José Henrique Calazans

(...) poeta        é quem morre de vida        e vive        de qualquer ilusão (...)



Receita para pizzas


Dissolva dois tabletes de hipocrisia

numa porção de promessas não cumpridas.

Acrescente uma xícara e meia

de descaso e oportunismo.

Tempere com caixa dois à gosto

e não esqueça de rechear bem os bolsos

com bastante dinheiro público.

Leve ao Congresso por tempo indeterminado

e você terá todo o sabor

do político tipicamente brasileiro.
 




Boemia além-vida


Quando eu morrer, não me ponham

de cabelo engomado e gravata,

mas deixem-me vagar vagabundo

pelos balcões de bares e afins.

 

Não permitam que eu me despeça

na melancolia de um cemitério cinzento;

eu quero os ladrilhos lisérgicos

do Escadão da Lapa,

quero abraçar o Cristo

e me pendurar nos fios do bondinho,

espalhando minhas cinzas pela praia

num saudar poético a toda cidade.

 

Nada de marcha fúnebre;

eu quero samba, eu quero rock!

e um bando de bêbados

cantando desafinado.
 




Plantação

O agricultor matou a fome com um naco de terra

e protegeu-se do frio com um cobertor de vermes.

Não tinha terra; agora, ele era a terra.

E no buraco que a espingarda cavara em seu peito

fincaram-se as raízes da miséria e do desespero.

 

Seu sangue, ainda quente, irrigou a lavoura

e fez brotar as flores horrendas

de frutos que não matam a fome.

Sua carne, mesmo que pouca, adubou as plantas

e deu-lhes a palidez mórbida

do triste fim de seu cultivo.

 

Novos agricultores vão chegando

para também fincar raízes naquele latifúndio.

Novos agricultores vão chegando

para saciar a mesma fome de terra.

Novos agricultores vão chegando;

são iguais na busca, e também no destino

de cair sempre nas garras da mesma fera.

 

E a cada novo estampido de tiro

vê-se mais uma semente

na plantação de homens.
 




Poema de sete dribles


Quando ele nasceu, um anjo negro de pernas tortas,

os deuses da bola disseram:

Vai, Mané! Ser o palhaço dos campos.

 

As arquibancadas espiam admiradas

enquanto os zagueiros correm atrás da bola.

Talvez eles até conseguissem alcançá-la,

não fosse o gênio da camisa sete.

 

Os adversários passam cheios de pernas:

um, dois, três “joões”.

De onde vem tanta habilidade, meu Deus, pergunta meu coração.

Porém meus olhos estupefatos

não perguntam nada.

 

O homem atrás da camisa alvinegra

é simples, brincalhão, generoso e boêmio.

Tem muitas mulheres

e inúmeras glórias

o homem atrás da camisa alvinegra.

 

Meu Deus, por que tiraste do povo essa alegria,

se sabias que igual a ele não haveria,

se sabias que o povo a sofrer continuaria?

 

Mundo mundo vasto mundo,

nem ao menos por um segundo

alguém teve com a bola nos pés.

Mundo mundo vasto mundo,

mais vasto era o encanto do craque

 

Eu não devia te dizer

mas esses dribles

mas esses gols

botam a gente comovido como o diabo.
 




Contagem regressiva


Adeus, ano velho,

Infeliz ano-novo!

Que se renovem os estoques de esperança

e os comerciais na TV desejando boas festas

(Enquanto anunciam o preço do pernil, do champanhe

e do indispensável vestidinho branco).

 

Adeus, ano velho,

Infeliz ano-novo!

E voltemos ao saudável hábito

de tomar resoluções

que serão esquecidas na ressaca do dia seguinte.

 

Adeus, ano velho,

Infeliz ano-novo!

Começam as retrospectivas

nas tevês, nas rádios, nos jornais:

todos escolhem os grandes destaques,

as maiores decepções,

e se apressam em apontar as novidades do ano seguinte

enquanto passam filmes sentimentais na seção da tarde.

 

Adeus, ano velho

Infeliz ano-novo!

Vamos reunir os parentes e expor à mesa nossa falsidade,

fazendo votos de que consigam todo sucesso

que não queremos para eles.

 

Adeus, ano velho

Infeliz ano-novo!

É hora de distribuir calendários e santinhos,

fazer oferendas na praia, pular sete ondinhas,

enquanto se come lentilhas.

Olhamos afoitos para os mapas astrológicos,

as previsões das revistas de fofoca, dos analistas econômicos,

da cartomante da esquina.

Agarrando-se em todas as superstições na esperança

de que o ano seguinte seja diferente.

E no próximo 31 de Dezembro

estaremos repetindo as simpatias com ainda mais fé.

Pois muita coisa melhorou, muita coisa piorou,

mas nada mudou.

 

Adeus, ano velho

Infeliz ano-novo!

Vamos nos esbaldar em festas de arromba,

comemorando a despedida

dos últimos  trezentos e sessenta e cinco dias de desgraça,

enquanto esperamos pelo próximo, noite adentro.

 

Adeus, ano velho

Infeliz ano-novo!

Olha a beleza dos fogos em Copacabana

e esse barulho engraçado que até parece tiroteio.

Parece? Parece não...

Corre, que o pau tá comendo solto.
 




Atlântida-Carnaval


Se um dia o Cristo sucumbir nas águas,

submergido por algum deus perverso,

em rimas pobres eu afogo as mágoas,

guardo no peito o derradeiro verso.

 

Se o pôr-do-sol já não for como antes

num horizonte sem Arpoador,

aonde irão os poetas amantes

buscar remédio para sua dor?

 

Se alguma onda gigante, invejosa,

calar os gritos do Maracanã,

pra que sentir o perfume da rosa,

pra que sorrisos, pra que amanhã?

 

E numa bossa feita em despedida

algum sambista triste irá cantar:

“Não há mais poesia nesta vida

se o Rio um dia não voltar do mar.”

 
 




 
Soneto da Devassidão


Enquanto a noite vai chegando ao apogeu,

em teus lençóis dos meus pudores eu me afasto

e sigo em busca do deleite nada casto

que só teu corpo pode dar ao corpo meu.

 

Na tua cama eu sou amante, fera, deus!

E penso, enquanto em tua carne faço pasto:

“Nenhum dinheiro, certamente, é melhor gasto

que o empregado nos fingidos gozos teus.”

 

Mas se o tesão ao fim da transa ainda me engana,

chegando mesmo a disfarçar-se de ternura,

prometo, sou capaz até de uma loucura:

 

antes que tenhas posto a roupa e pego a grana,

eu te direi, com meu orgulho de poeta:

- Fiz um soneto à minha puta predileta!


 



Voracidade


Quero sussurrar por cada centímetro de sua pele

as juras mais loucas que eu puder inventar.

Sentir nossos corpos se tocando,

se envolvendo,

procurando o encaixe perfeito.

Enquanto nossas salivas se misturam,

quero transformar a cama em mesa

a saciar a fome de nossas carnes.

Tê-la toda, toda minha,

e fazê-la submissa rainha

dos meus desejos mais puros e mais sacanas.

Esgotar os seus orgasmos

e sugar até a seiva dos seus átomos

para que não sobre nada de intocado

a maldizer essa história de nós dois.


 



Pérolas


“Não joguem pérolas aos porcos,”

dizem os donos dos suínos,

“pois isso vai prejudicar seus estômagos.”

 

“Não joguem pérolas aos porcos,”

bradam os homens da lei,

“pois é desperdiçar os recursos da nação.”

 

“Não joguem pérolas aos porcos,”

pregam os sacerdotes no templo,

“pois é contra a vontade divina.”

 

A ordem está em todos os cartazes,

nas placas, nas tevês, nos jornais.

Porque eles sabem - e escondem - a grande verdade:

 

é preciso jogar pérolas aos porcos

para que se tornem pássaros-poetas.


 



A uma boneca inflável

Desejo com ardor seu beijo plástico

em nossas noites de paixão idílica

e sacio o furor deste meu phalo

ouvindo o seu metálico gemido.

Ninguém sabe o quanto me dá prazer

acariciar seus seios de borracha

e, enquanto te xingo, comer você

de quatro, totalmente subjugada.

Mas, se alguém diz ser vergonha sem nome

depender de um objeto para o sexo

e chupar vulva feita em silicone,

por certo ignora meu gozo secreto:

 

acabada a transa, enfim, esvaziá-la,

como se matasse a mulher amada.


 


Matemática interna


(raiva + melancolia)² x T =

= ( raiva² x T ) + (2 x raiva x melancolia x T) + ( melancolia² x T) =

= poesia


 


Os invisíveis


Não temos o desespero dos marginais

nem a insensatez do high society.

Não gostamos de nos olhar no espelho.

Não temos os corpos sarados dos comerciais

e muito menos uma mente brilhante.

Não somos campeões de nada.

Nossas vitórias, quando vêm,

não merecem sequer aplausos

e nossas derrotas são tão patéticas

 que nem ao menos dariam uma boa tragédia.

Não somos famosos, não somos ilustres,

não vamos entrar para os livros de História

nem para as páginas policiais.

Vivemos sempre a prestação

e quitamos nossas existências sem deixar saldo algum.

Não temos utopia. Não faremos a Revolução.

Aliás, sequer desejamos vê-la.

Não possuímos grandes ambições

mas temos esperança

não porque realmente acreditemos no futuro,

mas porque o presente é entediante demais.

Somos tolos sem nenhuma fé

em busca de um Deus subornável.

Somos um bando de infelizes,

torcendo pro mocinho no final da novela.

 



José Henrique Calazans
nasceu em 1986, no Rio de Janeiro.
Em 2005, Foi vencedor do IV Concurso Bafafá de Poesia e teve um poema
selecionado entre os “Melhores Momentos do Ano” da revista Megazine do jornal
O Globo. Em 2006, ganhou o prêmio de melhor letra no V Festival de Música de
Pedra de Guaratiba por “Atlântida-Carnaval”(musicada por ele, Felipe Monteiro
e Marjolie Melo), além de obter menção honrosa no V Festival de Poesia do Sindicato
dos Escritores do Estado do Rio de Janeiro e ser finalista do I Concurso Carioca
de Poesia da ABRACI, em evento realizado no auditório da Academia Brasileira de
Letras. Em 2007 recebeu menção honrosa no V Concurso Bafafá de Poesia e foi vencedor
do I Concurso Nacional de Poesia da Revista Day By Night, graças ao qual irá lançar
seu livro de estréia. Freqüenta inúmeros saraus no Rio de Janeiro, tendo se apresentado
na XII Bienal Internacional do Livro. Publicou poemas em diversas coletâneas,
incluindo o Livro da Tribo 2008, editado em váriso estados do Brasil.
Possui exibições gravadas em DVD e vídeos disponíveis no Youtube.
Estuda na Oficina Literária Cairo Trindade e fez cursos com Sérgio
Sant’Anna e Cláudia Lage. É guitarrista da banda Casa de Versos.
Integra a web rádio Poesia Mix (www.poesiamix.com).
 


Tenha sua Página Pessoal no Alma de Poeta


Clique na imagem acima.


home    galeria de arte    poetas em destaque    poetas 3x4    poetas imortais    colunistas    cinema    concursos

páginas pessoais     agenda poética     poetas no You Tube      fala poesia      entrevistas      histórico

Clique e entre


Seu site de poesia, arte e algo mais...


©Copyright 2000/2011 by Luiz Fernando Prôa

01/07/2008