Cristina da Costa Pereira


"As contas estão aí            cotidianamente           a me cobrar uma atitude:          práxis, ação, economia.          E eu aqui,         levianamente,         a fazer poesia."       CCP



Banjaras*
 

Andaremos lado a lado

como andáramos outrora

capaz que ao tocares a rosa

recordes seu nome em sânscrito.

É só mirar teu semblante

que me enredo em imagens e panos

e tilintam-me aos sentidos

sons de pulseiras e tablas.

Ai, antes não me recordasse!

Mas é só te encontrar na rua

em meio a carros e buzinas

que já não diviso essa cidade

nem me perco nessas esquinas.

Ai, antes não me recordasse!

Descubro-te em sorriso de nácar

braços de pele morena

— Mais que isto: acobreada —

e levam-me a outras paragens.

Ai, antes não me recordasse!

Andamos já lado a lado

em verdade entrelaçados

nossos pés chegam juntos

aos véus flutuantes da lua.

Ruído só de moedas

nas ondas dos meus cabelos

quando sopras verbo novo

na concha do meu ouvido.

Clara manhã de elefantes,

cheiro de cravos e almíscar

e ecos de encantamento.

No jogo das Três Pedras

sobre o tapete estendido

olha-nos o ancião

com seu turbante ocre.

Já não há o que fazer

quando o fato é consumado.

Outra vez viandantes.

* Ciganos hindus


 



Satori *
 

Sou oscilante como um pêndulo

mas dele posso aprender o adivinha

descobrir o ponto exato de energia

e amenizar agonia, ansiedade e sofrimento.

Entre angústias, aflição e ambivalência

encontrar cristais no coração

depurando pelo sangue o mórbido vírus

do ciúme, da posse, da dominação.

Por fim, mergulhar profundamente

nas ansiadas entranhas do espírito

e descobrir o amor

de que careço como o ar

para iluminar toda a cidade.

* Palavra em japonês que significa iluminação, correspondendo a insight, termo da psicanálise.



2001:Uma odisséia no Brasil

¿No ha de haber un espíritu valiente?
¿Siempre se ha de sentir lo que se dice?
¿Nunca se ha de decir lo que se siente?

Quevedo

Teu devastador dia-a-dia

é um espinho fincado

no meu auriverde coração

(eu, que nem "sou morena como vocês"

mas "também sou brasileira").

Resta-me a aventura do sonho

e deixo-me apossar pela escrita.

Então:

dar nova vida às palavras gastas

aos sentimentos puídos

às ilusões despedaçadas

às esperanças desconstruídas

aos ideais esvaídos.

Escrever um poema.


(...) "Estou aqui, receptiva, aguardando que me reconheças,             para, juntos, encetarmos uma bela viagem,          pés no chão, rumo as estrelas."           CCP



Solidária
/t
 

Pelas mulheres subjugadas

de todas as eras e geografias

oprimidas em domésticas lidas

consumidas em medievais labaredas

a ninfa brande o seu chicote

seios desnudos, saia coral transparente

e monta à escancha perna

o lombo dos machos em cada esquina

de noite, de tarde, de dia

nos prados ou nas cidades

nos salões ou nas cocheiras.

E não se sacia.




Pneumonia galopante
 

Na ante-sala do hospital

esperando todos serem atendidos,

o travesti, com um fatal vestido azul-cintilante,

me olha com extrema sensualidade

e diz que hoje estou des-lum-bran-te!

E com a carne de sua boca rasgada

sugere que sua parcela masculina

amaria intensamente a minha mulher.

Com um olhar de reciprocidade

defloro-lhe o homem

e fantasiamos ultra-romanticamente

o mais surpreendente enlace

entre vidros de soro, termômetros e balões de oxigênio.


(...) quisera silenciar minha natureza humana          e como que dispor numa mesa todos os meus sentidos,          a serviço de Deus. (...)        CCP



Ondinas
 

A única história que pressinto do mar

(e da qual tenho vagas lembranças)

é a que ele me escamoteia

através do vaivém de suas ondas.

Todas as outras são circunstanciais.




A Teresa de Ávila
 

Ficaste assim um pouco levitando em minha fantasia,

Ó Teresa, que escapaste por um triz

— tendo aristocrática e influente família —

dos inquisidores,

pois por bruxa te tomavam,

mas de fato o que incomodava

era a tua palavra enérgica e doce

que punha o dedo em uma certa ferida purulenta:

os desmandos e o luxo católicos apostólicos romanos.

Ficas assim um pouco levitando em minha fantasia,

através da aura que paira sobre este morro

de místicos, favelados, arquitetos e poetas,

cantantes, artesãos, pintores e pequenos funcionários,

fotógrafos, músicos, estrangeiros e milionários

os moradores deste bairro.

Ficarás assim levitando para sempre em minha fantasia,

e com teus pés descalços

andarás pelas ruas sinuosas

que construo na minha imaginação

e que vejo de minha janela

todo dia.



Ladeiras


Tudo é silêncio neste apartamento da Monte Alegre.

Madrugada em que só se ouvem o motor da geladeira

e os grilos, ao lado, no terreno baldio.

E um ou outro carro que vai ou volta (que sei eu?)

da rua, que é ladeira.

Eu tenho uma vocação enorme para morar em ladeiras:

Cândido Mendes, Santo Alfredo, Monte Alegre...

e sabe-se lá mais qual, algum dia.

Elas têm me ensinado bem o que é a vida,

esse sobe-e-desce com saltos que se prendem

nas pedras artesanalmente encaixadas,

e as inevitáveis quedas.

Mas também a possibilidade de se chegar ao topo,

ainda que resfolegando,

todos os dias.


"Esta flor que se lhe abre despudorada           havia se fechado há tempos          estava, por assim dizer, congelada           mas seu impulso incontrolável           penetrando-lhe elétrico as pétalas          reacendeu ancestral vocação           de incorrigível planta carnívora."          CCP



Parece que foi ontem

(as nossas avós)

No exato momento em que estavas em bordéis,

botequins, salões de festas e ruas,

cercado de luzes, cores e sons,

comendo, bebendo, dançando,

e dormindo com variados tipos de mulheres,

tua mulher, no porão, à luz difusa,

enquanto fazia nervuras

no vestido de primeira-comunhão da filha

(e, de resto, cozinhava, lavava e passava

para toda a família),

tecia tramas e sonhos incontroláveis

enquanto pisava compulsivamente

no pedal da máquina de costura.




"Ser poeta não é um meio de escrever,
é um modo de viver."
                                   Mário Quintana

"O corpo não é uma máquina
como nos diz a ciência.
Nem uma culpa
como nos faz crer a religião.
O corpo é uma festa."
                                     Eduardo Galeano

"Mais vale a inspiração que o saber."
                                 Einstein

"Sempre o delito pior é ter nascido."
                                 Murilo Mendes

"Para nós, ciganos,
caminhar é uma vontade íntima."
                                   Oswaldo Macedo

"São muito obscuros e difíceis de entender
esses assuntos íntimos da alma."
                              Teresa de Ávila

"Acordo do meu sonho
... e não sou nada."
                                Florbela Espanca

"Ouvem-se vozes
não se sabe de onde."
                                Federico García Lorca

"Enquanto escrevo, 
vou analisando o que se passa na minha cabeça(...)
Valha-me Deus! No que fui me meter!"
                            Teresa de Ávila

"A divindade habita as palavras quando delas nos
servimos para transportar luz."
                               Luiz Fernando Prôa
 




Cristina da Costa Pereira é carioca, professora de língua portuguesa
e literatura, ensaísta, autora de literatura infanto-juvenil e poeta.

Livros publicados: Povo cigano (ed. da autora, 1986); Os ciganos continuam na estrada (Ribroarte, 1989); Lendas e histórias ciganas (Imago, 1990);  Ainda é tempo de sonhos (Imago, 1992); Revisitando o bairro de Santa Tereza... e outros caminhos (Luziletras, 2ª edição, 1998); Todos os sentidos (Luziletras, 1999); Mescolanza (Luziletras, 2001). Com o ensaio A inspiração espiritual na criação artística (Lachâtre, 1999), foi finalista do Prêmio Jabuti, categoria religião, 2000.
Participou na condição de organizadora e poeta da Antologia 
Sob o signo da poesia
(Heresis, 2000) e fez texto de apresentação 
e participou como poeta da Antologia Santa Poesia (MMRio, 2000).
Assina a coluna "Ler é Refletir" da Folha do Catete
é uma das coordenadoras do Sarau João do Rio.


Se você gostou, escreva para: luziletras@dimmercom.com.br
Ou indique o endereço: www.almadepoeta.com/cristinadacostapereira.htm


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