Poetas 3 x 4

Concha Rousia

                                       Galiza




Tudo da Melra, Testamento


Eu sou o último vestígio da minha estirpe

disse-mo a melra, já me deu três avisos

subiu ao pessegueiro, pola do meio:

 

...Escreve os teus desejos antes de parar o tempo

reparte o mundo, reparte aquilo ao que já des-pertences

 

Onde, onde posso eu achar tão grande pergaminho

onde sem segar as almas todas dos carvalhos?

 

...Escreve no ar, solta livres as palavras

tu falas e eu vou movendo o vento que as leva

 

Mas a onde

a onde do infinito pequena amiga?

 

...Para mim o jardim e o pessegueiro, escreve

 

Isso é doado amiga vestido-preto

mas a quem deixar o peso do meu silêncio

a quem os recantos da terra que não pisei

a quem os segredos que me contou o mar

a quem as caricias das ervas do regueiro

a quem as pegadas que me leram na neve

a quem a colecção dos suspiros do loureiro

a quem os retratos da montanha na janela

a quem o deus do que descreio

a quem

            a quem

                       diz-me a quem…

 

...A mim

            eu sou quem fica

            eu sou quem herda o mundo

                                                         tudo meu

quem te siga é estrangeiro

meu o mundo, da melra

                                      bule

escreve

                        escreve

                       escreve

fala

                 diz

                     liberta o verbo

diz

                 tudo

                     tudo da melra...

 


Se Os Carvalhos Falassem


Se os carvalhos falassem

                           não ficaria eu tão só

e as minhas conversas deixariam de ser

monólogos que me queimam na gorja

 

Se os carvalhos falassem

minha seria a dor da sua decota

meu o medo ao incêndio

e minha a capa de prata do seu tronco

 

Se os carvalhos falassem

meu seria o mundo dos pássaros

meus os degoiros e fantasias

minhas as pernas trepadoras de criança

e suas as minhas caricias

 

Se os carvalhos falassem

seus os meus ouvidos

minhas as suas queixas

meus os seus ancestros e os druidas

e as fadas do monte que há herdar meu corpo

 

Se os carvalhos falassem

Escutaria eu não outra fala

meu o refugio entre urzeiras e carpaços

minhas a paz e a liberdade

meu o meu destino

minha a minha pátria.

 


Concha Rousia nasceu em 1962 em Covas, uma pequena aldeia no sul da Galiza.
É psicoterapeuta na comarca de Compostela.
No 2004 ganhou o Prémio de Narrativa do Concelho de Marim.
Tem publicado poemas contos e artigos em diversas revistas galegas como Agália, Lethes,
e a A Folha da Fouce. Fez parte da equipa fundadora da revista cultural "A Regueifa".
Colabora em diversos jornais galegos. O seu primeiro romance As sete fontes,
foi publicado em formato e-book pola editora digital portuguesa ArcosOnline.
Recentemente, em 2006, ganhou o Certame Literário Feminista do Condado.
Também em 2006 publicou em Rascunho, O Jornal de Literatura do Brasil, o conto “Herança”
 
 


Contato com a autora: rousia@gmail.com
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