na mão
me chama de amor
me faz cafuné

só não chama de benzinho
eu não gosto não
benzinho é mentiroso
bem de quem
já não quer tanto bem
costume/acomodação

meu rapaz é valente
corajoso e nada teme
mula sem cabeça
homem da meia-noite
mulher de branco
assombração
cavalo de fogo
corisco/jagunço/danação

ele tem espada de ouro
que brilha ao sol
ele tem o tesouro do mouro
que por Catanduvas andou
ele tem o encanto
que o encantado encantou

tudo ele tem
pedra colorida
sapo seco/ferreiro
gafanhoto verdinho
galho de alecrim
anel de noivado também

eu? ah!
já tenho o mapa
a rota
a trilha
as uvas
o mar
o anel
o noivo
e já posso chegar
 



                                 
Laura Esteves

 

Nasceu e vive no Rio de Janeiro.
A descendência portuguesa e a infância pobre vivida
nos subúrbios marcaram fortemente sua escrita.
A aldeia dos ancestrais, as festas, as histórias de assombração,
os mistérios da vida, os discursos do avô, as cantigas de roda,
a eterna conversa das vizinhas, os loucos do lugar,
a morte das crianças, a luta das mulheres, os excluídos,
são temas recorrentes em sua obra.

Pertence ao grupo  Poesia Simplesmente, que  realiza o
“ Festival Carioca de Poesia”
e o evento
“Terça conVerso no café”,
no Teatro Gláucio Gill, em Copacabana.

Seu primeiro livro de poemas, Transgressão,
foi editado pela Sette Letras, em 97.
O segundo, um romance memorialista lançado em dezembro de 98,
O sabor, o saber e o sonho: a fome secular dos Oliveira
,
conta a saga de uma família, desde a seca de 1877 até os dias de hoje.
Como água que brota na fonte
, poesia, ( Editora Barcarola, outubro de 2000 )
foi seu terceiro livro individual. Em 2005, publicou um livro de contos:
A mulher, a pedra
. ( Editora Ibis Libris ).

Laura colabora com o Jornal Rio Letras,
é curadora do Fórum Poesia ( UFRJ )
há três anos e foi uma das premiadas do
“Concurso Contos do Rio”/2004, do jornal “O Globo”.
 


Se você gostou, escreva para: laura.esteves@terra.com.br
Ou indique o endereço: www.almadepoeta.com/lauraesteves.htm


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