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Depoimentos de familiares vítimas do crack e outras drogas.

 

 

Aos 29 anos, "ainda" cheia de vida e beleza, tive um anjo que me levou para uma clinica de recuperação. Neguei a minha doença o quanto pude e me utilizei de todos os argumentos mentais, emocionais e psicológicos para isso. Fiquei três meses por lá. Obtive alta, fiquei mais um tempo fazendo terapia, frequentando o grupo da clínica e acabei conhecendo o N.A. Foi difícil aceitar como eles rotulam determinados sentimentos e pessoas, mas era a minha vida que estava naquela sala em Ipanema.

Parei de beber depois de inúmeras recaídas, perdi o pai do meu filho para as drogas e hoje, só por hoje, estou limpa há dois anos. Sei que estas palavras não servem de consolo, porém quando se quer algo verdadeiramente, o universo conspira a seu favor. Estou com você nesta luta contra a hipocrisia que existe neste país em favor das drogas ditas "legais", tão legais que matam milhares de jovens todo dia.

Vou tentar que o meu grupo ou quem sabe algumas pessoas se mobilizem em prol desta campanha. Mas te aviso desde já: cuidado com aqueles que vão se aproveitar deste momento tão importante. Tem grupos estampando sua solidariedade, quando na verdade enchem a cara  com qualquer substância que dê barato. 

 

 

 

 

Relato de um dependente químico.
 

Meu nome é ....., escritor, cineasta e um adicto em recuperação.
Em 2007 depois de lançar um romance contra as drogas (Ecstasy: A Escolha é Sua) eu simplesmente fui lançado no mundo das drogas. Eu sabia tudo a respeito das conseqüências, mas não hesitei em usar.
Não estava deprimido e nem com dificuldade alguma na vida.
Eu recebia 9 mil por mês e dirigia um carro de mais de 100 mil reais, com apenas 24 anos. Estou tocando em valores para todos saberem aonde eu cheguei.
Estava em ascensão no cinema e tenho uma grande produção para 2010. Minha carreira como escritor também ia bem. Não dá para dizer que pode ganhar muito com literatura no país, mas em 2010 irei lançar outro livro.
Na época eu morava com minha avó. Não gastava em nada além de roupas caras, viagens e baladas. Chegava ao ponto de torrar cerca de 800 reais por noite.
Então comecei a me viciar nas chamadas “termas”. Em uma delas conheci uma garota que me ofereceu logo o Ecstasy. Bêbado, eu fiz uso.
Gostei tanto que comecei a ir até a favela buscar mais. Os traficantes me davam o troco em cocaína (e eu não podia reclamar).
Certo dia minha namorada pediu para irmos ao motel e para eu levar a cocaína. Nunca havia experimentado. Foi então que comecei a ser um adicto.
Chegava a gastar mil reais em cocaína, consumia cinco Ecstasys por dia, bebia duas garrafas de Jack Daniel’s, o que me deixava três dias acordado.
Depois tomava Haldol e dormia por mais dois dias.
Eu era bem forte (100 quilos) e em pouco tenho estava com 70. Tinha juntado dinheiro e ele simplesmente acabou. Comecei então a utilizar o cartão da minha avó. Em um mês eu gastei cerca de 40 mil reais, com droga, bebida, balada e prostituta.
Tive um relacionamento com uma atriz .... e comecei a dormir (como amigo) na casa de um dos maiores jogadores de futebol...., foi quando minha falsa “auto-estima” disparou.
Em pouco tempo eu já não tinha mais dinheiro, carro e nem dignidade. Parei de escrever já que ou estava me drogando ou estava dormindo. Minha única sorte é que eu já tinha vários trabalhos prontos, tendo em vista que eu escrevia muito.
Porém meus amigos começaram a não me aceitar. Cheguei ao ponto de recusar uma ótima proposta de emprego, que me custaria o dia inteiro trabalhando.
Tive um princípio de infarto dentro de um motel e minha avó teve que ir ao meu socorro.
Vendo minha situação periclitante internaram-me em uma clínica. Não deu resultado algum. Depois me internaram de novo. Sem resultado de novo.
Cortaram meu dinheiro e bloquearam a minha conta bancária. Queriam até mesmo entrar com uma ação de interdição junto ao Ministério Público.
Ninguém via salvação em mim. Todos já haviam perdido a esperança.
Cheguei a vender um pertence de 800 reais por apenas 50, tamanho era meu desespero.
Consultei-me com os melhores psiquiatras e psicólogos e todos não queriam cuidar do meu caso..
Furtei cheques dos meus parentes e dinheiro.
Eles não conseguiam me internar de novo, já que perceberam que não faria efeito.
Então minha mãe teve a idéia de me levar aos Narcóticos Anônimos. Foi quando minha vida começou a mudar. Não parei de usar do dia para noite, mas vendo situações semelhantes ou piores que a minha, comecei realmente a refletir que estava destruindo minha vida.
Mas foi Deus que me fez largar o vício. No começo foi muito difícil. Eu tinha uma abstinência psicológica terrível. Não sabia como viveria com o fato de ter perdido tudo e ainda por cima ser considerado uma ameaça a todos.
Quando penso em voltar a usar (por causa de algum problema) eu respiro fundo, vou tomar um banho e escrever.
A dependência química é uma doença. Em minha opinião clínica é um mercado e não apresenta um bom resultado (procurem dados na Internet e verão que não estou dizendo besteira).
Mas no meu caso a clínica salvou minha vida. Ou me amarravam na cama ou na clínica. Clínica serve para desintoxicação, porém há muito trabalho a ser feito fora dos muros.. Temos que encarar traficantes nos aliciando (já que somos consumidores), com a desconfiança de todos e com a tentação da recaída.
Acho que não devemos nos manter limpo para os outros ou esperando algo em troca. Devemos ficar longe das drogas porque é conosco que ela está jogando. A recuperação deve ter o apoio da família, todavia na minha situação não encontro apoio. Mas não é motivo para eu dizer: minha vida está uma merda e usando ou não droga vai ficar na mesma. Então vou usar.
De fato, para o que era antes, minha vida está uma merda.
Estou sempre pedindo a Deus para me ajudar. Não tinha religião nem tenho a intenção de converter ninguém. Mas a Igreja nos dá novos e verdadeiros amigos. Abre um mundo ainda desconhecido. De que podemos ser felizes longe das drogas. Eu nunca acreditei, depois de tudo, que poderia. E aqui estou. Se eu consegui, por qual razão você não consegue?
Está desesperado de abstinência? Converse com sua família ou com algum amigo! Procure um médico para receitar algo para acalmar seu coração.
A recaída faz parte, mas a pergunta é: você quer recair? Quer começar tudo de novo apenas por uma noite ou um dia de falsa diversão?
Não faltaram inimigos disfarçados de amigos. A tentação existe para fazê-lo forte. Para reafirmar seu propósito.
Eu sei que muitos não entendem a sua dor e a sua luta. Talvez esteja sem aliados ou esperança.

 

 

 

 

Mãe pede socorro ao delegado!


Ao Sr. Dr. Ademir da Silva Pinto

Estou buscando ajuda com o Sr., pois não consigo apoio e empenho do pai, tive certeza que meu filho é dependente de substâncias psicoativas em 11/07, na época ele tinha 18 anos, desde então luto pela sua recuperação, o problema que esta luta é solitária, pois não conto com a cooperação do jovem (sei que são sintomas da doença) e nem do pai, inclusive, ele atrapalha  todas as tentativas de ajudá-lo, o caso é tão grave que conversando com uma assistente social ela perguntou se também o pai não era usuário.

Junto com a certeza do vício do meu filho  comecei a buscar ajuda em grupos de apoio, como por exemplo, Pastoral da Sobriedade e Amor Exigente, para compreender e ajudar meu filho, o jovem já fazia acompanhamento com psiquiatras e  psicólogos , e o pai sabia da dependência mas não acompanhava este processo por pura falta de interesse, falar com ele ao telefone era, e, é quase impossível, muitas vezes o jovem sumia de casa e eu não tinha como avisá-lo...

 Após um  certo período, noites fora de casa,  percebi que não tinha outra alternativa, teria que interná-lo. Após conversar com amigos e pessoas envolvidas com o mesmo problema,  consegui internação na Fazenda da Esperança em Teresópolis. O pai se mostrou contra e levou o jovem pra  morar com ele. Eles moram e Marechal Floriano. Nisso o rapaz vinha todos os dias estudar na Escola Técnica Federal e a Universidade foi trancada. O compromisso do pai  se reduziu a isso.

As consultas com psiquiatras e psicólogos, continuavam sendo pagas por mim, todos os meses, conforme recibos, mas o pai não trazia, me dizia que as   drogas eram coisas do passado, ele vive fora da realidade de um drogado.

Comecei a  vigiar o meu filho, após o trabalho eu ia para frente da  escola, e percebi que ele vinha no transporte, mas não entrava na escola , subia os morros que tinham nos fundos, tentei comunicar ao pai mas ele não “acreditava”. Até que um dia meu filho estava na minha casa, tinha que chegar do estágio as 13:00h, ligou avisando sobre estar preso em um “engarrafamento” e só chegou as 19:00h, não acreditei e busquei informações, descobri que ele estava se drogando.

Com muito sacrifício consegui interná-lo em 09/09/08 na Fazenda da Esperança de Três Marias – MG, novamente com tudo pago por mim, internação, mensalidades, despesas pessoais. Inclusive, na viagem de ida, por ser muito longa e eu precisava do apoio do pai, paguei as despesas pessoais  dele, como alimentação, hospedagem etc.

A falta de compromisso dele é tão grande que quis parar em um shopping de Belo Horizonte par ir ao cinema, isso na viagem de ida.

Meu filho ficou internado 4 meses. Foi difícil que ele permanecesse  lá, por comportamento inadequado, causado pelas drogas que deixou ele totalmente sem limites, tinha então que saber o que escrever para ele, usar toda a diplomacia possível. Só que pressão do pai para que ele deixasse o tratamento foi muito grande, como prova este e-mail que a comunidade me enviou.

Minha primeira visita foi em 14/12/08 e o rapaz havia melhorado o comportamento e pretendia continuar o tratamento, só que em 04/01/09 o pai foi visitá-lo junto com avó paterna e atendendo as reclamações do jovem, que talvez esperasse que uma comunidade terapêutica fosse um campo de férias trouxe  ele de volta. Tentei fazer com que fosse internado imediatamente em outro lugar, mas sem sucesso. Novamente ele contou com o apoio do pai e da avó paterna e ficou aqui (morando com o pai).

De  04/01/09 ele usou drogas, com certeza, 2 vezes, o pai  não quer internar, porque “acha que tem que dar chance, tadinho, se toda vez que ele tiver uma recaída for internado?”. Na última vez que ele saiu ficou um dia e uma noite se drogando e disse que consumiu 40 pedras de crack e teve uma overdose, quando acordou ligou para namorada que cuidou  dele o dia todo. Agora  pai resolveu  esconder de mim quando ele usa, neste dia mesmo só fiquei  sabendo após muita pressão, falei até em “mandar matar” o pai caso ele não me contasse a verdade, “surras” então prometi um monte.

Sei que o rapaz é maior, mas quero ajuda para tratá-lo, uma pessoa que com 17 anos já cursava escola técnica  federal e já tinha passado no vestibular da UFES tem potencial e acredito na recuperação dele, desde que bem acompanhado, caso contrário será outro marginal ou até então um cadáver qualquer sem identificação, que quando ele usa muito penhora até os documentos. Mas preciso contar com ajuda do pai e isso eu não estou conseguindo, preciso desse comprometimento moral e agora financeiro, pois saí do meu emprego (devido  a essa situação), onde tinha uma certa estabilidade e um salário razoável após 12 anos no mesmo emprego.

Estou com outra internação programada para 09/05/09, mas o pai continua  ausente, não veio ainda conversar comigo.

Após a overdose, falei 1 vez com ele ao telefone e ele disse que não foi overdose. Preciso acertar os detalhes de tudo mas não consigo nem comunicação, quanto mais apoio.

Atenciosamente

...

Essa mãe informa que após esta carta o delegado obrigou o pai a agir. Seu filho está internado há 6 meses.

 

 

 

 

Eu também tenho um sobrinho que há alguns anos luta contra o alcoolismo. Ontem mesmo, depois de 3 anos de internação em Cachoeiro de Itapemirim, pudemos vê-lo aqui no Rio, na casa de seus pais, sem agitação e sem debilidade, muito comum quando resolvem dopar o paciente. Foi uma luta dura, pois ele chegou a querer ser internado em uma clínica da Gávea, onde acredito que ele trocava o 6 por meia-duzia, ou seja, o álcool pago pelos possantes tranquilizantes cobertos pelo plano de saúde. Meu irmão percebeu isto e encontrou uma clínica naquela cidade para onde ele foi levado na marra, gostando ou não, pois era caso de vida ou morte. Ele estava tão mal acompanhado na ocasião que acho que ele seria facilmente morto por estar devendo tudo que tinha e não tinha. Esta clínica foi a salvação, pelo menos nos 3 anos que esteve lá e o fez repensar na vida, e esperamos que aproveite este período de volta ao lar para crescer. Vamos passar pelo próximo teste de Natal e Ano Novo, tão fácil de encontrar um vinhozinho daqui, uma cervejinha dali, etc. Torço para que seu propósito seja firme e que ele sobreviva a estes e muitos outros fins de ano.

Tudo que posso dizer a estas famílias enlutadas é que há muito pouca gente trabalhando a favor da recuperação, contra o apelo do álcool e das drogas, que a amizade verdadeira é muito pouco compreendida e valorizada, e que muitos desprezam a força do corpo, seja para o bem como para o mal. Quantos chocólatras existem, sem conseguir se livrar do vício. Fumantes, idem. São pessoas que fazem mal somente a si próprio, que não percebem que o corpo não pode mandar, que a saúde deve vir acima de qualquer prazer, etc, tão fácil de falar mas tão difícil de corrigir.

Acho que a união dos que sofrem, que alertam aqueles que estão "ainda" imunes, é vital e imprescindível. Eu me junto a ti neste momento pois o seu temor é o mesmo que o meu. Que pouco a pouco os Brunos e os Rodrigos sejam mensageiros da paz, no dizer não ao veneno e à violência, que nos mostrem o que eles precisavam ouvir para saírem daquele estado de torpeza, que, quem sabe, sejam no futuro mensageiros que venceram pela persistência e rezas de muitos outros.

 

 

 



(...) Hoje fazem exatamente 16 dias que meu filho está em uma chácara para recuperação, estou torcendo por ele porque o máximo que ficou das outras vezes, foram 11 dias. Há quase 3 anos... cada dia, cada minuto... vivo o pavor que o crack faz com as pessoas. A tragédia que abateu sobre sua família (Luiz), tem acontecido todos os dias... Isso tem que acabar! Como? Nos unindo e clamando por medidas e atitudes do governo. Um psiquiatra que atendeu meu filho na emergência, nos dias em que a gripe suína assolava o país disse: "A gripe suína é fichinha perto da epidemia do crack!” (...)
 

 

 

 

Sou uma mãe que luta pela plena recuperação de meu filho dependente químico e TDaH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade).
Quero lutar por outros filhos, quero unir outros pais, quero unir a sociedade e alertá-la para que entenda que este é um problema de saúde publica e de todos nos. Que pode atingir a qualquer um e que não adianta fechar os olhos para o problema, ele pode bater a sua porta a qualquer momento.
Quero que a sociedade entenda que somos todos vitimas e que os dependentes químicos são doentes e precisam de tratamento decente com a ajuda da sociedade e do governo.
Está na hora de unirmos forças e darmos um basta, de exigirmos uma posição do governo, do senado, dos políticos, porque enquanto não tomarmos uma atitude a droga vai bater em nossa porta, seduzindo nossos filhos ou atingindo-nos pelo crime.

 

 

 

Relato da mãe de um adolescente de 17 anos que vem lutando para tirar o filho do crack, que neste momento se encontra abstinente. Essa mesma mulher também luta para salvar seu irmão do mesmo problema. Ele já perdeu 30 quilos e toda a noção da realidade. Como se vê no texto, ele até pensa em se internar, mas a fissura o impede. Caso clássico para uma internação compulsória.


(...) Hoje surtei,acordei às 3:00 da manhã e não dormi mais, só chorava! Fui para o hospital. Diagnóstico: estafa mental. Me deram diazepam na veia, fiquei um pouco de repouso por lá e depois fui para casa. Agora estou calminha, calminha - risos. Me passaram um remédio para conseguir dormir à noite, mas não é calmante não é um anti-ansiedade e anti-agitação. Males do milênio? Mesmo assim, minha cunhada e irmão me ligaram o dia todo. Eu no meio da confusão! De manhã ele concordou em se internar,à tarde mudou de ideia. Um ficava pedindo para eu ligar para o outro. Agora desliguei o celular, preciso descansar minha mente. Não fui trabalhar hoje, mas amanhã, embora o patrão tenha dito para não ir, eu tenho que ir. Meu trabalho é acumulativo e se não for, 2ª estarei lotada de serviço e mais nervosa ainda. Trabalhar é ótimo para nos manter em pé. Resolvi entregar na mão de Deus e orar por aqui. Sinto-me impotente perante às drogas. Se adoecer perco meu trabalho. E aí perco o rumo. (...)

 

 

 



(...) No meu caso foram muitas as madrugadas de sobressalto a um breve toque de telefone... Foram muitas as noites aguardando na porta da faculdade para pegá-la acreditando que ali se encontrava, uma vez que havia deixado-a ali. Foram 4 cursos parados pela metade. Foram noites passadas em branco em oração. Sou pai e mãe. Minha filha é bipolar. É filha do coração e não da barriga o que dificultou um pouco mais saber a origem dos problemas... Mais tarde descobri que a mãe biológica era alcoólatra... A minha sorte foi que minha filha, alem do álcool, não experimentou outra droga senão a maconha. O que salvou a minha filha foi o amor... Só amor... Muito amor!... Parei minha vida no todo o resto. Só trabalhava e me dedicava a ela... Foi quando eu descobri que tinha uma veia poética... Fiz as coisas mais absurdas só para estar do lado dela... Em sua quarta faculdade iniciada, eu, aos 54 anos voltei a estudar na mesma faculdade somente para estar com ela.

 Dentro da faculdade só nos separávamos porque eram cursos diferentes: eu fazia pedagogia e ela comunicação. Para estar com ela valia qualquer sacrifício... Fazíamos planos de formatura juntas... Sonhávamos uma grande festa!... Mas não deu... ela não conseguia ficar em sala de aula... Era primeiro lugar em tudo, mas reprovava por frequência... Dia da minha formatura ela chorou muito. Mas antes disso, um dia eu disse: Basta!... Não tenho mais dinheiro pra jogar fora. Agora vou investir em mim. Ela chorou, esperneou e ficava na net o dia inteiro... Comecei a regular dinheiro... Dificultei o que pude, mas para sair de casa o pai, que agora tinha uma outra família, dava dinheiro. Minha família inteira contra mim dizendo que eu havia feito todas as vontades dela e que tudo aquilo era rebeldia.

Um dia, numa pesquisa na faculdade sobre o mecanismo do cérebro no processo de aprendizagem eu descobri que a minha filha era bipolar.

Ela já havia passado por vários psicólogos e não conseguia se dar bem com nenhum e também ninguém chegou a este diagnóstico. Bom, diante desse fato novo, resolvi procurar um psiquiatra e por muito custo ela aceitou que precisava de ajuda... No momento certo retornou ao acompanhamento psicoterápico, mas não conseguia se adaptar com nenhum profissional. Um dia eu resolvi visitar uma psicóloga e dizer a ela como deveria proceder com minha filha. Eu pesquisava e o fato de estar com ela 24 horas percebia suas necessidades e dificuldades, mas como santo de casa não faz milagres, ia e falava com a psicóloga. Foi aí que conseguimos manter um bom tempo de acompanhamento. Um belo dia resolveu que ia morar em Curitiba e trabalhar. Desesperei-me, mas não teve outro jeito. Partiu. Já estava com 25 anos e não tive como evitar.

Como o bipolar tem a afetividade atrapalhada, pois, estando ausente dos olhos é muito fácil esquecer, eu sofria muito porque ela não mandava noticias.

 Quando algum amigo ou amiga ligava dizendo que ela havia sumido já há dois dias eu queria morrer... Pensava nas piores coisas e orava... Pedia iluminação divina para ela e para meus dias. Um dia, depois de um fato desse, pedi a ela que voltasse pra casa, que eu me sentia muito sozinha sem ela... Ela retornou. Hoje está casada, morando em Curitiba e mãe de uma bebezinha linda de 7 meses. Seu marido é uma pessoa muito especial, de família tradicional, o que está ajudando muito minha filha a descobrir muita riqueza dentro de si. Eu viajo todo mês pra Curitiba, com ou sem dinheiro eu lá estou... O portador da bipolaridade precisa só de amor. Muito amor. Só assim conseguiremos abrir o ponto que é fechado em seu cérebro. Estou muito orgulhosa pelo fato de Deus ter colocado ela em meu caminho, pois só assim eu me transformei num ser humano melhor e descobri que somente o amor cura. O amor transforma tudo e nos coloca bem mais próximos de Deus.

Naqueles meus períodos de busca que pudesse me explicar a razão de tanta instabilidade e a necessidade de uma maneira de falar com minha filha sobre a bipolaridade, eu escrevi um poema. Quando ela leu começou a chorar e disse: “Mamãe, sou eu no papel”...

 


Envie seu relato para o e-mail:

luizproa@uol.com.br


 

 

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