Bruno
        Cattoni

 
 

-se existe alguém em mim                                        não é emenda
 



 



Alego que me alegro

 

Infiltrado de sangue tupi

Encarnado pela alma bânto

Bafejado pela brisa insular

Ego ibérico que me segue...

Se há de elidirem

Canto para que se despeguem.

Lenda vária, nenhum gen me estraga

Sou eu sem venda

Se existe alguém em mim

Não é emenda.

 




 



SEM POESIA, NEM PORRADA


Simplesmente os recados foram dados
Que não temos nada a ver com isso
Que percorremos quase todos os ninhos
Sem nos acharmos nascidos
Que molestamos quase todo mundo
Sem obtermos calor, ou menos perigo
Que somos pó em plena vida
Sem a ele termos sido reduzidos
Simplesmente pó, sem poesia, nem porrada

 
 




 


 
 POEMA SOBRE O VAZIO


 

             Escrevi um milhão de poemas no tempo-espaço de uma vida
             Sobram seis versos.

Afiei um milhão de facas nas pedras que se me interpuseram

Sobra a estrada.

Matei milhares de animais para matar minha fome

Sobra um ser de nada.

Soletrei tantos alfabetos que nem mais me comunico

Sobra a palavra amor.

Expulso do tempo, ando com um estrépito de asas no crânio

Não sei qual delas é o par da alma, nem quando

Erguer-se-á, pela janela dos olhos, no vento que não enxergo.

 


 


 

 


UNHAS SUJAS

 

Tempo esgarça, tempo não passou

Que ele é farsa, transposta a massa

E o peso dos anos, depois da evolução.

O vento da praça tem poeira

Já não encontro palavra na nevasca

Vislumbro um deus que dança sem tempo

Nenhuma mudança me basta.

Não há o que mudar, para onde

Quando o tempo é novo e a ré me embaça

Pratos cravados na areia

Comeremos o esquecimento.

Ventre digere o que caçávamos

Que vivente abatemos?

Como posso lembrar de mim com fome

Se tempo algum se insere no que fui.

Nuvem, bruma, uma espuma na fumaça

Mãos levitam numa procura escassa

Têm as unhas sujas de cavar o tempo

O que ficou foi como jaça

Rachaduras na memória que se espaça

Tempo evanesce, inda que tempo nasça.

 




 


O AMOR "POSSO" DE CADA DIA

 

O amor "posso" de cada dia,

é aquele que é o que posso,

no meu caminho imprevisto...

Se amor de rei ou de poeta

só há uma forma de saber:

é ao viver, se viver, vivendo ao praticá-lo,

transbordante ao aceitá-lo,

do jeito que vier...

 

Se calcular o amor, medindo,

talvez não haverá machucados

nem a dor humana que reabilita,

mas o perfeito, o de encontro

talvez vá de encontro ao isto

que o aprender do ser humano

faz da vida, aqui, tal redenção.

 

Um amor construído talvez valha

pelo que tem de incerto e cego

pelo que erra e se refaz impuro

e ao sabê-lo nosso, e exclusivo,

montas o presépio da história

esse bem   intransferível e raro...

 

De pecados vivemos e viveremos

de ciúme, posse, inveja, mentira,

traição, abandono, ou ofensas:

quem terá direito ao perdão?

O amor vem para curar de tudo

o homem que é feito de procura.

 


 

 

 


CANTINHO PARA A CRINA AZUL

 

Te espero sem religiões

Espero ao largo do pecado, alforriado dos erros

Espero cego para o sentido de tudo

Nunca vou acertar o alvo que me obrigam

Minhas setas disparam pelo tempo

E o ar ignora todas.

Os solitários luminares pensam

As cabeças pousada sobre blocos de mentira

As hostes populares flutuam

Entre o altar, a sarjeta e a lira

Meu olhargameta de uma flor,

Mergulha com matizes anímicos

Emerge depois, trágico e em preto-e-branco.

Te espero sem dito e vontade

Trajado de um destino todo rasgado

Enquanto homens razoáveis disputam com os loucos

Um páreo de formigas contra estrelas.

Lá embaixo numa feira de tolos

Uma égua de crina azul espana o vento

E os touros esbarram em vitrais inquebráveis

Há dois olhos turvos em suas guampas

E silêncio de gente nas ventas.

O saber da desordem instala-se na via

O sangue da horda espirra nos mármores

E a vida segue pois é a vida em delirium tremens

Fatal, pura, branca e impensada

No dorso de um corcel encharcado de sêmen pluvial.

 
 







O Destino do Chão


Olhando a chuva interminável

Concluo que o segredo extremo da vida

É esperar com firmeza o sol

Achando música nas gotas

E imaginando todos os pobres aconchegados.

 

Lembro da Marcha para o Mar, de Gandhi

E traço um movimento similar

Em direção à fonte do amor. Todo o povo

Indo em busca da doçura, em vez do sal.

 

A chuva desaba indiferente ao que atinge

Nas estradas do peito rolam carros-de-boi

As curvas e as retas vão chegando às retinas...

Como se minha alma fosse o destino do chão.

 



QUANDO E COMO


Minha alma sabe tudo sobre você
Não porque sabe, ou quer saber,
Mas pelo que não sabe, não saber
Não quer dizer que não sabemos
Só não precisamos nos esforçar
Ou correr o risco de ter juízo
Somos testemunhas do imprevisto
O amor substitui a curiosidade
Como cavalo que volta pra casa...
Quando põe de vez a meta na alma.

 

 


 


 



ESTADO DE GRAÇA


Estou parado de amor, e já não há fibra para cantar
Não há nada além de amor para sustentar o poema:
Guerras para acender-nos o candeeiro lento da paz
Desigualdades que criem-nos a força da esperança
Segredos a serem confessados em prol da verdade.
Agora há este escândalo a abrigar-se em si mesmo
E um amontoado de textos sem alça e superpostos.
A palavra não gera riquezas, a fala aquilo que cala
Porque estou amando, e não há saída para a paixão.

 




 



O SÉTIMO DIA

 

Uma rua nasce em

um neurônio desencapado

Onde se lê

um desenho tatuado

Como se fosse

um negativo de

um espelho

Onde está refletida

uma vírgula.

 

Uma esquina dobra como

um jota e no alto

uma calota digere

um ângulo

Onde está guardado

um olhar distante de

uma estrela decomposta

Que interfere em

um pensamento hospitaleiro.

 

Uma casa hospeda

uma senhora que fomos

Como a mater de

umas paixões atordoadas

Que saíram de

um sonho de papel

Onde se vê um riquixá com

uma figura desdobrada em

um sem-número de lados de

uma esfera.

 

Um homem bate

um martelo para pregar

uma tábua sobre

uma porta para que

um marinheiro qualquer

Que passar

um dia ao largo da barra

Onde houver

um mar de ondas se engolindo

Ler ali que não há mar mas

uma rua esperando por

um piscar de olhos entre

uma imagem e outra.

 

Uma libido é

um osso delicado de

um passarinho

Que está cantando em

um sonho enquanto

uma folha cai e

um pai desinfla dentro de

um coração superlotado

Onde já não vale

um pecado depois que

um dedo sangrou cosendo

um a outro os retalhos

Limpando os cacos de

uma redoma feita de

uma lágrima.

 

No sétimo dia

um andar acima do prazer

Onde mora

uma pomba

E de onde se vê

um teto que é o chão de

um andar ainda ou

um sótão onde flutua

um guizo dentro do qual balança

um gozo...

 




 


Santa Poesia


santa poesia escorraçada dia a dia
com versos arrestados
por dever mais do que vale
santa poesia de cor e saltimbanca
pronto sacrifício, morte em vão
santa poesia culpada
por não calar com fome
santa poesia, testemunha acidental dos medos
não conta nada, não cede, mas revela
não deixa de acordar ninguém
santa poesia franqueada
a todos e para alguém mais
(mentira!)
santa poesia coroada pelo caminhar
ungida pela briga recorrente
da borboleta com a crisálida
santa poesia encouraçada em seu vôo
pelo seu ar a terra escoa
e o espaço fende e a água à toa
reacende o fogo que tudo já queimara
santa poesia canonizada porque suou dos poros
e já não há emprego para o impuro
eu te seguro, nada nos aquilata, venha escrever
tira a manta, me absorve,
te escovo e te regenero
para reinventarmos o ser amanhecendo
te pelo, segurando o músculo
e enrijeço-te adornando-te os lados
começam os contatos, lestos,
te recupero sem sede, vítima aberta,
ímpetos, vômitos
frêmitos, tânatos,
santa poesia goma no sangue
te vou e me chegas
sono poesia
recita menino, agita o maduro, ressuscita o poente
habita pra sempre
onde estão os pais, as mães, minha gente?
vejo cego - onde me cegas, Poesia,
é onde me alegro
santa poesia a ti nos entrego, eu punhado
à margem do sentido, já sem tato, na cova rasa do ego
não me venhas com espanto
que eu sonego o seu canto
pois não me dás solução
eu te nego!
 




Bruno Cattoni nasceu em 1957, no Rio de Janeiro, no bairro do Humaitá. 
Poeta, jornalista e editor de textos da central Globo de Jornalismo, 
tem a seguinte obra publicada: Figuras, Civilização Brasileira - 1983;
Conspirações e Inconfidências de um Caçador de Meninas Gerais
, Masso Ono,
São Paulo, 1992; AH!, CC&P, RJ, 1998. Kalusha, 7 letras, Rio de Janeiro, 2002;
OSSO, na cabeceira das avalanches
, 7 letras, 2005.
 


Curadoria: Andrea Paola Costa Prado


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