Jorge Ventura

A pena chora a sós             quando vos confesso meu silêncio.           Não o silêncio que me cala a fala,             mas o que me cala o poema.



A Casa


Quando adentrei pela primeira vez naquela casa,

as paredes nuas (re)vestiram-se de longa lembrança

no regresso ao passado insólito. Voltei a ser criança

pelo corredor do tempo, diante da saudade que embasa


inda hoje o meu sofrer. Ah! Quantos lêmures percebi:

senhores dos sótãos e porões, imêmores ancestrais!

Ao circunvagar o olho por mobílias, louças e castiçais,

sonhei amores, crimes e conquistas. Quantas vidas vivi?

 
Se lá morei, não sei.

Se lá morri, pode ser.

Onde minha saga perpetuarei?

 
Bem habitada ou mal assombrada,

reconheci, ao padecer,

aquela casa tão somente abandonada.
 




A Miragem


Bem sei. És bruma

nua como neve.

Intento breve e translúcido

a percorrer espelhos.

Chama viva a iluminar sonhos.

E, em minha miragem,

desces nuvens

e nuvens

e nuvens até choveres

em meu árido solo.

Bem sei. E tu sabes também.

Amor é feito de imagens.

 



Sobrevivente


Sou aquele que sobrevive

às tormentas e aos maus agouros

da vida por bem-querer e sorte

- iluminado.

 
Sobrevivo à dor, paixão e morte,

predestinado

a seguir caminho por ermas linhas,

versos/ atalhos de um mero livro.

 
Solidário ao silêncio das noites,

minha lua cheia de uivos e lobos,

quando estou enfeitiçado.

 
Não importa quem sou

O que eu escrevo é o que me define,

se acaso é verdade que ainda vivo...

 



Noite Muda


De um silêncio de lua

na calada da noite

a súbita lágrima eleva-se ao céu

 
Sozinho

no espaço

à tua espera – o infinito


É vasto o pensar

no vazio breu

Passo o tempo a molhar estrelas

 



Marionetes


Existe entre nós

um par com duas pontas.

Cada qual com dois prós,

cada qual com dois contras


Puxa-se uma corda daqui,

outra dali,

mãos e pernas atrapalham-se

emaranhados

em movimentos manipulados,

sabe Deus por quem

 
O vaivém dos gonzos

range aos limites estipulados,

em meio a trapos,  farrapos

e desculpas esfarrapadas

 
Duas marionetes sem brio

e a relação por um fio
 




O Rosto


Assim,

o mim.

Em cada rosto

a ser exposto,

uma expressão.

Um turbilhão

de meus eus,

áureos e erros.

Duas faces,

dois disfarces.

Por que sou vário?

Porque sou diário.

 



A farsa e a força


Guardo cinco segredos

nos dedos desta mão.

Faço a soma dos medos

na folha de urtigão.

Tudo à volta entristece:

o ermo,o solo,o entrevero.

A farsa face a face

com a força mais fere.

Face invertida e falsa,

a façanha da foice.

Nem a farsa falsete,

nem a força forçada.

 

Há a recusa do chão,

só uma face ferida.

A farsa contra a força

é poesia impune.

Mas peço um canto santo

onde tão dura a farsa,

onde tão lume a força.

A fé já não me aplaca.

Ponto de desencanto,

eu canto minha prece

bem na ponta da língua,

bem na ponta da faca.
 




Ele


É ele

o miserável da tarde,

o covarde baldio

antes do sepulcro.


É ele

o descartável da vida

sobre a pedra vadia,

eleita seu fulcro.

 

É ele

a refutável existência,

o Louco da Silva

fartado de sonhos.

 

É ele

a adorável vítima,

marginal enigma

de final tristonho.

 
É ele

a aplacável glória,

vilão da estória,

inocente e absorto.


É ele

o memorável homem,

ante a face do espelho

a refletir o morto.
 




Criação


Eu (poeta fogoso)

literalmente me excito

quando exercito

em cima da rima – nativa.

Ela (palavra mestiça)

me atiça como o vento à brasa.

 
E se é noite rasa,

fecundo

fundo

o poema

: entrega extrema

(folha branca sob a pena).

 
Faço nascer a obra (dadivoso)

e peço silêncio à sílaba lírica

para que ouça, atônica, o meu gozo.

 



Moleque

 

Estou diferente

- hora estranha do meu passo.

 
Povos de rua dão

passagem

 
(malandros, mendigos,

prostitutas).

 
Pessoas vêm e vão,

passam e passam

em vão.

 
Baixa o santo

e o capoeira salta.


Há um moleque solto,

livre de mim.
 




Vampiros Urbanos

Do castelo do meu quarto,

subo meu olhar para uma mulher encantada,

presa enfeitiçada que me enfeitiçou de surpresa.

Sedução não me mata, sedução só me morde e machuca.

É quando o relógio da estante, no instante da meia-noite,

rompe o silêncio mágico das primeiras carícias.

 
Agora, de momento, tudo parece confuso, obtuso...

A grande capa escura, esta, que me cobriu,

descobriu-me indefeso, teso, com medo sim!

Sinto assim meu corpo gelado, carente de vinho,

um filhote sem ninho, perdido, querendo saciar...

numa Transilvânia metropolitana!...

 
Baixo meu olhar para uma cidade possuída / desconstruída

pela inveja, pelo ódio e egoísmo de vampiros urbanos

que sugam toda a minha energia / dissimulados amigos

competem comigo / desejam-me o sucesso e o dinheiro,

até meu segredo, que jamais revelei a mim em particular,

querem saber de concreto, feito vergalhão e andaime!

 
De volta ao castelo do meu quarto,

deixo minh’alma perfurada e a vida cansada,

o que me resta, réstias?  Minha sina é um coração fincado

com as veias entupidas por um sangue viciado.

Eu durmo e envelheço, amanheço só!

Eu durmo e envelheço, amanhece pó!
 


A Droga      "Quase um segundo    e um mundo,    quase rotundo,    gira,    pira,    vira,    moribundo,    vagabundo.        Um mundo,    quase imundo,    quase fundo,    quase quase.        Um mundo    quase eu,     rubicundo,    violento,    ao relento,    sedento,    quase faminto.        Um mundo,    um labirinto,    quase vício.        Um precipício.        Um mundo,    quase um minuto.        E um mundo    quase amante,    distante,    gira,    pira,    vira.        E eu grito,     quase vôo,    quase enjôo,    e rio     e choro    um mundo    quase alegre,    serelepe.        E eu agora,    quase hora,    um mundo    quase forte,    quase quase,    vida    e saída,    embora    eu    quase morte."


 



Nascido no Rio de Janeiro, Jorge Ventura é poeta, ator, jornalista e publicitário.
Um dos Diretores de Comunicação Social do SEERJ
(Sindicato dos Escritores do Estado do Rio de Janeiro),
já publicou em poesia e prosa, Turbilhão de Símbolos (2000)
e Surreal Semelhante (2003), pela Imprimatur – Rio de Janeiro,
tendo conquistado importantes prêmios literários e de interpretação.
Lançou em 2006, seu primeiro ensaio jornalístico,

Sock! Pow! Crash! – 40 anos da série Batman da TV
,
pela Opera Graphica Editora – São Paulo.
Sua poesia está presente também em dezenas de antologias cariocas. 
Trabalhou em jornais e revistas, assinando artigos e colunas.
Dublou novelas e atuou em peças teatrais,
além de encenações poéticas e curtas-metragens.
Diretor de Criação e redator publicitário, hoje é professor de Comunicação
e consultor de marketing de diversas empresas.
 


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jorgeventura@terra.com.br
 


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02/08/2011