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A primeira carta:
 

 

Carta do pai de um viciado em crack que virou criminoso!

 
Meu filho começou na droga pelo álcool, no colégio, esta droga LEGAL com que a propaganda bombardeia nossas crianças e jovens todo dia, escancaradamente, e que produz milhares de mortes no trânsito, destrói lares, pessoas do bem e, como se sabe, a primeira droga que os jovens experimentam. A maioria segue pela vida em maior ou menor grau se drogando com ela, o álcool, outros acabam provando das ilegais, sendo que uns fogem delas, outros se viciam numa espiral crescente e veloz. Em geral, passam pela maconha, vão na boca adquiri-la e os comerciantes felizes lhes oferecem um variado cardápio, self-service: cocaína, crack, haxixe, êxtase, ácido...

 Sei que há seis anos perdi meu filho para o crack, mas apesar das sequelas e problemas, ele nunca deixou de ser carinhoso e educado com todos, o que lhe granjeou um número sempre crescente de amigos.

Ele passou por várias internações - tinha desde pequeno outros problemas mentais que se exacerbaram com as drogas. Sempre que saia, das internações, ficava bem, até encontrar os amigos, tomar umas cervejas e aí a coisa saía novamente de controle. Nestes tempos o vício, apesar de grave, ainda não tinha produzidos todos seus efeitos devastadores. Mas com o tempo e a reincidência o crack foi o devastando. Nos últimos tempos dizia-se derrotado para o vício, vivia muito deprimido e voltara a frequentar o NA, Narcóticos Anônimos. Tentei de tudo para convencê-lo a se internar, mas vai pedir para um pinguço largar sua garrafa, é inútil. Ele foi cada vez mais descendo a ladeira.  De mãos atadas fiquei esperando pelo pior ou por um milagre, já que segundo os “especialistas”, que ditam as políticas públicas para o tratamento de drogas, o drogado tem de se internar por vontade própria.

 A reportagem que o Brasil assistiu esta semana, da mãe que construiu uma cela em casa, para tentar salvar o filho viciado em crack é bem representativa de como as famílias vítimas deste flagelo estão abandonadas pelo Estado, se virando à própria sorte. E é bem possível que ela seja punida por isso. Na mesma reportagem uma psicóloga inteligente afirmava que o viciado em crack tem de vir voluntariamente para tratamento, este é o método correto, segundo a maioria dos que estão à frente das políticas para esta área. Será que essa profissional é incapaz de entender o estrago que o crack/cocaína ocasiona nas mentes de seus dependentes? Será que ela é capaz de perceber o flagelo que o comportamento desses doentes causam sobre as famílias?

 Um drogado, ou adicto, que já perdeu o senso de realidade e o controle sobre sua fissura, torna-se um perigo para a sociedade, infernizando a família, partindo para roubos, prostituição e até assassinatos, por surto ou por droga. Esperar que uma pessoa com a mente destruída por droga pesada vá com seus próprios pés para uma clínica é mera ingenuidade destes profissionais. O Estado tem de intervir nesta questão para preservar as famílias e os inocentes. A internação compulsória para desintoxicação e reabilitação destes doentes, que já perderam todo o limite, é uma necessidade premente. Ou será que todas as famílias que vivem esse problema terão de construir jaulas em casa?

 Se meu filho fosse filinho de papai, como falaram, eu já teria pago uma ou mais internações, infelizmente o papai aqui não tem grana para isso, assim como a maioria das famílias vítimas deste, que insisto em reafirmar, flagelo.

 Hoje vi uma pessoa boa se transformar num assassino, assim como aquele pai de família correto, que um dia bebe umas redondas, dirige, atropela e mata seis num ponto de ônibus.

 As drogas ilegais ou não estão aí nas ruas fazendo suas vítimas diárias, transformando pessoas comuns em monstros e o Estado não pode ficar fingindo que não vê.

Dizem que vão gastar 100 milhões para equipar a polícia, mas e as vítimas diretas das drogas como ficam, os jovens humildes atraídos pelos criminosos para seu exército e os policiais mortos em combate nesta via indireta da guerra do tráfico?

Está na hora de acabar a hipocrisia!

 Meu filho destruiu duas famílias, a da jovem e a dele, além de a si próprio. Queria sair do vício, mas não conseguia. Eu queria interná-lo à força e não via meios. Uma jovem, a quem ele amava, queria ajudá-lo e de anjo da guarda virou vítima.

 Ele irá pagar pelo que fez, será feita justiça, isso não há dúvida. O arrependimento já o assola, desde que acordou do surto do crack deu-se conta do mal que sua loucura havia lhe levado a praticar. Ele me ligou, esperou a chegada da polícia e se entregou, não fugindo do flagrante. Não passarei a mão na cabeça dele, mas não o abandonarei. Ele cumprirá sua pena de acordo com a lei, dentro da especificidade de sua condição.

 Infelizmente,  só consegui interná-lo pela via torta da loucura, quando já não havia mais nada a fazer, num surto fatal.

Este é um caso de saúde pública que virou caso de polícia.

Que a família da Bárbara possa um dia perdoar nossa família por este ato imperdoável. Chorei por meu filho 6 anos atrás. Hoje minhas lágrimas vão para esta menina, que tentou por amor e amizade salvar uma alma, sem saber que lutava contra um exército que lucra com a proibição (que não minimiza o problema, pelo contrário, exacerba), por um bando de tecnocratas e suas teorias irreais, e para um Estado que, neste assunto, se mostra incompetente.

Luiz Fernando Prôa, o pai

 

 


A segunda carta:
 

 

Chega de Hipocrisia! O desabafo do pai do viciado continua!

 

Caros amigos, os antigos e os que chegaram agora,

 

Gostaria de agradecer o apoio de todos numa hora tão difícil como esta. Precisou acontecer um fato chocante, um abalo que não atingiu apenas as famílias envolvidas, para que a sociedade se mostrasse perplexa e comovida perante a tragédia diária que vivemos em todos os cantos do país. Não tive tempo para acompanhar nada do que saiu nos noticiários, mas, segundo ouço falar, há um clima de indignação generalizado. O acontecimento lamentável do sábado, dia 24 de outubro (quando meu filho viciado em crack matou a amiga que tentava ajudá-lo a largar as drogas), fez emergir questões difíceis do dia-a-dia, que todos nós enfrentamos e já não aguentamos. Vocês não me verão mais lamentando os eventos que passaram, isso agora fica na minha esfera pessoal. Só me interessa olhar para frente e fazer alguma coisa.

 

Dentro dessas questões, o crack é uma delas. De uma cracolândia em São Paulo se multiplicaram centenas pelo país. Daqui a um ano serão milhares! A cola de sapateiro foi substituída pela pedra maldita, o consumo disseminado entre todas as classes e o combate intensificado contra o crime organizado transformou o Rio de Janeiro num teatro de guerra, perdida, e que será maquiado para as Olimpíadas de 2016. Mas essa guerra não é só aqui, está espalhada e em expansão por todas as capitais, periferias e áreas pobres principalmente, no interior e nas cidades de fronteira.

 

O poder público, apesar da boa vontade de alguns setores, se mostra incapaz de deter a marcha vertiginosa das coisas. Há dinheiro para o FMI, para submarino nuclear, para aviões militares sofisticados, para Angra 3 e até para o Haiti, mas o que vemos aqui é a estrutura complemente falida, seja na área da saúde, da segurança pública, na defesa do meio ambiente e em outras áreas.

 

Não podemos continuar a ser esmagados e acuados pela falta de recursos, pelo poderio de grandes grupos econômicos, como o setor privado de saúde e a poderosa indústria da bebida, que sabemos ser uma droga pesada, apesar de lícita. Dois exemplos são emblemáticos. O primeiro é a aliciação através da propaganda de cervejas e similares sem nenhum controle, em nome da democracia – a deles, é claro – e do direito de informação. Chega a me doer ver atletas se prestando a isso, por dinheiro. A segunda é pessoal. Passando mal na sexta, final da tarde, fui até uma clínica em Laranjeiras, a mesma em que morreu a Cássia Eller, e que agora mudou de nome. Com a emergência aparentemente vazia, duas pessoas apenas na minha frente, esperei no mínimo uma hora e quarenta para ser atendido, ainda tendo que aturar a cara de nojo que a médica plantonista me lançou, quando com educação reclamei com a enfermeira sobre a demora. Mas meu caso não era de emergência, apenas uma dor profunda no coração, um possível enfartezinho qualquer. Saí de lá indignado e me dirigi a outra clínica, com um pique de pressão que poderia ter consequências graves. Por sorte fui atendido prontamente por lá. Isso em plena zona sul do Rio e com um cidadão comum que, naquela semana, havia se tornado assunto corriqueiro até no exterior.

 

Esta semana foi a pior que já tive na vida! Contudo, houve fatos positivos e que me surpreenderam. A imprensa, muitas vezes criticada, teve um papel importantíssimo neste debate que se desenrolou, cobrando das autoridades ação. A população a “cada esquina” debateu entre si a sua indignação. Os que têm alguma voz na mídia se pronunciaram. E até um pai ousou falar em humanidade.

 

Por isso me dirijo aos amigos e aos inconformados com este estado de coisas, para agradecer e alertar.

 

A imprensa e as pessoas comuns seguraram em minhas mãos nestes dias, mas nenhuma autoridade se dirigiu a mim nem me ofereceu qualquer apoio, não sei se por falta de jeito ou com o intuito de não querer ouvir alguém que grita em seu ouvido.

 

Não posso gritar sozinho. É muito fácil tirar de cena quem aponta o dedo para setores tão poderosos. Mas se formos milhões a gritar, a apontar o dedo, a coisa fica bem diferente.

 

Alguns gestos que tenho recebido – centenas de e-mails, scraps e depoimentos pelo orkut – têm me comovido: relatos de famílias desesperadas e até uma comunidade no referido orkut chamada Poemas à Flor da Pele, que criou um movimento em apoio a meu grito.

 

No domingo que vem, dia 8 de novembro, às 14 horas, mesmo que não apareça ninguém, irei caminhar na praia de Copacabana dizendo não à hipocrisia, à falta de ética, ao descaso e à propaganda de bebidas na tevê. O convite está feito, gostaria muito de ver por lá cidadãos decentes e entidades como o Viva Rio, o grupo Basta, membros do Crack Nem Pensar, Movimento pela Ética na Política, ecologistas e quem mais quiser aderir.

 

Não pretendo me promover nem me candidatar a nada. Estou muito feliz sendo escritor e promotor de cultura na Internet. Tenho certeza de que ninguém gostaria de estar na minha pele neste momento. Mas não vou me omitir. Saí do armário e espero que outros façam o mesmo.

 

Chega de hipocrisia! Precisamos de ação, paz e um pouco de HUMANIDADE!

 

Obrigado!

 

Luiz Fernando Prôa
 

 


A terceira carta:
 

 

"Podemos facilmente perdoar
uma criança que tem medo do escuro;

a real tragédia da vida é quando
os homens têm medo da luz."

 
 Platão

 
Affonso, obrigado! Fiquei comovido pela publicação de minha carta em seu blog!

Com a tragédia sempre vem a lição, já sabemos disso, mas vejo que esta me direciona para uma missão.

Nos meus primeiros desabafos, sem querer, acabei levantando questões. Coisas que já ruminava interiormente, que afetam muitos, mas que não tinham nenhum destaque. O problema das drogas ilegais já estava aí, em aberto, mal discutido e sem nenhuma solução efetiva por parte das autoridades deste país. Tivemos agora o episódio da gripe suína e todo o país se mobilizou, mas isso é fichinha comparado ao problema do crack e da cocaína. Na questão do cigarro vejo que as medidas são efetivas e estamos evoluindo (ainda não consegui chegar lá, mas vou parar). Mas a discussão do álcool não existe. Ou melhor, existem coisas assim: Se beber não dirija – traduzindo: beba livremente quando não dirigir. Tem gente que só usa táxi, agora!

É neste ponto, o álcool, droga pesada lícita, que acredito ter levantado uma bandeira objetiva. As pessoas estão se drogando cada vez mais e novos consumidores estão sendo treinados ou aliciados, as crianças e adolescentes principalmente. Mesmo com todos sabendo que o álcool vem produzindo milhares de mortes ao longo de décadas, principalmente no trânsito, mas não só nele.

Quando escuto coisas deste tipo: “Tirei ótimas férias, fiquei tomando minha cervejinha na praia”... – traduzindo: fiquei me drogando na praia; “A festa de aniversário (ou o churrasco) estava ótima, cerveja foi o que não faltou”... – traduzindo: droga foi o que não faltou. Sei que outra pessoa ao ler esse trecho vai dizer que estou exagerando, mas as bebidas alcoólicas são drogas que atingem o sistema nervoso e isso não se pode negar. O cigarro também é uma droga, mas que não embriaga.

Estou dizendo isto tudo, como introdução, porque reparei que esta semana, exceto nos programas ao vivo, toda vez que falei das propagandas de bebidas alcoólicas, que deveriam ser proibidas, cortavam essa parte. Da mesma forma quando falava que em outros países o álcool só era permitido para maiores de 21, e que a polícia encarava essa proibição com seriedade, reprimindo-a, também não aparecia. Ainda bem que não falei que deveriam colocar nos rótulos das bebidas fotos de bêbados (drogados) na sarjeta, batendo na mulher, provocando acidentes fatais ou no leito de morte por cirrose. Se falasse, além de não aparecer, corria o risco de apanhar.

 Affonso, meu amigo, pessoa a quem bato palmas pela trajetória de vida, eu conheci muita gente nesses 10 anos do Alma de Poeta, mas a grande maioria são pessoas que não tem voz ativa na mídia. Esses amigos, maravilhosos, estão fazendo uma grande corrente, utilizando suas redes de contatos para divulgar a manifestação pacífica que estou convocando para o próximo domingo. Este ato não se restringe a falar do álcool, do crack e demais drogas, mas é um grito contra a falsidade e a desumanidade, “Chega de Hipocrisia!” O poder econômico dos grandes grupos não pode estar acima das pessoas comuns, ditando leis, como essa que oferece 15 dias por ano de internação para drogados e doentes mentais, nos planos de saúde. Muito menos no caso da liberdade da indústria da bebida em seduzir uma legião imensa para suas garras. E o que vemos no dia-a-dia, o poder econômico de grandes grupos influindo na política. Repare que os casos de corrupção nunca acabam, só crescem. Nosso povo não gosta disso, mas a cada eleição é seduzido pela força do dinheiro e acaba elegendo novamente, em grande número, aqueles mesmos que vão meter a mão no seu bolso, que são muito competentes em suas carreiras, mas não conseguem resolver problemas básicos que afligem à população.

  Resumindo, o poder econômico, usado de forma criminosa, nos levando a uma sociedade hipócrita.

Gostaria de ver neste dia uma legião de indignados, que não aguenta mais tanto desmando, e também os vários grupos que lutam isoladamente em defesa da sociedade, da ecologia e do bem.

Por isso esta nova carta, dirigida a uma pessoa que tem respeito e reconhecimento público, para que você, meu amigo, possa repassá-la através de sua credibilidade a todos seus contatos que têm alguma voz atuante na sociedade e algum espaço na mídia.

Sei que esta é a luta de um cidadão comum (que teve sua voz ouvida em função de uma desgraça pessoal, que afetou vidas e comoveu o Brasil) contra forças poderosas que impedem a justiça e a verdadeira democracia em nosso país. Sozinho não sou ninguém, mas se este grito se intensificar e nossa sociedade abraçá-lo, poderemos voltar a olhar com bons olhos para o futuro e até sonhar com um país melhor, mais fraterno e humano.

Você, meu poeta querido, está convidado, dia 8, domingo próximo, no posto 6 em Copacabana, com concentração às 14 horas. E o convite, claro, é extensivo a todos que não suportam mais a Hipocrisia que vivemos. Espero ver por lá muitas faixas, cada uma com seu grito próprio. E também que a segurança dos manifestantes seja garantida pela Prefeitura do Rio. 

Obrigado por sua atenção!

Abraço, poesia e muita luz,


Luiz Fernando Prôa

www.almadepoeta.com

 


A convocação para a caminhada em Copa:
 

 

Chega de Hipocrisia!


Domingo

Dia 8 de novembro

Caminhada em direção ao Leme


Concentração a partir das 14 horas

No Posto 6, em Copacabana

Em frente ao posto de salva-vidas.

 
- Pela internação compulsória dos usuários de drogas pesadas, legais ou ilegais, que já perderam todos os limites. Criação de unidades terapêuticas humanas e modernas para recebê-los, com acompanhamento especializado que realmente os reabilite. E seguindo critérios de análise, caso a caso, para que não haja abuso deste poder;

- Pelo fim de toda propaganda de bebidas alcoólicas, em qualquer meio. Colocação de advertências educativas nos rótulos dessas bebidas, sobre os prejuízos que podem causar à saúde, como se faz nos maços de cigarros. Abertura de discussão sobre o aumento da idade permitida para o consumo destas bebidas para 21 anos, como já acontece em outros países, e com fiscalização eficiente.

- Pela alteração das normas que regulam os planos de saúde, para que os doentes mentais e viciados em drogas pesadas possam se tratar, sem limite de tempo.

- Por um amplo debate nacional sobre a política de drogas em nosso país, sem hipocrisia e com os pés no chão, para que se equacione esta questão e vítimas diárias deixem de ser produzidas, enlutando famílias por todo Brasil.

 Ou a sociedade avança e discute seriamente seus problemas ou não seremos uma sociedade, mas sim milhões de individualidades, uma nação egoísta.

  

Chega de Hipocrisia!

 Este é Nosso Grito!

Divulguem!

 Obrigado!
 

 Luiz Fernando Prôa

 

O SILÊNCIO E A INDIFERENÇA SÃO “DROGAS PESADAS”

E TAMBÉM MATAM.

  

Apoios:


“Poetas del Mundo”, “Voluntários da Pátria”, “Comissão de Direitos Humanos da OAB-RJ”, “Rio de Paz”, “Heróis do Cotidiano”, “Projeto de Segurança Ipanema”, “Poemas à Flor da Pele-RS”, “MUNAP-BH”, “Revista Zap”, “Círculo Universal dos Embaixadores da Paz”, “Gabriela, Sou da Paz”, “Movimento de Conscientização da Cidadania”, “UBE-RJ” e individualmente centenas de poetas, artistas das mais diversas artes e grupos,
além de cidadãos do bem.

 

 


As lições que a caminhada em Copa nos trouxe!
 

 

Respondendo ao e-mail de meu amigo Jason Sagara,
sobre como havia sido a caminhada Chega de Hipocrisia!
 

Foi boa, dentro da realidade que eu já esperava. No pico da concentração, e contando as pessoas conhecidas que passaram para deixar um abraço, acho que umas 80 pessoas. A caminhada partiu com cerca de 50. Claro que não dá para concorrer com o Rio 40º,  praia lotada, Maracanã cheio e a indiferença já além da lotação. Confesso que eu mesmo dificilmente iria, o sol estava mais forte que a lua cheia. Mas fui acordado de uma letargia que parece contaminar todos nós, acordado pelo pior dos pesadelos. E não vi outro caminho senão passar a mensagem à frente. Pesadelos deste tipo têm atingido muita gente, bota gente nisso. O que acontece e que me assusta é o crescimento veloz, em aceleração, e cada vez mais incontrolável, dos casos de violência, não só nas grandes cidades como no interior e na fronteira. Esse é um pesadelo que vai invadir a vida de um número cada vez maior de pessoas que, como eu até alguns dias atrás, via a violência pelos veículos da mídia, como se não fosse no meu país, no meu bairro, dentro da minha própria casa.

O mais importante desta caminhada foi saber que demos o grito, que ele aos poucos vai atingindo mais gente e que os órgãos de informação têm sido essências ao ampliá-lo e com isso cumprido sua função social. Peço desculpas aos amigos por não ter conseguido lhes dar a atenção devida, meu foco neste instante é mandar o recado para cada vez mais ouvidos. É necessário que as pessoas pensem sobre seu papel na sociedade e, quem sabe, sensibilizem sua alma e venham nos ajudar.

Havia dito, em uma das cartas que escrevi, que iria caminhar nem que fosse sozinho. Foi bom saber que não estou mais só nessa caminhada. Muitos amigos e poetas apareceram, amigos novos e grupos ou movimentos que lutam por um mundo melhor, além de tevês, jornais e rádios, e não esquecendo de um ingrediente importante, a emoção que demonstrava cada um dos presentes.

A mensagem está circulando. Uma coisa que me tocou muito, e chamou minha atenção, foi a grande teia que se estabeleceu na Internet. Uma imensa corrente humana ligou uma infinidade de redes sociais e a mensagem correu longe. Foi até surpresa receber um torpedo de um xará, o Luiz Fernando, pouco antes de começar a caminhada, que de Londres mandava dizer que estava com a gente com toda a energia de seu ser. Precisamos fortalecer e ampliar essas redes sociais, elas são um instrumento essencial para que nossa voz possa ser ouvida e assim tenhamos o poder de mudar a realidade e ser agentes de nossos destinos. Um quarto poder para fazer com que os outros três não continuem seguindo na contramão de nossos desejos.

Ouvi de tudo naquele dia inclusive relatos muito fortes, outros até gozados. Como o que escutei de um dos amigos, dizendo que teve gente que não veio por que eu era contra o álcool e como gostavam de beber não iam caminhar por isso. Não dá para ser hipócrita, muito menos carregando a bandeira do Chega de Hipocrisia! Também gosto de tomar uma taça de vinho ou uma latinha de cerveja, mas o faço muito raramente, por opção. Nossa luta não é diretamente contra as drogas, mas contra o que as cercam. A violência, o descaso com as vítimas e a falta de uma discussão séria, sem preconceitos ou “viagens” neste assunto tão preocupante que é a guerra que se está travando: onde muito mais gente morre que os números de mortos que as drogas ilegais produzem, onde muito mais gente morre da droga legal, o álcool, do que das ilegais. Alguma coisa está errada, neste caso, e não quero ser o dono da verdade, mas enquanto me derem atenção vou lutar para que este assunto esteja na ordem do dia. As vítimas estão aí, nas ruas, nas comunidades, no trânsito, nos quartéis, no seio da família. É preciso encarar essa situação de frente, com máxima urgência e recursos. Há alguns anos o demônio da inflação foi dominado pelo Real (R$), ajustes foram feitos e a economia deixou de ser doente. Estamos agora precisando cair na real, agir, e domar este demônio muito mais poderoso. O que só depende de nossa ação e de vontade política para isso. A sociedade precisa dessa cura!

Ah, até a poesia apareceu! Poesia de repúdio ao que nossos olhos e mentes captam! Poetas nunca deviam fazer poemas desse tipo! Mas o que fazer? São tempos de guerra aqui no Rio e não é muito diferente da realidade que se vive em que todo nosso país.

Grande abraço, meu mano Sagara, e a todos que lerem este texto. Precisamos de outras caminhadas como essa, mas sem que seja organizada no calor de uma tragédia, e sim fruto da ação coletiva, junto com todos aqueles que não querem mais este demônio, chamado hipocrisia, sentado sobre sua corcunda.


Luiz Fernando Prôa
 

 

 

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