CINEMA


Do Palco para as Telas

Por Erika Liporaci


A peça "Vestido de Noiva", escrita por Nelson Rodrigues em 1943, revolucionou o teatro brasileiro por sua inovadora concepção. Na época, Nelson teve dificuldade em encontrar quem se dispusesse a montá-la, já que a produção exigia cenário complexo e teria custo muito alto. A trama se desenvolve em três planos: realidade, memória e alucinação. Uma estrutura narrativa mais adequada ao cinema do que ao teatro. O impasse foi solucionado graças à adesão de Ziembinski que, ao ler a peça, disse não conhecer nada no teatro mundial que se comparasse a ela. A opinião do lendário encenador polonês foi profética, pois, passados mais de 60 anos, ainda não foi escrita peça que supere a inovação cênica e dramatúrgica que "Vestido de Noiva" significou para os palcos brasileiros. Só a iniciativa de imortalizar na telona obra de tal importância já é digna de aplauso.

A jovem Alaíde, desorientada, atravessa a rua sem olhar e é atropelada. No hospital, entre a vida e a morte, tem dificuldades de lembrar detalhes de sua vida e dos motivos que perturbam sua mente. Tem vagos lampejos de um rosto de homem e uma misteriosa mulher de véu. Perdida entre lembranças que não sabe se são reais, tem um encontro surreal: Madame Clessi, famosa cafetina assassinada décadas antes, surge como mais uma obsessão nas alucinações de Alaíde. Nesse misto de alucinação e memória, as duas tentam reconstituir os fragmentos da história de Alaíde.

 

Joffre Rodrigues, filho de Nelson e diretor do filme, optou por realizar uma adaptação fidelíssima do texto do pai. Podemos dizer que é quase um teleteatro. E não vai no comentário nenhum sentido pejorativo. Tal reverência ao produto de origem, que em alguns casos pode comprometer uma produção, acabou sendo um grande acerto neste filme. Afinal de contas, a peça "Vestido de Noiva" é irretocável e não se mexe em time vitorioso. Sem contar que é um alívio ver um texto rodrigueano preservado, ao contrário de algumas adaptações anteriores que só serviram para dar ao público em geral uma visão deturpada da obra do dramaturgo.

 

O filme, além de ambientado na década de 40, tem um gostinho de filme antigo. Não tem montagem frenética de videoclipe nem efeitos especiais. Mas sim todo um clima rodrigueano, aquela mistura de film noir com tragédia grega que só nosso dramaturgo maior conseguia unir com tanta precisão. Como não podia deixar de ser, é um filme de atores. A boa direção de arte é modesta, consciente de que é o elenco que dará alma à produção. E o quarteto de atores principais - Simone Spoladore, Marília Pera, Letícia Sabatella e Marcos Winter - dá conta do recado com perfeição. Simone, sempre ótima no cinema e subaproveitada na TV, tem uma atuação antológica como Alaíde.

 

Mais do que tudo, o filme significa um modo de promover o acesso a um dos textos teatrais brasileiros mais importantes de todos os tempos. Afinal de contas, quantas pessoas tiveram a oportunidade de ver uma montagem de "Vestido de Noiva"?

 

Vestido de Noiva, Brasil, 2005. Direção: Joffre Rodrigues. Com Simone Spoladore, Marília Pera, Letícia Sabatella, Marcos Winter, Bete Mendes, Rocco Pitanga, Tonico Pereira. 111min.

 



10 Grandes Cenas

Por Érika Liporaci


        Scarlett O’Hara, depois de muito esnobar Rhett Butler, entende que o ama. Mas é tarde demais. Ela corre atrás dele e pergunta o que vai ser dela, se ele a deixar. Butler - ou melhor, Clark Gable - dispara o petardo: "Francamente, minha querida, eu não ligo a mínima". Osgood, milionário mulherengo, não mede esforços para fazer de Daphne sua enésima esposa. Mas Daphne é Jerry que, após muitas trapalhadas, arranca o disfarce e mostra ao insistente conquistador porque não pode se casar com ele. Sereno, Osgood sentencia: "Ninguém é perfeito". Rick e Ilsa vão se separar mais uma vez e provavelmente nunca voltarão a se ver. Na neblina do aeroporto, ele tenta convencê-la de que o amor deles não tem futuro: "Se você não entrar naquele avião, se arrependerá. Talvez não hoje, nem amanhã, mas logo e pelo resto da sua vida."

        As cenas citadas acima são, respectivamente, de "E o Vento Levou", "Quanto Mais Quente Melhor" e "Casablanca". Qual a correlação entre elas? São cenas inesquecíveis, que já têm lugar cativo no imaginário coletivo. Imagens que há muito extrapolaram os limites do filme de origem e são conhecidas até por quem nunca os assistiu. O cinema recente também produz todos os dias seqüências memoráveis, embora seja necessário o crivo do tempo para determinar o que vai entrar para a história. De uma maneira muito pessoal e aleatória, selecionei dez grandes momentos cinematográficos dos últimos anos. Os filmes citados foram produzidos recentemente (o mais antigo data de 1999). Provavelmente foram cometidas omissões e injustiças, mas esta não é uma lista de "melhores" e sim um reconhecimento a alguns momentos marcantes da sétima arte.


        Antes do Pôr-do-Sol – Os protagonistas passaram uma noite de romance e encantamento em Viena, conforme retratado no filme anterior (Antes do Amanhecer). Depois se perderam pela vida, mas nunca deixaram de pensar um no outro. Nove anos depois, se reencontram em Paris. Mais uma vez, o tempo corre contra eles. Ele deve pegar um avião para os Estados Unidos em poucas horas. Mas, agora que a encontrou, partir é difícil demais. Ele está no apartamento dela, a música é convidativa e o clima é de sedução. Ela o olha e diz, provocante: "você vai perder aquele avião". Ele se recosta no sofá, com uma expressão que é um misto de alívio e malícia, e responde: "eu sei". Final do filme. Simples e perfeito.


        Beleza Americana – Lester está no seu limite: tem um emprego degradante, uma mulher ambiciosa que o despreza e uma filha adolescente que o odeia. Arrastado a contragosto para um evento na escola da filha, seus olhos captam uma jovem no meio das outras animadoras de torcida. O mundo pára. Só existem os dois. Em seu delírio, a menina dança exclusivamente para ele ao som de "On Broadway" enquanto pétalas de rosa saltam do seu corpo.




    Brokeback Mountain – A atração é latente, escondida sob uma capa de companheirismo. Mas uma noite fria proporciona a aproximação física: Ennis e Jack dormem sob a mesma barraca quando Jack, o mais decidido, toma a iniciativa e traz a mão do colega até seu corpo. Ennis reage violentamente, o que só torna mais incrível sua entrega total segundos depois. Poucos filmes têm a coragem de colocar na tela uma cena de sexo entre dois homens sem pudores e isenta de qualquer tipo de caricatura. Um soco em muitos estômagos conservadores.


        Cabra-Cega – O ano é 1971 e a resistência armada já havia sido dizimada pela repressão. Durante todo o filme compartilhamos da crescente tensão psicológica vivida pelos personagens. Na cena final, eles estão cercados. Apesar de armados, são apenas três. Trocam um último olhar, engatilham suas armas e escancaram a porta que os separa dos captores. A tela fica branca ao mesmo tempo em que se iniciam os primeiros acordes da belíssima "Roda-Viva", que prossegue acompanhando os créditos finais.


        Cidade de Deus – O personagem Buscapé entende o significado exato do ditado "se ficar o bicho pega, se correr o bicho come" no instante em que, armado apenas com sua máquina fotográfica, fica exatamente no meio da batalha iminente entre o bando de Zé Pequeno e a polícia. A câmera faz um giro completo e vertiginoso, numa das tomadas mais famosas do cinema brasileiro recente.


        Cidade dos Sonhos – Numa busca com tons surrealistas, a ingênua Betty quer ajudar a desmemoriada Rita a descobrir quem é. A relação parece puramente fraternal até o inesperado momento em que Rita deita-se nua na cama ao lado de Betty, que, tímida, pergunta se ela já havia tido esse tipo de experiência antes. Como ela não se lembra de sua vida pregressa, devolve a pergunta a Betty, que diz em meio a beijos e carícias: "Com você eu quero".


        Irreversível – Infelizmente, nem só imagens bonitas e inspiradoras ficam na nossa mente. Algumas se impõem como uma chicotada. É o caso desta seqüência, certamente uma das mais impressionantes da história do cinema. O espectador é levado ao inferno por intermináveis dez minutos, em que a câmera fica parada, no nível do chão, enquanto se desenrola diante de nossos olhos uma violentíssima cena de estupro e espancamento.


        Moulin Rouge! – Difícil escolher apenas uma cena... O duelo musical no terraço, em que os protagonistas usam canções pop para expor seus argumentos, assim como o vigoroso número de tango ao som de "Roxanne" são dois exemplos de cenas lindíssimas. Mas a eleita é a cena em que Christian declara seu amor por Satine cantando "Your Song". Visualmente deslumbrante, emocionalmente arrebatadora, lindamente interpretada. É ver e sentir vontade de se apaixonar.


        O Senhor dos Anéis – O Retorno do Rei – O espectador acompanhou a odisséia dos pequenos hobbitts e sua comitiva por três filmes que, somados, chegam a um total de dez horas de aventura. Derrotar o Mal parecia quase impossível mas, finalmente, o inimigo foi vencido e Aragorn consegue ser coroado. Nesse momento solene, todos se ajoelham e fazem uma reverência em reconhecimento aos quatro hobbitts que ajudaram a salvar a Terra-Média. Cinemão. Heróico. Empolgante. Difícil não aplaudir.


        O Sexto Sentido – I see dead people. A força da confissão sussurrada do pequeno Haley Joel Osment é tão poderosa que a frase chega a dispensar a tradução (eu vejo gente morta). Apavorado, exalando fragilidade sob um cobertor, o menino revela o que já sabíamos mas, ainda assim, não estávamos preparados para ouvir. O espectador ainda nem se recuperou do primeiro choque, quando vem o segundo. Com que freqüência tal tormento acontece? "O tempo todo".
 


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