Cesar de Araujo

vontade só           de rodopiar          com o pó                  ao som do mar            dançar... dançar         abraçado com as árvores ao vento             em noites de luar



Comentários, autobiografia e obras do autor.
 



Ave, Cesar! Viva, Cesar!

Por Aníbal Bragança


Alto. Voz grave. Eufônica. Poeta-poeta.
Quase dois metros de poeta. De poeta que não se alienou.
Que é um sismógrafo registrando os abalos de sua geração.

                          Luís Antônio Pimentel, 1973


A alma apanhou demais e vai pejada,
Mas vão leves as mãos cheias de nada.

               Geir Campos, 1959

 
Além da dor da perda do amigo, o choque da notícia do falecimento de Cesar de Araújo detonou
em mim, como certamente fez com muitos outros, especialmente naqueles que o conheceram desde
a juventude, um retorno a um passado em que estivemos juntos como integrantes de uma geração
que, aprendizes de mestres que chegaram antes de nós, pretendeu mudar o mundo, o Brasil
e nossa Niterói, de uma forma peculiar, hoje podemos dizer, quase ingênua.

 Acreditávamos no poder das palavras, das idéias e dos livros. Talvez tenhamos sido, como disse um bom memorialista da época, a última geração de leitores. Sei sim, como escreveu Marshall McLuhan, que hoje (ainda) se publica muito, mesmo mais do que naquela época, anos 1960 e 70, mas pergunto: quem corre ainda às livrarias ávido a comprar para ler o que há de novo? ...hoje só os bruxos, maduros e jovens, são capazes de despertar esse movimento. Felizmente os há.

 Cesar, tanto quanto através dos livros que publicou, e talvez mais ainda, “registrou os abalos
de sua geração” através da voz, bela voz que permanece hoje, milagres de tecnologias pós-gutenberguianas, fixadas nas fitas-cassete que, muito tempo depois produziu e editou
(entre 1991-1993), Fala, Poesia Brasileira, na qual diz muitos “grandes poetas das mais
variadas regiões do Brasil”, e Colheita, uma antologia de seus poemas.

 Cesar dizia versos engajados. Deixou registrado em seu Depoimento: “procurei divulgar”
poetas como Jonas Negalha (Angola), Patrice Lumumba (Congo, hoje Zaire), Pablo Neruda
(Chile), Garcia Lorca (Espanha), José Marti (Cuba), Maiakóvsky (antiga União Soviética), Bertold Brecht (Alemanha), Mao Tse-Tung (China), Ho Chi Minh (Vietnã), quase sempre com claras
entonações e intenções libertárias. Mas dedicou-se também, sempre, a dizer poemas
que cantam o amor e o desamor, a solidão e a tristeza.

 Fernando Pessoa, então um dos autores mais lidos no Brasil, especialmente, pela juventude
era outro poeta cantado em todas as oportunidades por Cesar. Nós lhe pedíamos que dissesse
“A tabacaria”, o que fazia com “vigorosa emoção”. Também outros, como Rimbaud, Tagore, Omar Khayyan, sem a conotação político-social tão em voga na época, eram ditos pela voz de nosso
poeta. Vivíamos uma época de revalorização da oralidade. Cesar se inseria numa família que tinha Maiakóvsky como ícone; fazia sucesso o poeta Eugene Evtuchenko, com sua Autobiografia precoce. Tínhamos entre nós Lindolf Bell e Gastão Neves, que ocuparam também o espaço da Diálogo para dizer seus poemas. A revolução cubana trouxera a hispanoamérica para o ambiente universitário e artístico brasileiro. Até Ferreira Gullar declamava em público a canção Guantanamera! Passaram a ser conhecidos entre nós Violeta Parra, Mercedes Sosa e outros. Gracias a la vida! Como já se escreveu “a denúncia e a busca da mobilização do público marcavam, de um modo geral,
a disposição do ambiente cultural”. Era o tempo dos espetáculos do Teatro Opinião e
do Teatro de Arena. Neste ficou imortalizada a peça “Liberdade, liberdade”, de
Millôr Fernandes e Flávio Rangel, aberta com Paulo Autran a dizer os primeiros
versos do poema de Geir Campos, “Da profissão do poeta”:

 

Operário do canto, me apresento

Sem marca ou cicatriz, limpas as mãos,

minha alma limpa, a face descoberta,

aberto o peito, e – expresso documento –

a palavra conforme o pensamento.

 

Ao ouvir de novo, agora, Balada de João-de-Barro, transporto-me à Livraria Encontro,
de Niterói, em 1967, onde esse poema, inspirado na famosa lenda indígena do pássaro construtor,
era um sucesso entre todos os que o ouviam na voz de Cesar. Neste seu poema, além da valorização
do trabalho e da família, chora-se o desencanto, a vingança, a solidão e a morte.

A Livraria Encontro, inaugurada aqui nesse ano, foi resultado das afinidades e da parceria profissional entre dois então jovens, um que vivia de ser gerente de agência bancária, mas sonhava desde os tempos em que era secundarista no Liceu Nilo Peçanha, em trabalhar no meio dos livros – o signatário destas linhas – , e Victor Alegria, seu então cliente no Banco de Cordeiro, agência da Avenida Passos, – o  editor do presente volume –, que, além de já ter criado a Livraria Encontro, em Brasília, mantinha um escritório comercial, depósito e distribuidora da empresa, Encontro S.A., Livraria, Discoteca e Galeria de Arte, no bairro de Fátima, na capital carioca. Outros jovens
como Joaquim da Costa Pereira da Silva e Davide Mota, também vindos de Portugal,
faziam parte do grupo, como sócios ou colaboradores.

A Livraria Encontro, em Niterói, foi instalada em loja da esquina da Rua Visconde de
Moraes com a Rua Tiradentes, no Ingá. Ponto central, então, entre a Faculdade de Serviço
Social (onde hoje esta sediado o Programa de Pós-graduação em Comunicação da UFF) e a
Faculdade de Economia, na Rua Tiradentes, e, na Visconde de Moraes, entre o Instituto Biomédico
e a Faculdade de Direito, ao fim desta, na Rua Presidente Pedreira. Estas faculdades faziam
parte da então nascente Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UFERJ), hoje, Universidade Federal Fluminense (UFF). A escolha do local também foi favorecida pela existência
do antigo Colégio Batista Fluminense, no mesmo cruzamento das referidas ruas, em diagonal à livraria, do Colégio Estadual Aurelino Leal, vizinho à Faculdade de Direito, e o Colégio
Bittencourt Silva, que foi sede, depois da sua
extinção, do Instituto de Ciências
Humanas e Filosofia (ICHF) e onde hoje se situa a sede principal do
Instituto de Arte e Comunicação Social (IACS), da UFF.

O fato deste escriba ser, então, além de bancário, aluno da Faculdade de Economia, e mais,
na época ser integrante da prestigiosa diretoria do Diretório Acadêmico Hermann Júnior, estimulou a participação de vários colegas na instalação da livraria, que foi feita com precaríssimos recursos, utilizando tijolo aparente quer na construção das vitrines, quer nas bases das estantes e do balcão de atendimento, complementadas economicamente por vidros e prateleiras de madeira. Amigos como Renato Berba, João Rocha, “Francês”, Carlos Alberto Jorge, e vários outros colegas, com poucos operários, ajudaram a montar a que se iria tornar, em pouco tempo, a principal livraria da cidade, sucedendo, por um tempo, a Livraria Ideal, de Silvestre Mônaco e seu filho Carlos Mônaco.

A Livraria Encontro foi inaugurada com o lançamento, dentre outros, da bela edição de
Poemas e canções,
de Bertolt Brecht, com a presença do tradutor, Geir Campos, iniciando-se aí
forte e duradoura amizade de Geir com a livraria e os livreiros. A livraria contava também
com um pequeno espaço onde se realizavam exposições de arte e se organizavam cursos e
palestras. Para a abertura foi montada uma exposição coletiva, onde participaram
Israel Pedrosa, Galvão, Levy Menezes, Miguel Coelho, Newton Rezende e outros
artistas já consagrados ou em processo de consagração crítica. Alguns deles
fizeram depois exposições individuais na chamada Galeria Encontro.

Em parcerias, a Encontro passou também a exibir filmes de arte nos finais de semana.
Dentre os mais marcantes na história desse espaço está Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos.

A sociedade comercial entre Aníbal e a Encontro durou poucos meses, sendo desfeita
amigavelmente, mas a influência de Victor Alegria, com seu sonho de construir livrarias
como centros de cultura e espaços de sociabilidades intelectuais, influenciou fortemente
as aspirações do novo livreiro. As metas eram contribuir para a transformação cultural
de Niterói e para a luta que se travava contra o regime autoritário.

Com o fim da sociedade, convidamos Renato Silva Berba e Carlos Alberto Jorge, então
colegas no Banco de Cordeiro, para formar uma nova sociedade, mudando o nome da livraria
para Diálogo – Livraria e Editora, Ltda., que ficou conhecida como Livraria Diálogo (a bela logomarca foi um presente de Newton Rezende). O nome, além de expressar uma aliança
entre cristãos e marxistas no enfrentamento da ditadura, fazia parte de um slogan da
Editora Paz e Terra, “uma editora a serviço do encontro e do diálogo”.

Com Renato e Carlos Alberto, para complementar as necessidades básicas de capital, conseguimos
a adesão, como sócios, de Lédio Luiz Maia, médico ortopedista, amigo de Renato, e de Wagner Miranda Cardoso, antigo professor deste e de Aníbal no Colégio Nilo Peçanha.

Em outubro de 1968, a Diálogo comemorou seu primeiro aniversário com uma festa inesquecível
para os que dela participaram. Além do lançamento de sua primeira edição, o livro O estado
e a revolução
, de Lênin, com apresentação do crítico Otto Maria Carpeaux e prefácio do
professor José Nilo Tavares, foi organizado uma noite de autógrafos coletiva. Estiveram
presentes Gastão Neves, J. G. de Araújo Jorge, Carmen da Silva, Leon Eliachar, o
médico Mário Victor de Assis Pacheco, dentre outros.

Foi ainda inaugurada, na nossa Galeria Diálogo, uma exposição do artista Israel Pedrosa,
quando foi apresentada a primeira obra utilizando a técnica da “cor inexistente”,
que viria a consagrar o pintor nacional e internacionalmente. 

O lançamento do livro O Estado e a Revolução, causou enorme repercussão na imprensa local que chegou a acusar a Diálogo de “importar para cá toneladas de subversão”, acusação baseada na nota fiscal da Gráfica O Cruzeiro, que imprimira o livro, “analisada” quando passou na então existente barreira fiscal na estação das barcas de carga que faziam o transporte pesado entre Rio e Niterói, antes da construção da Ponte. O livro, com capa de Marius Lauritzen Bern, e diagramação e supervisão gráfica de Jacques Alvarenga e Ari de Araújo Viana, em formato de bolso, deveria
ser o primeiro de uma coleção intitulada Biblioteca Universitária Diálogo – BUD, nome talvez inspirada na coleção criada e dirigida pelo editor Ênio Silveira, Biblioteca Universal Popular –
BUP, do grupo da Civilização Brasileira, maior casa editorial da época, vítima de fortíssima repressão das autoridades militares. O lançamento do livro deu à Diálogo uma visibilidade
nacional – a edição de 3.000 exemplares não foi suficiente para atender aos pedidos que
chegaram de quase todo o Brasil – mas despertou a ira dos agentes da polícia política
da ditadura militar, cujas forças paramilitares, como o chamado CCC
(Comando de Caça aos Comunistas), mandou pichar com suas ameaças
as paredes e portas da fachada da loja.

Outro encontro memorável na vida literária de Niterói foi a Noite da Sabiá, com a
presença de Rubem Braga, Sérgio Porto e Fernando Sabino. Diante da enorme participação
dos leitores e do calor humano com que foram acolhidos os escritores que haviam fundado
a nova editora,  o cronista Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto), retratou-se
de uma frase infeliz sobre a cidade de Niterói.

Pouco mais de dois meses depois do início da atividade editorial da Diálogo, os militares,
negando a redemocratização que haviam prometido ao dar o golpe, que estava sendo cobrada
por parte considerável da sociedade brasileira, especialmente seu jovens estudantes, outorgou
o chamado Ato Institucional n° 5, para aprofundar a noite da ditadura que
veio a prolongar-se sobre o país por longos anos.

Um fato relevante no processo de contestação à autoridade usurpada pelos militares ao
governo constitucional de João Goulart e à independência dos poderes, foi o assassinato pela
polícia de um estudante, Edson Luís, durante a repressão à chamada “revolta do Calabouço”,
nascida das reivindicações dos estudantes por melhor alimentação e reforma
das instalações do restaurante da universidade (UFRJ).

Esse fato, que iria mobilizar a sociedade do Rio de Janeiro para a chamada “Marcha dos 100 mil contra a ditadura”, foi tema para um poema de Cesar de Araújo, Canto de morte e enterro do menino de Belém, que daria título a seu segundo livro, que novamente contou a colaboração de Miguel Coelho na capa e nas ilustrações, e que foi novamente editado por Victor Alegria, já na sua nova
empresa, Coordenada – Editora de Brasília, em 1968.


Aníbal e Cesar (arquivo pessoal de Aníbal Bragança)

 A Livraria Diálogo foi fechada em dezembro de 1968 pelos agentes da polícia política e seus
sócios, Aníbal e Renato, foram presos nas celas da Delegacia de Ordem Política e Social (DOPS),
que funcionava no antigo prédio da Secretaria de Segurança, na Avenida Amaral Peixoto, no
centro de Niterói. Depois de uma semana de detenção ilegal, foram liberados, e a livraria
reaberta, o que se deveu em grande parte à mobilização de vários amigos e clientes.

Com o golpe iniciou-se um novo ciclo de políticas de exclusão social e concentração de renda que, continuadas nos diferentes governos autoritários e democráticos, levaram o nosso país ao lugar que hoje ocupa no cenário mundial de campeão da desigualdade social, com as terríveis conseqüências para a educação e para a vida social, econômica e cultural que todos conhecemos, sem espaço para as esperanças que então mobilizavam jovens, estudantes secundários e universitários, trabalhadores, artistas e intelectuais, militares e empresários que foram derrotados em seus projetos em favor do Brasil, sendo então expulsos, banidos, presos e mortos  E mais, muitos foram atingidos pelas malhas subjetivas da culpa, da frustração, da angústia, pela inadaptação ao modelo dos vencedores.

Cesar de Araujo participou nos então famosos Festivais de Poesia Falada, organizados por em Niterói por Gastão Neves. Lançou outros livros, como O herdeiro do homem, em 1971, com o apoio do Diretório Acadêmico Evaristo da Veiga (DAEV), da Faculdade de Direito, e do Diretório Central dos Estudantes (DCE), então presididos, respectivamente, por João Baptista Petersen Mendes, de saudosa memória, e Aldírio Gomes de Carvalho. E vários outros.

Não chegou a alcançar o reconhecimento da crítica que certamente mereceria. Foi convidado
para ser diretor da Casa de Euclides da Cunha, em Cantagalo (RJ), e, posteriormente, quando
este escriba era Secretário Municipal de Cultura (1981-1982) foi convidado para dirigir
uma das suas unidades culturais, a Casa Norival de Freitas.

 Cesar buscava a sobrevivência em outras atividades, como venda de obras de arte etc. Creio
não ter tido vocação para o exercício da advocacia. Seu talento era a voz e a escrita.

Sabemos que muito podem fazer e fazem os editores para a consagração de seus editados.

A ausência, em Niterói, de uma editora forte, dificulta ou mesmo impede que valores como
Cesar de Araújo possam passar de escritores a autores e assim se profissionalizem
ou até mesmo entrem no panteão da literatura nacional.

 A Diálogo foi muito debilitada pela repressão política, mas ainda sobrou entusiasmo aos sócios
para abrir filiais, uma delas inaugurada com a primeira apresentação pública da Velha Guarda
da Portela, com seu padrinho, o compositor e cantor Paulino da Viola, em noite inesquecível.
Mas a editora não chegou a vingar.

 A Encontro está na raiz da atual Thesaurus, importante editora de Brasília.

 Cesar deixou-nos este belíssimo livro. Ave, Cesar! Viva, Cesar, para sempre!

 
Niterói, Icaraí, 27/11/2006.


Anibal Bragança é Professor da Universidade Federal Fluminense, no Departamento
de Estudos Culturais e Mídia e no Programa de Pós-graduação em Comunicação.
Pesquisador 2 do CNPq. Autor de Livraria Ideal, do cordel à bibliofilia, 1999.
Coordenador do LIHED – Núcleo de Pesquisa sobre Livro e História Editorial
www.uff.br/lihed .


LIGEIRA AUTOBIOGRAFIA

 
Brasileiro de Vitória, ES, nasci no dia 10 de setembro de 1943.
Batizaram-me César Ferraz de Araújo. Meu pai chamava-se Rubens e Elza, minha mãe.
Tenho seis irmãos. Sou de infância amazônica – telúrica e matosa – transbordante do colorido indígena das danças de bumba-meu-boi, impregnada de manhãs orquestrais de pássaros e dourada
de frutos. Nu, menino dos igarapés manauenses, quantas vezes atravessei-os a nado ou andando
sobre seus leitos esturricados nas vazantes, de onde brotavam tomates que me encantavam!
Também pulei de pontes, entrei em batelões, remei canoas, nadei de casa em casa flutuante.

Trago na retina, ainda, o brotar das águas de cacimbas improvisadas e, no paladar,
o sabor dos guaranás do Norte, dos tacacás em cuias, dos vatapás caseiros, adorava os
tucumãs, a doçura dos sapotis e as mangas verdes com sal. Sentei sobre grandes tartarugas, velhas de duzentos-trezentos anos, persegui camaleões de metro e tanto, atacaram-me abelhas, pesquei peixes e pequenas cobras, colhi ovos em ninhos por quintais de mato. Pelas ruas arborizadas de mangueiras, lambuzei-me, joguei bola-de-gude, peguei morcegos, soltei papagaios. Curti a pele e me fortifiquei nas cambueiras e ao sol equatorianos. Civilizei-me-espiritualizei-me na natureza. Cheguei próximo à saudável grandeza natural dos índios.

Levaram-me os pais, depois, à juventude carioca, capixaba e fluminense de Niterói.
No Rio, sinto a opressão dos apartamentos, mas me encantam o sal das águas do mar e as terras elevadas de morros e montanhas que a infância não conhecera. Em 1954, choca-me o suicídio do presidente Vargas, que eu vira em Manaus, quatro anos antes, visitando o Palácio Rio Negro.

No Espírito Santo – Vitória, Paul, Vila Velha, Campo Grande – amo e sou amado
por meus parentes. Ali, por volta de 1955, leio Meus Oito Anos, de Casemiro de Abreu. e passo
a gostar de poesia. Dois anos mais, escrevo meus primeiros versos, que se perderam.
Convivo com uma família argentina – do cônsul Dom Rodriguez –
da qual assimilo o castelhano, certa cultura e educação.

Em Niterói, estou desde 1960, fui soldado e cabo da Fortaleza de Santa Cruz, 
 formei-me em Contabilidade e Direito e constituí família. Nessa cidade, e a partir dela, 
 enveredei por diversos caminhos de vida e sobrevivência. Fui servidor público municipal
 por duas vezes. Depois, estadual. Fiz comércio de livros, obras de arte, imóveis. Trabalhei
como noticiarista em rádio e comentarista em televisão, colaborei com jornais do Rio e Niterói.
Atuei como ator em algumas peças, honrando-me em Pablo Neruda Solamente Amor no papel, em língua castelhana, do grande poeta chileno. Andarilhei por Estados brasileiros, autografando
livros e levando a poesia em voz alta: São Paulo, Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Goiás, Brasília.
Em 1972, quando participava do I Encontro Nacional de Poetas, em Fortaleza, após interpretar
 meu poema Da Liberdade! – medalha de Ouro no I Tornei Nacional de Poesia Falada, realizado
 pelo Estado do Rio, em 1968 – retiraram-me do Teatro José de Alencar, sob ameaça, e,
 na polícia federal da ditadura militar, obrigaram-me a dizer novamente o poema e a
pagá-lo com algumas horas de detenção inquisitorial. Grato sou aos poetas brasileiros do
 Encontro pela liberação e por minha integridade física e moral. Exponho o acontecimento
 como um galardão de honra sobre os ombros do espírito.

Quanto a ser poeta, creio que o seria, mesmo analfabeto. Destino genético.
Poetas foram meu avô paterno e seu irmão Caio Soter de Araújo que publicou,
em 1916, sob o pseudônimo de João da Escola, um livro notável:
“Ex-tudo”
. Meu pai o fora ultrabissexto.

Sobre minha construção poética, penso que se desenvolve até do convívio com a
arte dos pintores, atores, poetas, bailarinos, compositores, cantores, músicos e outros.
A arte facilitou-me também o acesso à direção cultural de diversos órgãos: Diretório Central
dos Estudantes da UFF, Casa Euclides da Cunha, em Cantagalo, Centro Orcal de Cultura e Arte, Ordem dos Advogados do Brasil e Casa de Cultura Norival de Freitas, de Niterói.

(Do livro “Eu (im)pessoal” – atualizada.)

 



Um poeta
por Antônio Olinto


No meu ofício de ler e analisar textos, há muitos anos deparei com um poeta.
Cesar de Araujo, de quem não ouvi mais falar. Num pequeno volume seu,
chamado “Eu (IM) Pessoal”, dei com versos assim:
“Eu / mito de mim: / desmito-me // Nomeado por mim: demito-me.
// Esfinjo-me-interrogo: enigmação. // Posta a questão: / decifro-me-devoro.”

Outro poema – subordinado a subtítulos como “(Eu) lásticos” e “(Eu) cológicos”,
tem versos de ângulos originais, como estes: “Há dias em que as cadeiras sentam
na gente / as águas se lavam com o nosso rosto /  é a noite iluminando a luz.
/ Quem sabe a verdade / o inverso de tudo?”

Escrevi sobre Cesar de Araujo e não soube se continuara a formar palavras em poesia.
Agora, neste final de 2006 fui a um encontro literário em São Gonçalo, no outro lado da baía,
e lá me encontrei com Eda Lucia Damasio de Araujo, que me entregou um caderno com páginas digitalizadas contendo poemas de Cesar de Araujo que fora seu marido
e deixara uma quantidade de versos inéditos.

O título do volume é “Um sol maior que o sol”. Que estranha geração de poetas viemos
tendo a partir dos anos 20 do século passado – Com Bandeira, Drummond, Jorge Lima,
Murilo Mendes, Cassiano Ricardo, Guilherme de Almeida, João Cabral, Ledo Ivo,
César Leal, Cecília Meireles, Marly de Oliveira, Astrid Cabral, Nauro Machado,
Carlos Nejar, Afonso Romano de Sant’Ana, Gilberto Mendonça Telles
e tantos outros como o de Cesar de Araujo.

 Desse volume inédito que recebi de sua viúva, cito o poema “Fenômeno imperceptível”:
“Quando cessar o movimento / os corpos cairão / em todas as direções.”
Leia-se também este: “O numerado”: “Sei que sou um número. / que número sou, não sei.
/ Sei que sou um elo ao infinito. / Ou  de retorno ao princípio. / Se tudo for redondo, volto.
/ Se tudo plano, vou. // De qualquer modo, sou.”

O que se mostra com força, antes de tudo, na poesia de César de Araujo é a emoção
que ele insufla nos versos. Substantivos e adjetivos normais se comportam,
em seus poemas como tendo a missão precisa de chegar ao leitor e às vezes, comover;
outras, abalar. Bom exemplo disso, é o seu poema de amor, “Na alcova, apaixonadamente”:
- “Não suporto nenhum tipo de ditadura: / só a tua ditadura, amor. /  Ai de mim!
// Se tu queres, tudo dou / e nem sequer pedir eu posso. / Ai de mim!
// Tu me esmagas, sufocas, oprimes, me devoras. //Eu te adoro e me apavoro.
/ Ai de mim! // Vou vivendo-morrendo assim. / De amor por ti e desamor por mim.
/ Ai de mim. // Deixar-te? / Jamais! Perder-te? Ai de mim!
// Tomba o corpo seca a alma tudo morto. // Ai de mim, amor, ai de mim!”

Espero que a poesia inédita de Cesar de Araujo venha a ser editada em futuro próximo.
Ele tem um lugar na poesia brasileira dos últimos anos.


Antonio Olinto

Da Academia Brasileira de Letras
 


SEMPRE

RENOVADAMENTE A MESMA POESIA

Por Alfredo Dolcino Motta

 

Em Um Sol Maior que o Sol, temos um César de Araújo sempre renovado e, por paradoxal que pareça, o mesmo.

Renovado, na medida em que o Poeta se apresenta definitivamente maduro, consciente, na plenitude do domínio do seu ofício de escritor, a explorar, surpreedente e magicamente, as possibilidades criativas da Língua Portuguesa, como, por exemplo, em De tanto ser mim-eu, / virei minheu, do poema Indigestão Ególatra.

Há, assim, uma permanente decantação no trabalho poético de César de Araújo, decantação esta que se vem processando desde os seus primeiros poemas, quando já despontava como um dos principais expoentes da poesia brasileira da segunda metado do século passado, até este seu novo livro, em que seu fazer poético atinge o que, hoje (porque César é capaz de transcender qualquer prognóstico que se faça acerca de sua obra), nos parece o resultado mais bem sucedido de todo um tempo de rica maturação/produção.

Não é – longe disso – por mero acaso que César chega a uma possível culminância em sua poesia, e sim por um permanente esforço de polir a sua poesia, fazendo com que esta contenha pluralidade de significados, que o leitor vai descobrindo, na síntese vocabular e na musicalidade própria de cada um dos seus poemas.

Assim, e parafraseando Antônio Callado, pode-se afirmar que, em César de Araújo, a sua poesia resulta de trinta por cento de inspiração e de setenta por cento de transpiração.

Embora faça com que sua poesia alcance níveis tão elevados, dignos de um verdadeiro artesão/mágico da palavra, e o próprio César que reconhece as dificuldades do seu ofício poético, o que se revela, por exemplo, em Sei que nunca escreverei / o poema que sonhei, de seu poema Dessonhação, versos que nos remetem aos versos iniciais do poema O Lutador, de Carlos Drummond de Andrade: Lutar com palavras / é a luta mais vã / entanto lutamos / mal rompe a manhã.

Fugindo aos modismos, passageiros como costumam ser, e às fórmulas fáceis de uma poesia mais imediatamente digerível, César se utiliza do seu instrumental – que, em suas mãos, se transforma em inventivo brinquedo, a Língua Portuguesa –, para fazer que com o leitor, ao mesmo tempo em que vai enveredando pelas construções a que César imprime vida e criatividade, pense, reflita, faça, enfim, de sua leitura, um meio de ampliar as suas possibilidades de compreender e transformar a realidade.

Mas se este é o César sempre todo renovado, é ele também o mesmo. O mesmo em sua identificação com a condição humana, cujos sonhos, sentimentos, tropeços e perplexidades César sabe exprimir como poucos em nossa literatura.

Este conhecimento da natureza humana, resultante de sua própria vivência e de sua integral solidariedade às pessoas – sobretudo àquelas marginalizadas, carentes, humilhadas, desassistidas –, faz de César Araújo um autêntico intérprete da luta por dignas condições de vida, no que se inclui o acesso e a fruição dos bens a que todos deveriam fazer jus.

Exemplo, ele mesmo, dos que, à custa do seu próprio sacrifício, sempre se opuseram a quaisquer regimes de força e de opressão, César continua – o que tem sido uma constante em sua obra – a defender uma atitude de resistência e combatividade frente a toda sorte de arbítrio como a todo sentimento de fatalidade, decepção e desencantamento, como temos, por exemplo, em Não vale a pena apequenar-se, do poema Arrependimento.

A essa mesma defesa de resistência vem reunir-se, em toda a trajetória poética de César de Araújo, a sua indignação, a sua intransigência com os que se consideram os “melhores”, os “imunes” a qualquer erro, o que temos, por exemplo, em Longe de mim/ os que falham nunca! / Enchem-me de vergonha! os versos do seu poema “Vade Retro.

Por sua vez, embora nos defrontemos com o pessimismo que se pode extrair dos versos Estou envergonhado dos meus olhos./ Vi tudo errado / Agora, cego, nada, no seu poema Nem Miragem, o certo é que o Poeta jamais se entregará ao desalento, ao desânimo, à rendição em sua luta em favor de uma realidade em que todos possam participar do dadivoso banquete da vida, o que nos é confirmado pelo verso De qualquer modo, sou, do seu poema O Numerado”

.

O poeta é porque ele vive, porque ele vive e canta, e o seu canto é a certeza da construção de um novo tempo, tempo de solidariedade e de fruição, por todos, de todos os bens da vida, tempo para cuja construção estamos todos convocados. O Poeta canta, porque, como canta Mercedes Sosa, se se cala o cantor, cala-se a própria vida.

E é o próprio César de Araújo quem nos dá a certeza de que este novo tempo virá, quando nos diz Um sol maior que o sol / pousou na escuridão do seu poema Operação.

Sempre renovadamente o mesmo: este é César de Araújo, o Poeta que integra o particular no universal; que faz com que a dor – e não somente a dor, como também a esperança – de um cada um sejam a expressão da dor e da esperança de todos.

Enfim, é possível que não nos transformemos, para melhor, depois de ler – uma e muitas vezes – este trabalho que tanto honra a Poesia Brasileira – Um Sol Maior que o Sol”.
 

Por Alfredo Dolcino Motta
Procurador federal e professor
 
 


 
OBRAS DO AUTOR

 Poesia

Através da Consciência – Edição do autor (mimeografada) – Rio de Janeiro, GB – 1963.

Das Faces – Ed. Encontro – Rio de Janeiro, GB – 1967.

Canto de Morte e Enterro do Menino de Belém – Coordenada Editora de Brasília – DF – 1968.

Antologia Poética do Grupo Salinas – Ed. Reportagem – Niterói, RJ – 1969.

O Jardineiro e a Pedra – Ed. Livros de Portugal – Rio de Janeiro, RJ – 1970.

O Herdeiro do Homem – Ed. A Casa da Filosofia & Diretório Central dos Estudantes, UFF – Niterói, RJ – 1971.

Pequena Antologia Poética – Centro Orcal de Cultura e Arte – Niterói, RJ – 1973.

Eu (Im)Pessoal – Edição do autor – Cancela: Gutemberg Card – Niterói, RJ, 1990.

Fala, Poesia Brasileira & Colheita – Obra biintitulada, gravada em fitas cassete: primeira antologia nacional do autor – Chancela: Secretaria de Cultura de Niterói, Fundação Niteroiense de Arte e Gutenberg Card – Niterói, RJ – 1991/1993.

 Conto

O Rei do Silêncio – 1ª edição do autor – 1977 / 2ª edição, Natural Artes Gráficas – Niterói, RJ – 1984.

Participação poética nos livros

I Curso de Teoria e Prática Penitenciária – Caev, Faculdade de Direito, UFF – Niterói, RJ – 1965.

I Torneio Nacional da Poesia Falada – DDC, Secretaria de Educação e Cultura do Estado do Rio de Janeiro – 1968.

II Torneio Nacional de Poesia Falada – DDC, Secretaria de Educação e Cultura do Estado do Rio de Janeiro – 1969.

Una Panorâmica de la Nueva Poesia Brasileña – Revista de Cultura Brasileña, 39 – Embajada del Brasil – Madrid, Espana – 1975.

8º Festival de Poesia Falada de Varginha – Fundação Brasileira de Bolsa de Estudos – Belo Horizonte, MG – 1977.

Livros organizados pelo autor

Abertura Poética – Primeira antologia de Novos Poetas do Novo Rio de Janeiro (com Walmir Ayala) C.S. Editora – Niterói, RJ – 1975.....

Primeira Antologia Poética dos Advogados do Estado do Rio de Janeiro -  Celu Editora – Chancela: OAB/Niterói, RJ – 1988.

César Araújo é verbete na Enciclopédia de Literatura Brasileira, de Afrânio Coutinho.

Movimentos organizados pelo autor

I Exposição Coletiva de Poesia Ilustrada (cartazes arsenais) – Niterói, RJ – 1964.

Poesia-Cartaz – coletiva de poetas e pintores – (cartazes impressos) – Niterói, RJ – 1969.

Photopoemas – com o fotógrafo Marcelo Ribeiro – (quadros).
 


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