
Anibal Beça
Constatação
Chega um tempo em que as nuvens não te reconhecem.
Não digas nada.
Longe não deslindas um som que te freqüentava.
Não aguces os ouvidos.
Na gruta passam por ti como se te não vissem.
Não esfregues os olhos.
Caminhas pela campina e teu pés nada sentem.
Não troques de passo.
A palavra não é mais dita, apenas lida por outrem.
Não fales nada.
No universo transverso desse tempo
Na contramão de versos claudicantes
Ainda restam as mãos para o incêndio das horas.

Autografando Banda de Asa
Nó
Há sempre um nó encordoado
à espera de que alguém o dedilhe.
Para cada marinheiro um acorde
retesado pelos ventos da distância.
Há um sol encurvado nas águas
afogando horizontes longínquos.
O viajante sabe quando o cais
sola a melodia do impulso.
A rota não é de fuga, mas de fogo,
aventura de busca sem bússolas.
Nesta noite em que navego lençóis
recostado a um tombadilho de plumas
Falta-me um par de remos, mastro e velas soltas.
Embora a voz remota insista por meu nome.

Nossa língua
Para o poeta Antoniel Campos*
O doce som de mel que sai da boca
na língua da saudade e do crepúsculo
vem adoçando o mar de conchas ocas
em mansa voz domando tons maiúsculos.
É bela fiandeira em sua roca
tecendo a fala forte com seu músculo
na hora que é preciso sai da toca
como fera que sabe o tomo e o opúsculo.
Dizer e mal dizer do mel ao fel
é fado de cantigas tão antigas
desde Camões, Bandeira a Antoniel,
este jovem poeta que se abriga
na língua portuguesa em verso e fala
nau de calado ao mar que não se cala.
*Autor dos belos versos:
“Filiu brasilis, mater portucale,
Que em outra língua a minha língua cale.”

Profissão de fé
Meu verso quero enxuto mas sonoro
levando na cantiga essa alegria
colhida no compasso que decoro
com pés de vento soltos na harmonia.
Na dança das palavras me enamoro
prossigo passional na melodia
amante da metáfora em meus poros
já vou vagando em vasta arritmia.
No vôo aliterado sigo rumo
dos mares mais remotos navegados
e em faias de catraias me consumo.
É meu rito subscrito e bem firmado
sem o temor do velho e seu resumo
num eterno retorno renovado.

Anibal
Beça com a amiga e escritora Astrid Cabral e Raul (seu filho), na Ac.Amazonense
de Letras - 2006
Para que serve a poesia?
De servir-se utensílio dia a dia
utilidade prática aplicada,
o nada sobre o nada anula o nada
por desvendar mistério na magia.
O sonho em fantasia iluminada
aqui se oferta em módica quantia
por camelôs de palavras aladas
marreteiros de mansa mercancia.
De pagamento, apenas um sorriso
de nuvens, uma fatia de grama
de orvalho, e o fugaz fulgor de astro arisco.
Serena sentença em sina servida,
seu valor se aquilata e se esparrama
na livre chama acesa de quem ama.

Poema cíclico
A trave dos meus olhos
é pólen de crisântemos:
farpas cronológicas.
Metro a metro a seta ideográfica
abre aspas ao vento:
mandala vertical.
Quem me confere
estas asas nubladas
de arcanjo do limbo?
Ah tempo adiposo
a marca do teu risco
esferográfico
abre mais uma estrada
(sem acostamentos)
paralela às estrias do sono.
Eis que a pálpebra de palha
se apresenta:
dos meus olhos saltam
pássaros ariscos
prontos a deflorar begônias
em setembro
e 38 ponteiros
(rubis ciclotímicos do silêncio)
acupunturam poros fóbicos:
Calendas
a fala do espelho
(espectador anônimo)
mostra-me por inteiro:
vital conselho
entre o sudário que
me hospeda
e a angústia que
me habita.
A miração flutua narcisicamente
o rastro da sílaba
e
o grão onomástico sussurra:
Aníbal.
Quão particular este silêncio
(viés oculto)
que me sabe desnudo
despudoradamente nu
encalhado num atol:
leito circunscrito
às algas do meu avesso.
Sem embargo
trago sempre no alforje
um fardo de estrelas:
sei-me estivador
desse cais agônico:
atarefado Sísifo.

Com a
esposa, Dra. Eugênia Turenko
Senhora
No calmo colo pouso meus segredos
senhora que sabeis minhas fraquezas.
Convoco só convosco o que antecedo
na lira ensimesmada da incerteza.
Não sei se o vero verso do degredo
vem albergado ou presa de represa
das frias águas íntimas do medo
levando o frágil lado da tristeza.
A depressiva face não mostrada
esplende em vosso espelho que me abriga
lambendo o sal dos olhos da geada.
Águas que são do orvalho da fadiga
de recorrentes gotas espalhadas
regando as vossas mãos de amada e amiga.

Com as amigas Candoca e Denisoca
Águas da saudade
Para Dirson Costa que o musicou
Sou apenas um homem na paisagem
na tarde de silêncio e de mormaço.
Só o vento me anima na passagem
deixando no seu rosto o seu compasso.
Sou apenas um poeta na viagem
olhando pelo olhar dos olhos baços
a distância que abriga vaga margem
das águas da saudade nos meus passos.
Bem me quis esta vila que me habita,
e bem me dei de encantos nos seus becos.
Contudo, não cantei sua desdita.
Dessa Manaus distante, restam crespas
pegadas, chão de rugas; minha pista
banhada em banzeiros do Rio Negro.

Com a amiga Mirley Garganta
Poema para uma casa que mudou de alma
Para meus avós Aníbal e Mercedes
velho Alfredo e Tia Maria do Céu, in memoriam
Nessuna cosa
muore
Che em mi non viva
Salvatore Quasímodo
A casa permanece casa.
Está lá à mesma rua:
Dr. Almino, número 73.
Mas apenas a casa física
limpa, bem cuidada até,
na cor cinzenta de sempre.
A casa continua grave
de arquitetura austera
aura que habitava a casa
de fachada grave:
a cara de vocês.
Vocês se foram
a casa ficou
mudou de dono
perdeu a anima
perdeu-se de mim
perdi-me dela.
Eu que em suas janelas
me achava solto
me fazia vento
me danava em chuva
respingando sonhos
partilhando as águas
do suor dos poros
com primas alegres
de sonoros corpos
pelo
velho sótão.
O sótão ainda me envia poeira
vez em quando
com cheiro de sótão
particular a todos os sótãos
ciosos da função de guardadores
de cuidar de trastes
móveis & utensílios
sem mais serventia.
Nisso sou igual aos sótãos
teimoso em guardar velhos papéis
sem nenhuma serventia
(a não ser os do mausoléu da família
que um dia abrigará esse esqueleto).
Na gaveta de guardados
me guardo a mim
de mim me guardo
achado entre os perdidos.
II
Sei que a marcenaria
no fundo da casa
onde vô Aníbal
construía coisas
para a própria casa
e também pinochios,
pequenas cadeirinhas,
banquinhos e piões,
para alegrar os netos
já não está mais lá.
Sei que os móveis
as pias de louça
os santos barrocos
as velhas bengalas
os velhos retratos
já não estão mais lá.
Dos livros consegui alguns
raspa de uma herança anunciada
em vida quando era viva a fala
do vivo que me afagava
com promessas claras
para testemunhas vivas.
Já vi meus livros prometidos
andando por aí
em bibliotecas nobres
estáticos
em estado de vitrine:
ninguém os lê.
Em compensação
eu escrevo livros
de inútil serventia
para quem não lê:
assim ficamos
empatados
e na conversa
resolvidos.
III
Um dia leio que a casa
vai virar museu
noutro
biblioteca infantil.
Menos mal
para alegrar a alma
dessa casa morta.
Menos mal
para alegrar a alma
da inditosa tia
que não teve filhos.
Mas aquela casa
com vocação de casa
não volta:
morreu com vocês.

Posse na
Academia Amazonense de Letras
Canto a continuidade perdida
Canto a continuidade perdida
das vilas perdidas na floresta.
Pequenos arruados de casebres,
onde vago tempo esvazia sonhos
em vôo cego adivinhando nuvens.
Por todos os cais dessas freguesias,
são cães famintos que dão boas vindas;
e o código das águas, das leiras,
decifra-se no rastejar dos cães.
Essa arquitetura de ossos fracos
dos cães de costelas em ogivas,
concha acústica, música vazia,
finca-se na paisagem da fome:
palafitas de quatro patas.
Cemitério aquoso de cal cauixi,
fogo-fátuo de brasas na caieira,
ardente hausto de subviventes;
cunhas oferecem o sexo em cuias,
mulheres doam sangue às sanguessugas
no ritual diário de lavar a juta.
A saliva de mel das jandaíras,
alimenta vermes nas entranhas,
ruído roendo rotas repetidas
de cavidades intumescidas;
lua crescente, buchos de crianças,
aceirando a parca mesa parca
desses
viventes ribeirinhos.

Picadeiro
Estava sossegado lá no fundo
Do meu eu e de mim sem muita pressa
Nesses momentos calmos que circundo
Roteiro e enredo em ato que começa
Minha descida ao palco do meu mundo
Que venho e represento a farsa dessa
Comédia que é de arte em que aprofundo
A pena desgarrada em vã promessa
De bem cantar somente o mais fecundo
Sonho sonhado sem a cor expressa
Que a vida vai me dando num segundo
O desempenho em títere da peça
Neste papel de doce vagabundo
Que me
faz rir da dor doída à beça.

Em Paris
durante a bienal de 1999
Zarzuela cigana para rabeca
Guizos, pandeiros e violões
O cão da caravana acoita sarnas
pelos pêlos tragados de suor
que encarnam carnaduras já de cor
a salteada costa descarnada
O cão da caravana esconde as armas
o fogo e a cinza dessa cauda cor-
rente ao dorso de estrelas apagadas
se acendem cimitarras para a dor
Ao relho e aos ossos pó entre mil noites
dita a desdita escrita: Maktub!
E o cão se assenta dócil para o açoite
Mas lhe aguarda a tarefa de quem ladra
e exorciza a baraka dos impuros
enquanto a vida caravana passa

Com o amigo
poeta Antonio Carlos Secchin
Ária para tenorino e flautim
O gato aparece à noite
com seu esquivo silêncio
de passos bem calculados
num jogo de paciência
as garras bem recolhidas
na concha de suas patas
O gato passeia a noite
com seu manto de togado
como se fosse um juiz
de presas resignadas
a sua sentença de sombras
seu apetite de gula
O gato varre essa noite
facho de suas vassouras
vermelhas de olhos ariscos
e alcança nessa limpeza
o movimento mais presto
o guincho mais desouvido
Mais que perfeito no bote
(tal qual Mistoffellees de Eliot)
do pulo que nunca ensina
tombam baratas besouros
peixes de aquário catitas
ao paladar sibarita
Nada à noite falta ao gato:
nem a presteza no salto
nem a elegância completa
do seu traje de veludo
para o baile dos telhados
roçando as fêmeas no cio
O gato é ato em seu salto
e a noite luz do seu palco
ribalta luciferina
lunária ária da lua
na réstia de seus dois gozos
é felix feliz felino
Guardei a sétima estrofe
para o canto do mistério
das sete vidas do gato
e seu tapete aziago
nas noites de sexta-feira
há provas do seu estrago

Com o amigo
poeta Gilberto Mendonça Teles
Dionysio
Ungido para o fado e a nova festa
Meu carnaval profano já celebra
As quarentenas dívidas da carne
Na cela de costelas das mulheres.
Como devasso réu, confesso fauno,
No vinho das delícias me declaro
Sem culpa e sem pecado original
Pois nessa pena sou igual a tantos.
Já disse certa vez em cantoria:
De nada me arrependo e reconfirmo
Agora que o meu tempo é só de gozo.
A vida que me dou não dá guarida
Nem guarda desalentos de tristeza
Somente na alegria é que me morro.

Com o
parceirinho Célio Cruz, comemorando o prêmio do Festival de Roraima
Bolero das águas
O passo no compasso dois por quatro
acode meu suplício de afogado
afastando de mim sedento cálice
em submerso bolero de águas tantas.
A sede dança seca na garganta
curtindo signos, fala ressequida
para a língua de couro, lixa tântala,
alisando palavras rebuçadas.
Quanto alfenim no alfanje que se enfeita
para montar as ancas de égua moura.
Lábia flamenca lambe leve as oiças,
é rito muezim ditando a dança:
no dois pra cá me levo em dois pra lá,
nas águas do regaço vou-me e lavo-me.

Posse da presidência do Conselho Municipal de Cultura
Amor tecendo o amor
a morte sendo o amor
Quantas vezes subi com a pedra às costas
para depois descer com o mesmo fardo
torneio em que sou alvo do meu dardo
próprio, a sangrar nas távolas de apostas.
Não me sei vencedor. Tampouco guardo
as dores, ou fraturas mais expostas.
Sei que vou quando chego e não me tardo.
Lição que é nascitura e de ocasos
na transversal em curva me celebro
o vencedor, o torto sem atrasos.
Eis aí a certeza derradeira
que chega inevitável sem ter prazos:
vivi todas subidas e descidas
amortecendo o amor sem as feridas.

Com a amiga cantora Élida
Folhas da selva
(7 haikais)
Jogando a tarrafa
caboclo desfaz a lua -
pesca estrelas de escamas

Com o netinho Aleksei
Noitinha na várzea –
com a lua na garupa
búfalos regressam.

Astrid e Anibal, com a
neta e o filho do autor, no Sesc Manaus (2006)
Girassol na tarde
se curva em reverência:
o sol se
vai.

Posse na Academia Amazonense de Letras
Broca no bambu
deixa furos vazados:
o vento
faz música.

Anibal e Astrid no
FLIFLORESTA, dezembro de 2008
Na calma do lago
um bufo entre canarana -
Peixe-boi respira.

Sai da catléia
e vem adoçar o chá –
abelha
jandaíra.

Anibal com os netos Anna Theresa e Aleksei
Sede de verão –
O mormaço bebe orvalho
nas folhas de tajá.
Poemas
extraídos do livro 50 poemas escolhidos pelo autor,
recentemente publicado pela editora Galo Branco.
|
Se com Filhos da várzea Anibal Beça incorporou-se de maneira definitiva à literatura do Amazonas, desde Suite para os habitantes da noite passou a figurar entre os poetas mais importantes da literatura nacional contemporânea.
Tal
conceituação decorre da confluência de vários fatores. Apontaria, em
Em 1998,
Aníbal Beça, em bela coedição da Biblioteca Nacional com a
Palavra parelha
estrutura-se em sete cantos, o que logo nos remete a
Palavra parelha é um
poema cosmogônico. Aborda a criação, o parto da palavra, Foram 7 os meus desejos 7 vezes consagrados que a vida só vale a pena
levada
nos seus pecados.
Astrid Cabral *
* Poeta, ficcionista,
tradutora e cronista.
|
|
Foi diretor de produção da Televisão Educativa do Amazonas, do Sindicato de Escritores do Amazonas e ultimamente do Conselho Municipal de Cultura, onde desenvolveu trabalho ímpar, promovendo importantes prêmios e publicando dezenas de obras.
Envolvido com teatro e artes plásticas, destacou-se principalmente como
compositor, letrista e produtor de espetáculos e discos. Em 1968 venceu
o I Festival da Canção do Amazonas, colecionando a partir daí mais de 18
primeiros lugares em festivais nacionais e internacionais. Em 1969
representou o Brasil no VIII Festival de Joropo, na Colômbia, país aonde
mais tarde veio a participar Tem músicas gravadas por dezenas de artistas brasileiros. Ângela Maria defendeu sua música “Lundu do Terreiro de Fogo” em 1970 no Festival Internacional da Canção. Aníbal Beça, além de artista, foi profissional multimídia tendo sido produtor e animador cultural de grande destaque. Em 1994, com o livro Suíte para os Habitantes da Noite conquistou, na categoria poesia, o 6º Prêmio Nestlé de Literatura Brasileira dentre 7.038 concorrentes. Foi
membro de importantes instituições culturais,
|
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