Cairo Trindade - entrevista
por Mônica Montone

 

A entrega e a paixão pela palavra estão estampadas
em seu riso largo e na franqueza de sua poesia.
Cairo Trindade é um escafandrista da alma e do desejo.
Atuante em recitais de poesia desde a década de 70,
onde se apresentava junto ao grupo Gang , criou nos anos 80
o POR NO POEMA – o que lhe rendeu rótulos de "pornográfico",
"maldito", "panfletário", entre outros.
Fez parte da chamada "geração mimeografo" e
desde então nos brinda com sua sensibilidade
em versos encantados. Seus poemas são diretos e
sua presença de palco marcante –
o que produz um efeito bombástico!!!

Há anos leva a magia da palavra para poetas de diversas
gerações nas oficinas literárias que produz,
muitas vezes em sua própria casa. Para Caio,
escrever e viver são verbos que não se dissociam
ou se diluem no transbordar dos dias.
Em suas palavras, escrever é "escreviver".


Mônica Montone: Você atua em recitais de poesia desde a década de 80. Que diferença existe entre os recitais daquela época e os da atualidade?

Cairo Trindade: Nos 80, me parece, havia mais criatividade, originalidade, loucura. E ao mesmo tempo havia mais "profissionalismo". Grupos ensaiavam, os poetas teatralizavam, surgiu a performance. A ditadura ainda rolava, pintava a abertura, nova etapa na História do país, a poesia traduzia uma consciência social e política, uma ideologia. Hoje se vê muita gente lendo, de maneira burocrática, atores declamando, e mal, e uma geração sem nada a dizer. Poetas diluindo a poesia. Vejo pouca ousadia em textos e desempenhos. Mas curto cada novidade no front: há boas surpresas entre os mais jovens.

Mônica Montone: Você escolheu o gênero erótico ou foi escolhido por ele?
Cairo Trindade: As duas coisas. Confesso que vivi intensamente os anos 70, o movimento hippie, a anarquia sexual, o underground. Tudo isso marca influência decisiva em minha poesia. Por outro lado, decidi criar o POR NO POEMA, com todas as experiências vistas e/ou vividas. Jogar o prazer no texto criando o texto do prazer e acabar com qualquer censura, era, e tem sido sempre, a minha proposta. E isso graças a minha natureza libertária. Uma coisa está ligada à outra. Posso dizer que Eros me tocou e eu fui tomado por uma espécie de hedonismo poético,
mas um lance de dados...

Mônica Montone: Como era falar de erotismo numa época onde as pessoas
eram tão reprimidas?
Cairo Trindade: A sociedade era reprimida como um todo, mas em contrapartida as pessoas com quem eu convivia eram liberadas. Amor livre era uma das bandeiras; e sexo grupal, uma prática sagrada. O povo curtia minha poesia, a repressão vinha de cima. Paguei um preço alto. Censuras a poemas e entrevistas, proibições de recitais e shows, apreensões de livros, problemas com polícia. Foi difícil. O tempo passou, aquela ditadura caiu e a minha poesia continua, o público curte. Por outro lado, ainda há preconceito e um outro tipo de repressão e censura. Mas aí já é um capítulo à parte.

Mônica Montone: Como você enxerga o fato de ser considerado um poeta erótico? Isso não deixa uma sensação de reducionismo?
Cairo Trindade: Antes disso fui considerado panfletário, maldito, marginal, depois pornô, há pouco era rotulado erótico, agora já nem sei mais. Qualquer rótulo reduz, mas no meu caso tudo somou, eu sinto assim. Há quem diga que não tenho estilo. Alguém já falou que eu sou um antipoeta. Eu só quero poder fazer mais. E, cada vez, melhor. E continuar outsider, livre, sem carimbo nenhum. Ou com todos, o que dá no mesmo, concorda? Quem tenta enquadrar minha poesia demonstra sua
própria redução intelectual.

Mônica Montone: Você mudou o seu estilo nos últimos tempos.
Como você definiria sua poesia atualmente?
Cairo Trindade: Vivo mudando de estilos, por isso é impossível me enquadrar. Antes de ser conhecido como poeta erótico, fiz poesia social, política, ideológica, existencial, filosófica, haicai de humor, poesia experimental, poema concreto, poema minuto, trova e soneto, semiótico e visual, poema em prosa, poesia essencial, e até uns versos de amor, quem faz isso sonha em fazer de tudo, di-ver-si-fi-car. Estilo tudista. Todas as fôrmas, todas as formas, todos os temas,
todos os suportes inclusive.

Mônica Montone: Com quantos anos você começou a escrever?
Cairo Trindade: Com 6, escrevi um poema. O primeiro. Mas me causou sérios problemas, que prefiro não aprofundar.

Mônica Montone: Que poetas te influenciaram?
Cairo Trindade: Muitos, e eu dialogo legal com tantos que basta olhar o meu trabalho pra sacar. E gente de outras áreas, como filósofos, romancistas, contistas. Comecei com os clássicos. Descobri os modernos e muito cedo me chegou às mãos o poema concreto. Foi fundamental. Conheci os poetas que faziam o experimental, e pensei: vou experimentar sempre, quero ser livre, até pra transar com a tradição. Aí fui fundo em Joyce, - não o Joyce poeta, nem o contista, sem a mesma loucura, se comparado ao romancista - e reli o Guimarães Rosa, - esse me influenciou no sentido de brincar palavras e jogar com a filosofia popular -, procurei o Leminski, - eu o conheci pessoalmente, ele me deu poemas inéditos -, e os transgressores de todos os tempos, os malditos, os sem-livro, sem nome, sem espaços. Tenho carinho especial por estes. Inspiram-me até. O velho hippie de Santa Tereza, os marginais magistrais dos 70, a puta linda da Lapa, os bêbados do subúrbio, os andarilhos on the road, a corte de gays da Elke Maravilha, ninfetas de Ipanema dos anos de flower power, os gênios anônimos perdidos pela noite; os mendigos invisíveis das ruas, o bardo Alfredo... Tanta gente me influencia. Eu celebro a tantos...
E até alguns poetas contemporâneos.

Mônica Montone: Quais foram os grupos de poesia em que você atuou?
Cairo Trindade: Depois de um jogral da escola, no Portinho, que fazia o maior sucesso mas não tinha nome, fui de um grupo de hippies que faziam happenings com pop poesia, nos 70, já aqui no Rio. A GANG não é exatamente um grupo. É uma griffe, uma, como disse o Claufe, marca. Um bando de poetas anarco-desvairistas. Existe há 24 anos. É sempre a mesma mesmo sendo sempre outra. E tem a DUPLA DO PRAZER, que eu faço junto com Denizis, desde 85, que só pinta em momentos especiais. Participei dos DESCARAVELADOS, grupo pelo qual guardo carinho, e outras rapidinhas. Ah, e os BANDIDOS DO CÉU, que deu origem a um "movimento" e iniciou muita gente nesta arte dos novos recitais.

Mônica Montone: Existe uma eterna discussão se a poesia deve ser apenas falada ou performática. Qual a melhor maneira de se passar uma mensagem, na sua opinião?
Cairo Trindade: Quanto mais criativa e singular, melhor. No mínimo, bem falada. Pude ver Eugene Evtuchenko recitando no Copa, com Dina Sfat, gostei e aprendi muito com ele. Também revi Lindolf Bell, pouco antes de morrer, soberbo. Tenho curtido cantores recitando. Bethânia manda muito bem. A maior discussão é se a poesia deve virar espetáculo ou apenas ser lida em silêncio e solidão.

O Drummond, o Bandeira e o Cabral só sabiam escrever. Alguns fazem leitura branca, e tudo bem. Outros sabem dizer um poema comme il faut, e o fazem sem ler. Melhor ainda, já é um avanço. Cada um faz o que pode. Pra mim, pode tudo. Só não pode é ser aquela chatice e afastar o público. O poeta, se e quando sobe ao palco; deve saber desempenhar seu poema.

Mônica Montone: Você trabalha com sua mulher, a poetisa Denise.
Como se dá essa relação profissional?
Cairo Trindade: Denizis não se considera poetisa. No máximo, bissexta. Diz que brinca de vez em quando, sem nenhuma pretensão. Ela tem contos inéditos porretas. Mas adora poesia. Considera o palco sagrado, por isto nós dois, a Dupla do Prazer, só.nos apresentamos juntos em circunstâncias muito especiais, e quando acontece é sempre um grande barato. E tem grande participação na minha Oficina.

Mônica Montone: Viver de poesia no Brasil não é fácil.
Além da poesia, com o que mais você trabalha?
Cairo Trindade: Dou aulas de poesia, conto, crônica, literatura em geral. Faço oficinas de texto. Trabalho com criação literária. Há mais de dez anos dou cursos aqui, em Copacabana, e há três anos no Sindicato dos Professores. Dou workshops por aí. Tenho uma editora particular, trabalho para a Agenda da Tribo, faço copy desk, ensino a dizer poemas em cena, vendo livros, faço recitais em outras praças. Vivo pra poesia. Pra mim, Mônica, não dá é pra viver sem poesia.

Mônica Montone: Qual é a sua formação?
Cairo Trindade: Eu fiz Direito, nunca exerci. Comunicação, não concluí. Direção teatral, não tenho muita paciência. Fiz coisas que descurti e hoje uso
em meu trabalho. Estudei Poesia, desde sempre.
Continuo estudando e aprendendo muito na prática.

Mônica Montone: Você já fez inúmeras oficinas de poesia. Ainda faz?
Cairo Trindade:É meu ofício. Aquele papo de "operário da poesia" não é apenas uma metáfora. A fábrica continua, e cada vez maior.

Mônica Montone: Como são essas oficinas?
Cairo Trindade: Tenho uma metodologia própria, que inclui teoria, técnica, leitura dirigida, estímulos e oficina de texto propriamente dita. Individuais ou em grupo, são vivências, e não somente aulas. Ampliam-se conhecimentos e possibilidades do fazer poético. Cria-se e se exercita a disciplina de ler e escrever. Trabalha-se cada texto buscando a perfeição possível. O método é mais complexo e eu não poderia revelar aqui, em poucas palavras. Convido você a fazer uma vivência poética: daria pra ter uma idéia do que sejam minhas oficinas.

Mônica Montone: E os recitais? Qual a função dos recitais na atualidade?
Cairo Trindade: Apenas um outro meio de levar poesia a um público maior. E pessoas que não costumam ler ouvem e compram os livros. Claro que a grande função deveria ser a de se tornar um grande movimento, até que isto se transformasse em uma arte especial. Como o show, como o teatro.

Mônica Montone: Em sua opinião, por que é tão difícil conquistar novos públicos em torno da poesia, já que todos dizem gostar da arte?
Cairo Trindade: Todos gostam realmente. Falta infra, produção, mídia, então não se cria um mercado propício à Poesia.

Mônica Montone: O que mais te inspira?
Cairo Trindade: Tudo. Principalmente a palavra, o som dela, seu peso, a química na frase, às vezes até a imagem. Tudo: um pentelho, um poema, a fome,
a guerra, uma piada, um orgasmo, a morte.
Tudo o que toca fundo, mexe muito e muda o (meu) mundo.

Mônica Montone: Quais são seus livros publicados ?
Cairo Trindade: Se contar com o mimeografado POETASTRO, em pequena tiragem, de 74, são quatro. SACANAGERAL, de 80, LIBERATURA, de 90, Poematemagia é o que está rolando por aí. E várias antologias de poetas amigos e pupilos. Uma pela legendária Codecri, uma pela não menos, Trote, e uma inédita, pela Achiamé. E, last but, vários de minha Oficina, com meus novos escritores, por meu selo Gang Edições.

Mônica Montone: Qual mais gosta e por que ?
Cairo Trindade: Entre os meus individuais, o primeiro, Poetastro tem o fascínio das coisas perdidas no tempo. Saca na geral esgotou rápido, inspirou a música de um filme, foi marcante naquele momento heróico da Gang e acabou sendo o primeiro, tiragem de mais de mil exemplares. Liberatura me abriu portas, visibilidade pelo país, poemas reproduzidos em vários lugares, pelo Brasil inteiro. Poematemagia, o mais recente, é quase uma antologia, tendo nele textos de várias fases, desde 71, 72. Gosto de todos, mas o próximo é sempre o melhor.

Mônica Montone: Bom poeta é aquele que:
Cairo Trindade: lê bem, vive intenso, conhece a técnica e diz coisas
novas e/ou de um jeito novo.

Mônica Montone: Que caminhos você vislumbra para a poesia brasileira?
Cairo Trindade: Do poema em prosa à poesia visual, com o approach do web design, vários caminhos. Mas que seja a nova poética do século XXI.

Mônica Montone: Escrever pra quê?
Cairo Trindade: Escreviver. Pra entender, poeticamente, este caos, esta mágica, esta loucura que é a vida. E., com isso, pra ter prazer e pra dar prazer. Sempre me perguntam se dá pra viver de poesia. Ora, não dá é pra viver sem poesia.

Curiosidades e Predileções

Cor: qualquer uma no contexto certo, ou fora de
Textura: aveludada
Cheiro: de terra molhada e de corpo ardente
Sabor: chocolate e beijo
Som: bossa nova, jazz, ruído de chuva caindo, palavras sussurradas ao pé
do ouvido, o barulho de Copacabana, o silêncio da madrugada.
Bebida: absinto, quando possível, pipperment
Lugar: minha casa, a cidade maravilhosa, um bom palco,
a sala de aula, "vezenquando" a estrada .
Livro: todos do Machado, do Érico Veríssimo, do Nélson Rodrigues, do Vinicius, da Cecília e do Leminski. E do Victor Giudice e do Caio Fernando. Só de literatura brasileira, sem falar nos atuais e nos de fora, de todos os tempos.
São tantos que estou quase deletando.
Filme: Também são muitos.
Música: qualquer bossa nova, sempre
Sonho: o próximo livro
Ama: cada poema que bate, cada beijo, cada orgasmo, os filhos,
os amigos, o Brasil, a vida.
Odeia: a idéia da morte
Mania: de trabalhar à exaustão, até esgotar as minhas possibilidades; dizem que é mania de perfeição, talvez beire a loucura.
 


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