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Entrevista concedida por e-mail.
 

 

Agência Unipress


Agência Unipress: O sr. tem consciência de que se transformou numa bandeira de luta para milhares de pais que enfrentam o mesmo tipo de problema?

 Luiz Fernando Prôa: Tenho! E isso me assusta já que não calculo a dimensão desta coisa. Sou uma pessoa comum, acostumado à solidão de meu trabalho como escritor e promotor de cultura na Internet. Às vezes circulo em eventos poéticos e artísticos, mas a maior parte do tempo não. Meu assombro cresce quando vejo que não só as famílias com problemas com drogas, mas uma legião de indignados com tanta falta de paz e humanidade apóia essa voz, já que se identifica com as questões que estou levantando.


AU: O que mudou na sua vida desde o episódio que vitimou Bruno e Bárbara?

LFP: Tudo!


AU: Que conselho o sr. daria a pais que vivem a mesma situação?

LFP: Que lutem por seus filhos, não só em casa, mas pressionando as autoridades para que ajam rápido e mudem este estado de coisas com que nos acostumamos a viver. É como o slogan dito pelo Projeto Zap, da Internet: “Dizer não, as drogas... - não basta!”, temos de fazer muito mais se queremos minimizar o estrago que elas produzem. Não produzimos nem as drogas nem as armas que circulam no Brasil.


AU: De acordo com a Lei de Entorpecentes, a internação para o usuário de drogas depende da própria vontade do viciado. Um projeto de lei na Câmara dos Deputados propõe a obrigatoriedade do tratamento. Um laudo médico diria por quanto tempo o dependente ficaria internado. O sr. acha que esse é realmente o caminho para minorar o problema?

 LFP: Quem não se droga neste país? Garanto que não é a minoria. Vão ter de arrumar um outro Brasil para colocar tanta gente dentro. Não são só as drogas ilegais que são drogas, as bebidas alcoólicas, apesar de legais, fazem parte da mesma categoria. É preciso internar contra a vontade o dependente químico que perdeu todos os limites, contanto que com qualidade no atendimento e com critério, para que não haja abusos e excessos. É como no caso do escritor Paulo Coelho, que foi internado por 3 vezes porque queria fazer Teatro, e não Direito como seu pai almejava. Mas temos que ir mais longe, já que o álcool é a principal porta de entrada para o mundo das drogas. É preciso por fim em toda propaganda de bebidas alcoólicas, em qualquer meio. Colocar advertências educativas nos rótulos dessas bebidas, sobre os prejuízos que podem causar à saúde, como se faz nos maços de cigarros. Acabar com aqueles corredores charmosos onde se vende bebida nos supermercados e confiná-las onde só possa entrar adultos. Abrir a discussão sobre o aumento da idade permitida para o consumo destas bebidas para 21 anos, como já acontece em outros países, e com fiscalização eficiente.

Sobre um laudo indicar quando tempo de internação o dependente precisa, só se o médico for um vidente. Isso varia muito e é de difícil previsão.


AU: Já foi procurado por alguma autoridade estadual, municipal ou federal para discutir algumas das sugestões propostas pelo sr?

LFP: Não! Estou mais preocupado com que esse grito seja ampliado, com que mais gente passe a opinar e ser ouvida. Como disse, sou apenas um cidadão comum e não sou o dono da verdade. Nossa sociedade precisa discutir suas questões, participar ativamente na condução de nossos destinos, pressionar por seus direitos e não deixar tudo na mão de políticos, de grandes empresários e sindicatos.  


AU: O governo do estado informou que deve assinar convênios com organizações não-governamentais para ampliar o atendimento aos usuários de drogas. O sr. acredita que isso vai sair do papel ou vai cair no vazio assim que o assunto se esvaziar como costuma acontecer nesse país?

 LFP: Já estamos acostumados com isso. Estoura uma bomba, chegam os bombeiros e ficamos aguardando o próximo incêndio. Já cansamos de ver soluções paliativas e maquiadoras que não resolvem os problemas. Empurram o incêndio sempre mais para frente. Não quero pré-julgar as boas intenções que às vezes aparecem, como agora no Rio, mas vemos que as ações são sempre menores que os problemas a enfrentar.


AU: Como uma família pode evitar que seus filhos mergulhem no mundo das drogas?

 LFP: Para os pais que ainda não vivem esse problema, o primeiro passo é ficar de olho nas bebidas alcoólicas. Elas rolam em festinhas de criança, nos churrascos em família, entre os amigos da escola, nas baladas e bares. Com isso, usando uma droga pesada, como é considerada a bebida alcoólica, eles se acostumam com o estado de embriagues, euforia e desinibição que ela provoca. O que acaba os aproximando de outras experimentações. O segundo é educar, mostrar o estrago que essa droga provoca, no caso do crack, que não é a única. É só dar uma passadinha na crackolândia de sua região que logo verão o efeito devastador que ele provoca. O caso de meu filho também é bem educativo, uma pessoa boa, educada, carinhosa e que chegou ao fundo do poço e a cadeia. Um caso de saúde pública que virou um caso de polícia.

Contudo a situação é bem pior e vemos a droga na falta de ética, na política, no trato com os problemas da população, no silêncio da maioria, na falta de amor e compaixão, no consumismo desenfreado, na falta de nos vermos como sociedade e optarmos pelo individualismo. Isto tudo, e coisas mais, geram um grande vazio nas pessoas e uma sensação de insatisfação constante. Aí só resta nos embriagarmos em muitas coisas além das drogas químicas, como o futebol, o carnaval ou a alienação. Os estádios nunca ficam vazios, um evento GLS reúne 2 milhões de pessoas, mas quando lutamos por transformar a realidade e lutar por nossos direitos só aparece meia dúzia de gatos pingados. Unidos temos força, como demonstrado na derrubada do Collor ou nas Diretas Já, que perdemos em função do período político em que vivíamos. Mas estamos muito acomodados.


AU: O sr. também acha que cabe prioritariamente ao governo federal(PF) a tarefa de combater a entrada de drogas?

LFP: Sim! Mas o problema maior não são as drogas, elas são apenas uma ponta do iceberg, e afiada. As armas que entram fazem muito mais estrago.


AU: O Rio de Janeiro oscila entre a euforia e a depressão por causa dos últimos acontecimentos. O sr. também acha que deveria se pensar menos em 2016 e mais no dia-a-dia da população?

LFP: As olimpíadas são importantes para o Brasil, não há dúvida, e não só para o Rio. Mas a prioridade e a escolha dos investimentos do governo têm de ser questionada. Vão se gastar muitos bilhões com compra de caças da força aérea, com submarino nuclear (pacífico?) e não faço ideia quanto se gasta com o Haiti. Isto me cheira a militarização do país, uma nação pacífica. E para que? Para agradar os compradores, para conseguir assento nos G8s da vida? Não temos nem guarda-costeira e ainda vamos dar dinheiro para o FMI? E nós, como ficamos por aqui? Falam em dar 100 milhões para tratar as sequelas da droga (até o fim de 2010), outros tantos para equipar a polícia do Rio. Mas para que, para transformar isso aqui num Vietnã? Se esses bilhões fossem investidos na educação e na saúde, talvez não precisássemos desses trocados para tapar buracos. Não quero aqui ficar jogando só pedras, temos coisas positivas acontecendo, mas existe uma timidez que acaba gerando diversos problemas sociais, como a violência e o flagelo das drogas.

Para responder parte da pergunta, não vejo ninguém eufórico no Rio hoje em dia, pelo contrário, o medo é generalizado.


AU: A religião de alguma forma pode contribuir para ajudar a resolver os problemas das drogas ou isso nada tem a ver?

 LFP: A religião não vai resolver o problema das drogas, mas com certeza pode contribuir e muito, contudo o problema é mais complexo, e muitos que vivem esse problema não querem nem ouvir falar em Deus, o que é lamentável. Da mesma forma as estatísticas nos mostram que a proibição e a repressão não reduzem o problema, que só cresce. Não estou defendendo a liberalização geral, mas sim que se comece um amplo debate nacional sobre a política de drogas em nosso país, sem hipocrisia e com os pés no chão, para que se equacione esta questão e vítimas diárias deixem de ser produzidas, enlutando famílias por todo Brasil. Essa é uma das propostas que levantamos na caminhada que fizemos domingo agora, 8 de novembro, em Copacabana.


AU: O crack era conhecido como uma droga da classe baixa. Como o senhor vê a entrada da droga em famílias da classe média? 

LFP: Sim, o crack era considerado uma droga consumida apenas por pessoas mais humildes. Pelas informações que tenho, obtidas na mídia, essa praga começou a se espalhar pelo Brasil, mais intensamente, há 6 anos. Tempo que coincidi com a descoberta dos problemas de meu filho com essa droga pesada. Em uma de minhas cartas abertas fiz o alerta: antes existia apenas uma crackolância, ficava no centro de São Paulo e ninguém fez nada, hoje são centenas pelo Brasil, daqui a um ano serão milhares, num crescimento exponencial. O problema da gripe suína é fichinha, se comparado à epidemia do crack. Milhares estão sendo vítimas diretas e indiretas dessa droga, diariamente, principalmente nas áreas mais desfavorecidas socialmente. Contudo ela tem se esparramado por todas as classes. Como muitos fumam cigarro e outros maconha, parece que fumar crack, na cabeça deles, é apenas mais uma fumacinha que entra pela boca. E aí é que vem o pano de fundo. Nossa juventude está bebendo como nunca antes, basta ver os balanços financeiros das cervejarias e similares. O que acontece é que muitos, nos embalos de bebedeira/balada, se entorpecem com essa droga pesada chamada álcool e acabam provando da fumacinha do crack. Quando se dão conta já estão viciados. A voracidade pelo lucro, dessas empresas de bebidas alcoólicas, aliada a total liberdade de sedução de jovens, que elas têm, acaba colaborando no aumento do número de vítimas do crack.


AU: O que se pode fazer com meninos de rua que já estão mergulhados no vício e que tem naturalmente muita dificuldade - condições sociais e familiares - de internação?

LFP: Investimento pesado, educação. Um povo instruído tem melhores condições sociais e pode controlar melhor seu crescimento, em número. Não adianta construirmos 10 hospitais se daqui a 5 anos vamos precisar de 30, construir 30 se daqui a dez anos vamos precisar de 90. Este é um assunto sério e que é pouco discutido. Crescer e multiplicar quando a Terra estava vazia era o certo, mas o planeta já está superlotado e continuamos crescendo, agredindo o meio-ambiente e provocando o aquecimento global. A reação do planeta, esse organismo vivo, já é visível. Este fenômeno climático, como dizem os cientistas, irá atingir e deslocar populações imensas. E continuamos crescendo. Está na hora de nos organizarmos, não só no Brasil, e lutarmos efetivamente pela vida no planeta de forma global ou nunca resolveremos nossos problemas locais. E continuamos crescendo, no mundo todo. O meio científico vem nos alertando há muito tempo sobre o caos climático que estamos promovendo. Um de seus principais causadores é a queima de combustíveis fósseis, como o petróleo, e por aqui estamos soltando fogos cada vez que encontramos novos poços para a produção desta energia que está matando o planeta. E salve o pré-sal.


 

 

 


 

Matéria do Jornal do Brasil sobre a repercussão de uma declaração do Governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, que disse: "sou favorável à liberação das drogas, desde que seja um pacto internacional, com aval de organismos internacionais, como a ONU e a OMS".

 

Minha resposta:

Portugal liberou em 2001 (pelo que li o consumo até caiu), a Argentina também está se mexendo, discriminalizando a maconha. Por que aqui, onde enfrentamos uma verdadeira guerra temos de esperar por um pacto internacional ou por aval de organismos internacionais? Onde está nossa soberania? Concordo com o governador no sentido de ser favorável à liberação - já que a proibição não resolve o problema, só o exacerba. Mas não se pode lavar as mãos e continuar condenando usuários, familiares e o resto da população ao martírio da cruz, através da não assistência às vítimas e da omissão das autoridades em não mudar a política de drogas, que só faz gerar mais mortes e violência. A proibição nos faz reféns dos traficantes e abastece o crime organizado. Temos que tirar os dependentes químicos das mãos desses traficantes e colocá-los nas mãos do governo e da sociedade, além de questionarmos por que uma droga pesada, o álcool, goza de tantas regalias hipócritas em nosso país. A guerra está aí, atingindo principalmente a parte mais humilde da população e superlotando os presídios. Não será com submarino nuclear e jatos de guerra sofisticados que a venceremos. Estes bilhões que serão gastos, nessas compras, seriam mais bem empregados na solução das mazelas que afligem diariamente nosso povo. Infelizmente isso não dá voto, nem assento nos G8s da vida!

Luiz Fernando Prôa


 

 

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