Segredos num copo
(conto)

Por Luiz Fernando Prôa


Ela vem caminhando diretamente para mesa. Andar felino, olhar melífluo,
sorriso satisfeito. E eu, ainda sob impacto, não consigo desviar meu olhar.
Aqueles olhos verdes a centímetros dos meus, remexeram toda minha energia.
Um esbarrão casual, na entrada do restaurante do aeroporto, e eu tão perto dela.
Foram segundos eternos até o pedido de desculpas. E agora ela vem em direção
a nossa mesa. Seus olhos me fuzilam. Os meus, entregues, pedem o tiro.

Eu estava ali com um casal de amigos numa singela despedida. Como havia sido aprovado
num concurso público, com área de atuação em Brasília, era para lá que ia. Somente
meus amigos Ângela e Breno vieram testemunhar minha partida rumo à máquina
burocrática do Estado.  E ela, com sua pele alva e cabelos negros, nos aborda.

– Ângela, lembra-se de mim? Estudamos juntas!

- Sarah! Não acredito! Sente-se aqui! Que saudade!

- Para você ver, todo mundo reclamando do atraso dos vôos e se não fosse ele
não teríamos nos encontrado. Já estou nesta espera há mais de uma hora.

- Que sorte! Se não fosse também o atraso do nosso avião teríamos desencontrado.
Doze horas de espera apenas.

- Nossa! Mas diga, o Breno já conheço, e esse moço aqui que não tira os olhos de mim.
Quem é?

- Meu nome é Felipe. – Respondi no susto, meio gaguejando.

- Muito prazer Felipe! Se vocês não se incomodam, vou pedir um vinho,
estou com a boca seca.

- Se não houver problema em misturar, você pode dar um gole no meu chope,
está bem gelado. – Ofereci, interessado.

- Se eu beber no seu copo, Felipe, conhecerei todos os seus segredos.

- Duvido! – Disse sorrindo, encarando-a desafiadoramente.

Sarah não respondeu, mas um brilho intenso e rápido saiu de seus olhos
quando bebeu o primeiro gole. Se ela soubesse como andavam meus pensamentos
iria rir da minha cara. Passar no concurso tinha sido a pior das minhas vitórias.
Ia ter estabilidade financeira, mas sentia-me como se fosse ser arquivado
em uma sala distante, de um daqueles enormes e pesados ministérios,
junto com meu sonho de viver de fotografia.

- Ângela, vou deixar meu cartão para não mais nos perdermos. Vou tomar só essa
taça de vinho e ir até o balcão da companhia aérea. Estou com duas passagens para
a Bahia e vou ter que cancelar uma. Tive um contratempo nessa viagem. Tenho
uma revista de eco-turismo, estou indo fazer uma reportagem numa reserva
ecológica e o fotógrafo que iria comigo não vai mais. Acabou de me ligar e dizer
que se formou em pastor evangélico e não quer mais saber das coisas mundanas.
Vou ter que me virar para arrumar um fotógrafo na Bahia.

- Não esquenta não querida, use seus super-poderes que tudo vai dar certo.

- Já os estou usando. Bem, vou indo. Foi um prazer revê-la. Daqui a um mês estou de
volta, aí nos vemos com mais calma. E você Felipe, acho que ainda nos veremos muito.

Foi um prazer conhecê-lo. Até a volta.

Quando ela se levantou quebrou o encanto em que me encontrava. Seu cheiro,
sua presença ao meu lado, me deixaram tonto.

- Sarah! Espere um pouco.

Não resisti. Pousando o olhar na taça em que ela bebera seu vinho, ainda pela metade,
peguei-a e sorvi de um só gole. Meus olhos faiscaram nos dela. E vi a aura intensa
daquela mulher exuberante, que sorria para mim, esperando. Tudo já havia sido dito.

- Sarah, sobre o emprego de fotografo, serve currículo verbal.

- É claro que serve.

E saímos reluzentes, mãos dadas, rumo ao nosso vôo.

 


home    galeria de arte    poetas em destaque    poetas 3x4    poetas imortais    artigos    cinema    concursos

páginas pessoais     agenda poética     poetas no You Tube      fala poesia     oficina virtual      histórico

Clique e entre



Poesia contemporânea, arte e algo mais...

www.almadepoeta.com

Alma de Poeta
©Copyright 2000/2008 - by Luiz Fernando Prôa