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Juras Secretas
Jura secreta
não fosse essa jura secreta
mesmo se fosse
e eu não falasse
com esse punhal de prata
o sal sob o teu vestido
o sangue
no fluxo sagrado
sem nenhum segredo
esse relógio
apontado pra lua
não fosse essa jura secreta
mesmo se fosse
eu não dissesse
essa ostra no mar
das suas pernas
como um conto
do marques de sade
no silêncio
logo depois do susto
Jura secreta 1
a língua
escava entre os dentes
a palavra nova
fulinaimânica/sagarínica
algumas vezes muito prosa
outras vezes muito cínica
tudo o que quero conhecer
a pele do teu nome
a segunda pele
o sobrenome
no que posso no que quero
a pele em flor a flor da pele
a palavra dandi em corpo nu
a língua em fogo a língua crua
a língua nova a língua nua
fulinaímica/sagaranagem
palavra texto palavra imagem
quando no céu da tua boca
a língua viva se transmuta na viagem.
Jura secreta 2
não fosse esse punhal de prata
mesmo se fosse
e eu não quisesse
o sangue sob o teu vestido
o sal no fluxo sagrado
sem qualquer segredo
esse rio das ostras
entre suas pernas
o beijo no instante trágico
a lingua
sem que ninguém soubesse
no silêncio
como susto mágico
e esse relógio sádico
como um marquês de sade
quando é primavera.
Jura
secreta 3
fosse
essa jura sagrada
como uma boda de sangue
às 5 horas da tarde
a cara triste da morte
como uma faca de dois gumes
naquela nova granada
e federico garcia lorca
naquela noite de espanha
não escrevesse mais nada
Jura
secreta 4
a menina dos meus olhos
com os
nervos à flor da pele
brinca de bem-me-quer
ela inda pensa que é menina
mas já é quase uma mulher
Juras Secretas: Feitiçarias de Artur
Gomes
Por Michèle
Sato
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Jura secreta 28
eu sou drummundo
e me confundo
na matéria
amorosa
posso estar
na fina flor
da juventude
ou atitude
de uma rima primorosa
e até na pele/pedra
quando me invoco
e me desbundo
baratino
e então provoco
umbarafundo
cabralino
e meto letra
no meu verso
estando prosa
e vou pro fundo
do mais fundo
o mais profundo
mineral
guimarães rosa
Jura secreta 29
para Michèlle Sato
eu sei de gentes e bichos
ambos atolados no lixo
tem gente que come bicho
tem bicho que come gente
tem gente que vive no lixo
tem lixo que mora no bicho
gente que sabe que é bicho
e bicho que pensa ser gente
eu sei de entradas e meios
inteiros meio-ambiente
meio que explode de lixo
lixo que serve pra gente
gente que cala e é bicho
bicho que nunca foi gente
e a gente só sabe ser lixo
se não desfaz o lixo da gente
Jura secreta 30
uma estrela do mar
molhada entre os meus dentes
e a tua flor que abre e fecha
púrpura e pétala
pulsando nos meus dedos
tudo em carne viva
corpo estrela água e sal
espermas no céu da boca
enchentes que me transbordam
veias de mar e sangue
onde tudo é desvario
carne lama mangue e rio
matérias de uma mesma correnteza
enquanto gozas sem gemidos
enquanto sugo do teu leite
e da seiva nos teus seios
e bebo o sangue quente dos teus cios
como animais em matas virgens
amando na melhor selvageria
dentro da noite veloz nossas vertigens
ardendo em corpos como os nossos
pantera e tigre apaixonados
antes que o sol
rasgue a manhã com a luz do dia
tal qual os hímens agora em ti
já
desatados
Jura secreta 31
me banho de mar e lua
quando me lanço
em teus olhos d´água
esqueço do mundo
e das mágoas
e só em ti quero star
o que será que em mim define
esse nome de mulher
ou coisa santa
que não se encontra na bíblia
que há pouco tempo me esfinge
difícil seria conhecer
agora habita o centro do meu verso
e me vira pelo avesso
já sabe até meu endereço
e nas
noites vem me visitar
Jura secreta 32
não sei
se teu nome um dia será
alimento ou líquido
para minha sede ou fome
mas quero-o escorrendo pelos poros
em todas partes do corpo
onde quer que ele caiba
e quero que ainda saiba
não tenho papas na língua
e por onde quer que alcance
lá estarei lavrando a flor em poesia
com as mãos nas tuas pernas
com a língua em tuas coxas
e as outras partes do corpo
numa total sinestesia
linguagem corporal é grafia
desbravamento secreto
de línguas dentes e dedos
se não der pra matar a fome
é que o amor só se alimenta em segredo
Jura
secreta 44
o espectro de vermmer
agora mora na ante/sala
dos meus músculos
fugiu das telas do Louvre
agora livre em meu corpo passeia
mistura tintas até não mais
definir a cor do sangue
em minha veia
meninas leiteiras rapazes
e tudo mais que ele criou
o espectro é uma obra de carne
no osso de quem pintou
Jura secreta 45
de Dante
a Chico Buarque
todos poetas
cantaram suas musas
beatriz são todas
beatriz são tantas
beatriz são muitas
beatriz são quantas
algumas delas na certa também
já foram cantadas
por este poeta insano e torto
pra lhes trazer o desconforto
do amor quando bandido
beatriz são nomes
mas esta de quem vos falo
não revelo o sobrenome
está no filme sagrado
na pele do acetato
na memória do retrato
beatriz no último ato
da divina comédia humana
quando deita em minha cama
e come do fruto proibido
Jura
secreta 46
beber desse conhac
em tua boca
para matar a febre
nas entranhas entre dentes
indecente
é a forma que te como
bebo ou calo
e se não falo quando quero
na balada ou no bolero
não é por falta de desejo
é que a fome desse beijo
furta qualquer outra
palavra presa
como caça indefesa
dentro da carne
que não sai
Jura
secreta 48
tudo quanto um dia
ela sorrindo me disse
bia beatriz/beatrice
me leia nos meus olhos
nunca nos olhos
de clarice
agora quando olho
se trago alho
nos meus olhos
logo se abrem
lírios
se tinham espinhos
Não rosas
agora lindas
meiguices
e eu te
penetro corpo/jardim
com tudo o que há em mim
sede fome tara
e tudo mais
que ainda vai vim
olhe bem na minha cara
sou teu arcanjo e
serAfim
Jura
secreta 49
fosse quântico esse dia
calmo
claro
intenso
inteiro
20 de fevereiro
sendo assim esperaria
mesmo que em meio a tarde
tempestades trovoadas
insanidades
guerras frias
iniqüidade
angústia
agonia
mesmo assim esperaria
20 horas
20 noites
20 anos
20 dias
até quando esperaria...
até quando alguém percebesse
que mesmo matando o amor
o amor não morreria.
Injúria secreta
suassuna no teu corpo
couro de cor compadecida
ariano sábio e louco
inaugura em mim a vida
pedra de reino no riacho
gumes de atalhos na pedreira
menina dos brincos de pérola
pétala na mola do moinho
palavra acesa na fogueira
pós os ismos tudo é pós
na pele ou nas aranhas
na carne ou nos lençóis
no palco ou no cinema
o que procuro nas palavras
é clara quando não é gema
até furar os meus olhos
com alguma cascata de luz
devassa quando em mim transcende
lamparina que acende
e transforma em mel o que antes era pus
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