Geraldo
          Carneiro



... às vezes por acaso me deparo         com uma cena, um gesto, uma palavra       cujo esplendor desperta um mar de ressonâncias      e de repente a insolência do sol ... 
 



juízo final


amou três ou quatro sereias, sempre

marinheiro de primeiro naufrágio.

jurou em falso, disse meias verdades.

perambulou em busca do sublime

sem nunca descobrir o Santo Graal.

andou atrás de um deus que fosse cômodo.

como esse deus não se desencantasse,

cantou a lua e outras deusas inconstantes.

refratário às ciências, desconfia

que o Sol gira ao redor da Terra, e o homem

é um animal fadado à extravagância.

às vezes sofre acessos de grandeza,

supõe-se demiurgo e pandemônio.

mas o mundo sempre se rebela

contra suas mal fundadas esperanças

e o reduz à sua insigne insignificância.
 




a outra voz


não adianta, nada neste mundo

pertence a ti, nem essa ínfima parte

que te compete recifrar em arte.

só é teu o circo das desilusões,

o canto das sereias, o naufrágio

no qual perdeu-se a vida, o rumo,

                                        / a nave,

a memória da ilha em que viveste

o ato inaugural da tua odisséia.

Penélope esgarçou-se em muitas faces,

e mesmo a guerra, com seus alaridos,

só sobrevive nas versões dos bardos.

não há mais ilha, nem há mais princípio:

teu principado é só imaginário.  
 




o não quixote


a raça humana sempre me agradou,

embora não me agradem seus costumes.

gosto do ser humano sem armadura

dos conceitos de como proceder,

como sorver o céu o sal a mulher amada.

sou sempre desconforme às circunstâncias,

um sopro me conduz embriagado

sob a lua das lâmpadas que se acendem

no interior das pessoas.

e quando não se acendem, sou a treva,

me atrevo a navegar o mar escuro

entre a demência e a melancolia

até que me atraco no cais de um verso,

elejo alguma deusa que me abrigue

e reproclamo o sol da minha insolência

faço da utopia a minha lança

com que me lanço contra todos os moinhos,

mesmo sabendo que serei desfeito

e devolvido à poeira do universo.
 




a sombra


sempre fui traficante de palavras

falácias, florações, flores do mal

falas impróprias, locuções malditas

na gira das paixões incandescentes

sem mente sã, sem corpo são, sem xongas

piçurumbetas, neres de pitibiribas

sempre ao som das trombetas mais insanas

insone desde os verdes negros anos.

eu que sonhei obscuros desenganos,

agora, exposto às erosões do tempo,

eis-me assombrado à sombra deste mundo,

sem os dosséis do céu da metafísica,

sem teto em meu trapézio de esperança

sem rede, só paixão, sempre ao relento
 




bazar de espantos


eu não tenho palavras, exceto duas

ou três que me acompanham desde sempre

desde que me desentendo por gente,

nas priscas eras em que era eu mesmo.

agora sou uma espécie de arremedo,

despido das minhas divinaturas.

já não me atrevo ao ego sum qui sum.

guardo no entanto em meu bazar de espantos

a palavra esplendor, a palavra fúria,

às vezes até me arrisco à palavra amor,

mesmo sabendo por trás de suas plumas

a improvável semântica das brumas

o rastro irremediável de outro verso

ou quem sabe a sintaxe do universo
 




a penúltima fantasia

como dizia o Frederico Nietzsche,

falando a propósito de si mesmo,

sou uma nuvem que navega a esmo,

cheia de relâmpagos que dizem sim.

às vezes sou cumulus-nimbus,

às vezes desço ao rés-do-chão dos limbos,

onde me embriago de ópios e cronópios;

às vezes desço mais, até os infernos

e provo dos horrores pós-modernos;

outras vezes, enfim, ascendo ao empíreo

sob o império do amor e vejo estrelas,

sonho vias- lácteas, tantas coisas belas;

nesses instantes, minha caravela

parece navegar por ultramares

as velas enfunadas pelos olhos teus

ou pelo sopro de um provável Deus.
 


'reciprocidade'            o amor desfaz a noção do tempo.           o tempo desfaz a noção do amor.     GC



eterno retorno


se eu pudesse fazer um soneto

sob os influxos de Olavo Bilac

provavelmente escreveria assim:

adeus, não há mais nada, nada mesmo

somente essa vontade de morrer

morrer ou navegar assim a esmo

até que o mar me faça renascer

até que eu saiba recifrar a rosa

até que eu veja firme o firmamento

e saiba navegar-te como o vento

que inventa o amor à flor da tua face

que quanto mais remorre mais renasce
 




felicidade


meu escasso repertório de metáforas

não dá conta da vida, que é uma flor

que se alastra e não sabe de seu lastro.

não me cansei de voar na ave-vida.

hoje encarei de perto o Pão de Açúcar

e me senti suspenso

nas aventuras que penso e planejo

até que a morte me convença

e me vença num combate,

pois só assim haverá de me arrancar

dessa cidade-esplendor que se lança

                           sobre o mar:

é aqui que sonho todos os amares

a vida-mar em que navegarei

por avesso a viagens noutro céu

que não essa ave-rara: a Guanabara.
 




molduras da esperança


mesmo sem receber prenúncios, urubus

e outros espectros cá nos meus umbrais,

espero que, entre as galas da galáxia,

chegue a mim a armadura de um amor.

por quê? não sei viver assim tão vasto,

privado das molduras da esperança.

sem isso eu Odisseu não saberia

fazer-me ao mar, alçar-me ao firmamento

voar até que o sol me estraçalhasse

por aspirar a alturas sobre-humanas.

por isso eu vos declaro, ó criaturas

que comandais o circo desse cosmo,

mesmo eu que tantas vezes me insurgi

contra vossas vontades e poderes:

eu ardo de desejo e quero mais.
 



o elogio das índias ocidentais


ó cunhãs, ó indiazinhas em flor

quisera ser o vosso Pero Vaz,

cronista das vergonhas saradinhas,

naufragar nestas Índias do Ocidente

cheio de fantasias orientais.

ser vosso fauno sem après-midi

cevado (ai de mim) a aipim e cauim

até me converter num querubim

e, numa patuscada bem pagã,

Cubanacan ao fundo no atabaque,

oferecer o corpo em holocausto,

para sentir, com a graça de Tupã,

os vossos dentes me mascando a carne

nhaque nhaque nhaque
 




predestino


sou um dos príncipes do despudor

por procurar até no desespero

ser fiel aos deuses nos quais acredito,

por não ter medo dos nomes malditos,

dos mitos, das palavras furta-flor.

vivo surfando em busca do presente

numa voracidade nordestina

que descobri por predestinação.

não sei qual é a nação dos meus zumbis.

não sei por que palmeiras e palmares

cheguei aqui atravessando mares

amares sempre nunca navegados.

sou a ponte entre a véspera e o porvir

as armas e barões assinalados

os pensamentos idos e vividos

e as praias improváveis que virão.
 




planetário


a poesia é o pó que me incendeia

o resto e´o sol que gira ao meu redor

(se não me falha a cosmologia)


a divindade máxima é a amada

cifrada ou indecifrada como a rosa

a rosa rosae rosae do latim

 
só me confino além desta galáxia,

em estrelas cuja luz ainda não vejo,

em todas as viagens que eu cometa

no táxi da sintaxe.


o cais virá do caos em que me invento

ou não virá.

todo não ser irá permanecer

em forma de flor ou de não flor

no jardim do pensamento
 


... só é teu o circo das desilusões,         o canto da sereia, o naufrágio         no qual perdeu-se a vida, o rumo,     / a nave ...



à
maneira do Pessoa


eu não sei nada.

não sei, por exemplo, onde fica a Abissínia,

a Bessarábia, nem o Sri Lanka

(minto, o Sri Lanka, sim, suponho

seja a porção ao sul do Mar das índias,

antigo Ceilão, cuja capital,

em minha geografia improvável,

deveria se chamar Sei Lá)

não sei em que descaminhos da História

perdi o Congo Belga e Madagascar.

só conheço as províncias da ficção

essas, felizmente, imutáveis:

Shangi-lá, Pandemônio, Xanadu

e outros eldorados da imaginação.

desconheço os mistérios da semântica.

misturo alhos e bugalhos,

nenúfares e putifares;

não sei por que torções a linguagem

se empavona ou se despluma;

em suma, só admiro as palavras

como o selvagem admira um helicóptero.

a despeito dessa imensa ignorância

às vezes por acaso me deparo

com uma cena, um gesto, uma palavra

cujo esplendor desperta um mar de ressonâncias.

e de repente a insolência do sol

ilumina as minhas trevas

e eu sou como um deus parindo o mundo.
 




a última alegoria

para João Ubaldo


quando a manhã vestida de açafrão

trouxer a minha arcanja ou pandemônia

com espada flamejante e bay-doll

                            de nuvens

e quando eu não for mais o aiatolá

de certas raparigas em flor

que se comprazem na contemplação

do espetáculo da decrepitude

direi adeus às deusas deste mundo

depois desfilarei no carnaval

ao lado de Deus, num carro alegórico,

na derradeira Terça-Feira Gorda
 


Curadoria: Andrea Paola Costa Prado



Geraldo Carneiro

Geminiano, carioca por amor à “cidade-esplendor”,
dramaturgo, escritor de telenovelas, roteirista, tradutor,
letrista
,, com mais de 30 anos de poesia publicada,
 nasceu em Belo Horizonte, foi aluno dos cursos de Letras e Filosofia.
Publicou seu primeiro poema em 1970, no jornal O Estado de Minas.
Lançou seu primeiro livro de poesia, Na Busca do Sete-Estrelo, pela Mapa Editora,
em 1974. Ao sabor dos ventos, alçado por velas da inspiração divina,
se fez  publicar em: Verão Vagabundo, poesia, Editora Achiamê – 1980;
Vinicius de Moraes: A Fala da Paixão, Editora Brasiliense – 1984;

Piquenique em Xanadu
- 1988,
Espaço & Tempo, Prêmio Lei Sarney de melhor livro do ano;

A Bandeira dos Cinco Mil Réis, 5 textos do teatro contemporâneo brasileiro, 
Xenon Editora e Produtora Cultural – 1993; Pandemônio, Arte Editora – 1993;
Por Mares Nunca Dantes, Editora Objetiva - 2000; A Tempestade, tradução, 1981;
Folias Metafísicas, 1995; Leblon: Crônica dos Anos Loucos, 1996;
Lira dos Cinquent’anos, 2002, Editora Relume-Dumará
e Balada do Impostor, 2006, Garamond (os 3 poemas acima).
Desde 2004 colabora com o Centro Cultural Cartola, coordenando a
oficina de poesia Escola das Rosas que Falam.  
 


Veja também: http://www.almadepoeta.com/geraldocarneiro.htm

E-mail: gcarneir@uninet.com.br


Poetas em Destaque


Clique na imagem acima.


home    galeria de arte    poetas em destaque    poetas 3x4    poetas imortais    colunistas    cinema    concursos

páginas pessoais     agenda poética     poetas no You Tube      fala poesia     oficina virtual      histórico

Clique e entre



Seu site de poesia, arte e algo mais...

www.almadepoeta.com

Alma de Poeta
©Copyright 2000 - 2009
  by Luiz Fernando Prôa