Astrid Cabral

... hoje, modesta e sábia             basta-lhe a graça da trégua,              essa fruta rara. 



O grande drama


O grande drama sempre foi

não ter à mão a prova real

(nem sequer a dos nove)

e assim extraviarmo-nos

no rodamoinho das hipóteses

sobre a maneira do mundo

caso os dados de outro jeito

houvessem tombado no chão

dos múltiplos tabuleiros.

Não saber como seria a vida

se diferentemente tivéssemos

gerido as árduas contingências

que nos espreitaram a sina

ou outramente trançado

as tramas em que nos enredamos.

Não saber dos destinos cor-

tados ao cumprir a rota

deste ou daquele caminho

ou dos amores que abortamos

ofuscados pela faiscante

luz de algum mais próximo.

O grande drama sempre foi

essa miopia metafísica

de jamais roçar o avesso

e a instante nenhum saber

de que aquilo que nos cerca

é fim ou quem sabe começo

e desconhecer se o que temos

por acerto não passa de erro.

As batalhas que  ganhamos

por ventura não são derrota

à lúcida luz das estrelas?

Acaso o que chamamos de sorte

não é o selo de nossa morte

ou o que chamamos de morte

não é mesmo a grande sorte?
 



Navio-esquife


Correm as águas do rio

corre veloz o navio.

Entre as faces do vento

entre as faces do tempo

corremos nós.

 

Ao abraço de que foz

viajam as águas

viajamos nós?

 

Árvores nas margens

céleres passam

sob remanso de céu

onde se apaga o sol.

 

Eis que longe o porto

acende seu colar de luzes:

grinalda para os mortos

que no navio-esquife

ante-somos todos.
 




Sem maquilagem


Todos julgavam conhecê-la

há vinte anos na companhia

de marido, filhos, criadas

sem falar nos velhos cães

sentinelas de seus portões.

Até que partiu no rastro

de um sargento pé-rapado

e sem maquilagem apresentou

à cidade boquiaberta

o cavalo bravo de seu desejo

e o pássaro de sua fantasia.
 



Vitória ambígua

Tempos houve quando

sonhava com o pomo da paz

nos jardins do paraíso.

Hoje, modesta e sábia

basta-lhe a graça da trégua,

essa fruta rara.

E enquanto adestra a testa

pras marradas e afia as armas

goza a alegria de estar viva

e o sabor se bem que amargo

dessa vitória ambígua.
 



Rês desgarrada

Pois em Chicago, amigos,

sou rês desgarrada.

Agarra-me sim, danada

a nostalgia da ex-boiada.

 

Carga pesada esta saudade

dos pastos brasis

onde os buritis sambam

à carícia da brisa.

 

Perde-se meu ser rural

tão tropical nesta urbe

labirinto de pedra e vidro

sob o cilício do frio.

 

Oceanos de chão e tempo

cercam-me gélidos,cegos.

Neles,sem sossego navego

e nau sem rumo, quase afundo.

 

--Vaca na balsa, rês desgarrada –
 


... o grande drama sempre foi          essa miopia metafísica           de jamais roçar o avesso         e a instante nenhum saber          de que aquilo que nos cerca          é o fim ou quem sabe começo ...



Voz no exílio

Saudade de paisagem

com palmeira vasculhando o céu

vento rasgando bananeira

papagaios de papel

no anil entornado da tarde.

 

Meu país,

o lirismo não me deixe cega,

Oh terra que me faz feliz/infeliz

tão farta que estou

de tantos falsos aristocratas

e mendigos tão reais.

 

Meu país,

a saudade não me deixe mentir,

Oh terra onde vivo dividida

entre paixões e compaixões.

Oh terrível gangorra

de orgulho e vergonha !
 




Incêndio


Um belo dia te acena o outono

com folhas de adeus e fogo.

 

Um belo dia o outono em teu ombro

pousa chuvas de breve ouro.

 

Então o tempo te prende em sua teia

e o coração poente te incendeia.
 



Dragão domado


Tive em menina um dragão chinês

que se hospedava no vão das moitas

habitando a noite do meu jardim.

Das madrugadas às tardes viajava

pela antípoda penumbra de outro país

e ao regressar cansado espojava-se

sonolento na grama grávida de grilos

as patas enxotando os pirilampos

que fosforesciam estrelas verdes

por entre tranças de samambaias.

Drogava-se com o ópio das papoulas

e guloso engolia finas lagartixas

mariposas tontas carapanãs vadios.

Bebia choro de chuva e suor de sereno.

Urinava poças que viravam espelho.

De orgulho ou por descuido pisava

as unhas rosa esmalte dos junquilhos

e o coração de ouro das margaridas.

Humilhava sapos camaleões lagartos

insinuando que jamais cresceriam

até seu porte de ambulante montanha.

De sua tosse brotavam chispas e chamas

e fogueiras breves rubras se acendiam

iluminando o território do meu sonho.

Assim foi até que me pus a conquistá-lo

(tarefa em que se foram anos e enganos)

fiz-lhe então cócegas cafunés carinhos

sentei-o em meu balanço, dei de comer

do meu prato, dividi meu travesseiro

cobertor e quarto. Contei-lhe meu segredo.

Ele se fez todo doçura e manso obediente

se foi minguando enquanto eu crescia.

Até que se sumiu um belo dia.
 



Adeus


De manhãzinha qualquer

latido me apunhalava.

Era nosso brinquedo favorito

e foi enterrado no jardim

com o ritual de praxe:

Velas e rezas, choro e flor.

Só não teve missa que

nesse tempo era em latim.

Quando o capim cresceu

regado pelas chuvas

passávamos as mãos nele

dizendo: o pêlo mudou de cor.
 



                 
 



           
PORTAL DO DIA


           Trapos da noite nas pálpebras

levo à mesa do café

a ressaca da insônia

e apática me defronto

com a ágil apressada manhã

de xícaras tilintantes.

Que fazem aqui as laranjas

emigradas das árvores?

Bem estariam nos galhos

escuros da madrugada

em vez do agressivo prato

de onde me encaram furtivas.

O cheiro do café chega

saudando-me sem palavras.

Que dia pois será esse

chamando-me implacável

a cumprir seu torvelinho

quando a noite ainda me cobra

altos tributos de sombra?

Azul, no bule de louça

o pássaro imóvel e mudo

revela-me a ironia

do ser exilado do real

enquanto ébria da véspera

vacilo ao portal do dia.
 



GLOSANDO MINHA AVÓ


“Não, não me caem os dedos da mão”

se esfrego nódoas no algodão

se prego botões ou remendo rasgões

se me calejo com rodos e vassouras

ou esquartejo réstias de cebolas.

Não, não me caem os dedos da mão

se limpo cuspe, gosma de feridas

rastros de urina, catarro nas pias

lodo nos ralos, restos de festas

e fezes, o lixo no saldo dos dias.

Não, não me caem os dedos da mão

se eles mergulham o núcleo da lama

e o mar redentor de cloro e sabão.

Dedos não são monopólio de cordas

de violão e viola, nem tão pouco

das teclas de pianos e máquinas.

Dedos não pertencem somente

a riscos e rabiscos de canetas

a bailados de amor e ternura

a bofetões de incontida fúria.

Dedos não se destinam apenas

ao requinte de merendas e rendas

à contradança de talheres

à cintilação de alianças e anéis.

Dedos foram feitos para o exercício

do magnífico e do mínimo.

No universo cabendo qualquer gesto

não nos caem os dedos da mão.
 



Vilanela


Nunca mais o clarão do teu sorriso,

que é do meu mundo sol particular,

há de raiar sobre este chão que piso.

 

Agora sei, perdi meu paraíso

horas completas não irão voltar.

Nunca mais o clarão do teu sorriso

 

há de secar a chuva ou o granizo.

Somente a estrela negra do pesar

há de raiar sobre este chão que piso.

 

O que tive ou em sonho valorizo

perdi quando perdi o teu olhar.

Nunca mais o clarão do teu sorriso

 

quebrará o silêncio com seu guizo

de juventude transbordando no ar.

Há de raiar sobre este chão que piso

 

só a esperança na hora do Juízo

quando Deus te fizer ressuscitar.

Nunca mais o clarão do teu sorriso

há de raiar sobre este chão que piso.
 



Astrid Cabral

É amazonense, radicada no Rio de Janeiro,
poeta, ficcionista, tradutora e cronista.
Detentora de mais de dez prêmios na área de literatura,
participa de mais de quarenta antologias no Brasil e exterior.
Exerceu o magistério universitário e foi funcionária do
Serviço Exterior Brasileiro. É autora dos seguintes livros:
Alameda (Ed. GRD, RJ, 1963); Ponto de Cruz (Ed. Cátedra, RJ, 1979);
Torna-viagem (Ed. Pirata, Recife, 1981); Zé Pirulito (Ed.Agir, RJ, 1982);
Lição de Alice (Ed. Philobiblion, RJ, 1986); Visgo da terra (Ed. Puxirum, Manaus, 1986);
Rês desgarrada (Ed. Thesaurus, Brasília, 1994); De déu em déu - poesia reunida
(Sette Letras, Rj, 1988); Intramuros (Sec. de Estado da Cultura do Paraná, 1988);
Rasos d'água (Ed. Valer/Governo do Amazonas, Manaus, 2003) e
Jaula (Editora da Palavra, RJ, 2006).
 


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