Os sapatos de Darlim

(conto)



Por Augusto Sérgio Bastos



 

 

Às 9h15, Dalmir chegou a Curitiba. Passou no hotel, depois de um banho
rápido e antes da hora marcada já estava com o cliente.


A reunião terminou às 12h30. Negócio fechado. A Eletrofundidos, uma
pequena fundição de peças para terceiros, dirigida por Dalmir, em São Paulo,
recebera pedidos importantes: só para a máquina 3 — o coração da fábrica
— conseguira dois meses de trabalho. Era o fim da crise.


O almoço oferecido aos compradores prolongou-se por algumas horas.
Feliz, coração e bolsos abertos, pagou a conta. Após as despedidas e
agradecimentos, sobrava um finalzinho de tarde para dar uma caminhada
e ver se encontrava o presente — diferente, original — para seu sobrinho,
conforme a promessa: negócio fechado, presente comprado.

     
Seguiu pela Rua do Rosário olhando as vitrines, o céu azul sem nuvem,
as pessoas a passos moderados, sem a pressa paulistana. Poucos minutos depois,
sem motivo especial, a não ser a sensação de estar próximo ao presente procurado,
virou à esquerda entrando na rua José Loureiro.


Lembrou-se da brincadeira de menino lá em Goiás: tá quente, tá frio.

De repente parou, atraído por uma lojinha onde um homem trabalhava uma
peça de couro. A habilidade no manejo da agulha com a linha grossa o encantou.
Ficou olhando os movimentos circulares que se repetiam a cada ponto, seguindo-se
um forte puxão pelo afastamento das mãos que firmes seguravam as pontas
da linha. Tudo sincronizado; um balé de mãos. Não era um sapateiro comum,
era um artista fabricando sapatos sob encomenda. — Eis o presente!


Ao seu elogio e ao agradecimento com sotaque alemão, seguiu-se um bate-papo
sobre a rigidez e objetividade dos colonos alemães no sul do Brasil e a predominância
da emoção e alegria italiana entre os paulistas. O preço alto, dado sem rodeios, e o compromisso de nos próximos dias trazer as medidas selaram a conversa.

Do hotel, Dalmir ligou para a irmã em São Paulo. Deu notícias rápidas da
Eletrofundidos, onde a irmã tinha uma pequena participação, e prolongou-se
a elogiar a técnica do artesão, satisfeito consigo mesmo por ter feito a descoberta.
Por fim, pediu a medida do pé de Darlim, único sobrinho e afilhado, que
completaria 11 anos na próxima semana. Queria dar-lhe os sapatos de presente.

Combinado o envio do contorno dos pés riscado no papel, despediu-se
lembrando a urgência. O sapateiro precisava de dois dias para a confecção
e ele só estaria por lá mais uma semana.


Nesta mesma noite a irmã tirou as medidas, fazendo um croqui, conforme
combinado. Aumentou um pouco, pois pensou: meu irmão é meio desligado das coisas,
vai acabar fazendo um sapato apertado e eu ainda vou ser culpada.    


Três dias depois a carta chegou ao hotel. Antes de levar para o sapateiro,
Dalmir pensou, pensou, e deixando escapar um sorriso, resolveu fazer um
novo risco aumentando mais um pouco: minha irmã é meio desligada
— um sapato tão caro! —, se ficar apertado a culpa vai ser minha.


Croqui entregue, prazo confirmado, adiantamento de 50% — exigência só agora
estabelecida —, novos elogios, agradecimento, despedida. Será realmente
um presente original, sob medida. Um grande presente!

A sós, o sapateiro não pensou duas vezes: esses paulistas são muito desligados.
Tenho um nome a zelar, vai que fica pequeno... E aumentou um pouco mais.

           

E nesse aumenta daqui, aumenta dali,
Darlim já era homem feito, alistado no Exército, quando,
ao completar 18 anos, calçou pela primeira vez os sapatos novos.

     


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