Alberto da Cunha Melo 

 


(...) "as escadas          não serão o fim da viagem:          mas darão o duro direito          de, subindo-as, permanecermos. "



Século XX

Quanto mais perto


das estrelas,

mais sangras:

os mercadores voltaram

com as três armas

e tomaram de vez o Templo;

e agora, contra a tristeza,

tomas um anti-depressivo:

que século!

 



Formas de Abençoar

Para Arsênio Meira Filho

  

Fique aqui mesmo, morra antes

de mim, mas não vá para o mundo.

Repito: não vá para o mundo,

que o mundo tem gente, meu filho.

 

Por mais calado que você

seja, será crucificado.

Por mais sozinho que você

seja, será crucificado.

 

Há uma mentira por aí

chamada infância, você tem?

Mesmo sem a ter, vai pagar

essa viagem que não fez.

 

Grande, muito grande é a força

desta noite que vem de longe.

Somos treva, a vida é apenas

puro lampejo do carvão.

 

No início, todos o perdoam,

esperando que você cresça,

esperando que você cresça

para nunca mais perdoá-lo.

 




Um Corpo que Cai

Tal se tocasse a extremidade
do cabelo de estranha moça
o homem semeado tocou
naquele fio com muito medo.
 

Segurando-o, pôs-se a puxá-lo
de novelo, com a tirar
uma veia do grande órgão
que emurchecia pouco a pouco

 

(o coração). Mas preferiu
seguir de costas com seu fio
e contemplar o seu tamanho
e ver extinto o seu começo.

 

Dava-nos assim esse aspecto
de quem procura levantar
à distância, por trás das casas,
uma pandorga que caíra.

 
E só ele caíra — o chão
fez-se macio como o ar
e o mais souberam, tão somente,
a carne solta e o sangue em festa.
 



Um Cartão de Visita


Moro tão longe, que as serpentes

morrem no meio do caminho.

Moro bem longe: quem me alcança

para sempre me alcançará.

 

Não há estradas coletivas

com seus vetores, suas setas

indicando o lugar perdido

onde meu sonho se instalou.

 

Há tão somente o mesmo túnel

de brasas que antes percorri,

e que à medida que avançava

foi-se fechando atrás de mim.

 

É preciso ser companheiro

do Tempo e mergulhar na Terra,

e segurar a minha mão

e não ter medo de perder.

 

Nada será fácil: as escadas

não serão o fim da viagem:

mas darão o duro direito

de, subindo-as, permanecermos.
 



Estação Terminal


O céu parece revestido

de uma camada de cimento:

deixo as marquises porque sei

que esta chuva não passará.

 

Se esperasse um tempo de paz,

nem meu túmulo construiria.

Começo e recomeço a casa

de papelão em pleno inverno.

 

Um plano, um programa de ação

debaixo de uma árvore em prantos,

e voltar à primeira página

branca e ferida pela pressa.

 

A poesia já não seduz

a quem mais forte ultrapassou-a,

libertando um pouco de vida

e luz, da corrente de estrelas.

 

Toda renúncia nos convida

a recomeçar outra busca,

porque algo a inocência perdeu

no chão, para arrastar-se assim.
 




Questionário

Cai um silêncio de ondas longas

e sucessivas como a chuva.

E que silêncio será esse

que cai assim antes de mim?

 

Fauna marinha, gestos lentos

de anjos calados golpeando

um polvo em fúria que me espera

(sob os sonhos). Há quanto tempo?

 

Poucos amigos, tudo salvo,

ainda temos nossas raivas

e uma esperança ilimitada

nos setembros. Mas, até quando?

 

Caem livros silenciosos

das prateleiras: baixa a luz

morna e abundante sobre as capas.

Que foi feito de tanta noite?

 

A esperança nova se agarra

entre as barreiras e as ossadas

de nossos morros. E por que

morremos antes de salvá-la?

 



Condensar/Concertar

A vida aqui fala bem claro,
mas sem a eloqüência da lágrima;
como a renda, como a poesia,
é uma linguagem concentrada;

é cloro na água da piscina
da cobertura, lá em cima,

onde Clara, uma pós-donzela,
posa nua para o helicóptero
que faz evoluções sobre ela;

e a luz do sol, como toalha,
só existe para enxugá-la.
 



Morte Sob Contrato

Sua morte, sob encomenda,
ajustada a si como roupa,
não prêt-à-porter, contra entrega,
mas bala a bala, gota a gota,

era, no entanto, igual à vida
que antes viveu, sob a medida

da ordem, da métrica demência,
a que distribui a matança
de acordo com a procedência

e o cadastro da freguesia
da morte, a crescer todo dia.
 




Ave Ano 2000

Só agora sabemos, quando
outro século bate à porta:
tudo tocado pelo Homem
tem o cheiro de coisa morta,

e o som do réquiem, som da nênia
dos morteiros sobre a Chechênia,

e dos vagidos africanos
sobre as favelas tropicais,
som de escopeta de dois canos,

anunciando-nos, com susto,
que ainda impera César Augusto.

 



Orgasmo

Todo corpo, em seu esplendor,
divide em duas esta vida,
mas este êxtase existe mesmo
para ocultar uma descida

da carne, no único momento
em que do cosmo é instrumento;

truque do eterno é todo amor:
toca por baixo o fogo alto
que aquece o sonho ao sol se pôr,

porque logo devolve aos dois
o nada de antes e depois.
 



Colegiais

São todos eles imortais
e onde estiverem lhes transborda
voraz a vida, com seus volts,
sua guitarra de mil cordas;

tanta energia é uma cegueira,
manhã sem fim, a vida inteira,

até que a tarde se anuncia
ao primeiro tremor das mãos,
até que o corpo não sacia

mais o outro corpo e a noite eleva
sua alta parede de treva.

 




Definições

Clau não é uma árvore,
não tem ramos
torturados pelos ventos,
nem folhas que já nascem
em seu precipício;
Clau não tem heras
ou limos que possam
torná-la antiga:
é começo dela
e das coisas
que jamais
cansam de começar.
 



Ameaças

Toda vez que subo
nessas minhas
altitudes máximas
(além do nível do bar)
e mergulho de cabeça,
tripa e tudo
nessas minhas
profundidades (também) máximas
(além do nível do lar),
o rosto de Clau
está lá em cima
e lá em baixo
me deslumbrando, sozinho!
— Quem é Clau?
(pergunta um burríssimo
PHD em Estética)
e ninguém pode salvar
seus pobres alunos.
 



Sugestões

Quero dezembros,
sou louco por dezembros,
e por uma mulher
chamada Cláudia,
filha de Oxum,
a de cabelos montanhosos,
de longa paciência
para suportar
minha vontade de morrer;
quero dezembros de verdade,
fins de dezembros,
com as pessoas correndo
atrás
de suas almas perdidas.
 




O Cerco


Estamos todos cercados;

e o silêncio do sonho

é nossa arma sagrada:

as pistolas e as línguas de aço

dos inimigos brilham ao sol,

e eles gritam tanto

sobre as velhas colinas,

atrás das cegas estantes,

que sabemos de tudo;

e colados ficamos,

amamos e permanecemos.

 



Relógio de Ponto

Tudo que levamos a sério
torna-se amargo. Assim os jogos,
a poesia, todos os pássaros,
mais do que tudo: todo o amor.

De quando em quando faltaremos
a algum compromisso na Terra,
e atravessaremos os córregos
cheios de areia, após as chuvas.

Se alguma súbita alegria
retardar o nosso regresso,
um inesperado companheiro
marcará o nosso cartão.

Tudo que levamos a sério
torna-se amargo. Assim as faixas
da vitória, a própria vitória,
mais do que tudo: o próprio Céu.

De quando em quando faltaremos
a algum compromisso na Terra,
e lavaremos as pupilas
cegas com o verniz das estrelas.
 



Sabedoria Classe B


Vamos falar dos objetos

para ninguém sair ferido.

Os deuses e as idéias

sempre nos dividiram.

Vamos falar apenas dos objetos.

Deixemos em paz

o novo amor de Rachel,

deixemos em paz

o homossexualismo do patriarca.

Deixemo-nos em paz.
 




Frase de Efeito



Dizer que, no fundamental,

estamos sós,

é frase de efeito,

mas sinal para todos

se omitirem

do sofrimento de todos,

no fim, é frase

que causa, mesmo,

um monstruoso efeito.

 



Plataforma


Algum amigo, talvez o único,

aconselhará o combate:

mude de amigo se não pode

mais, nunca mais, mudar de vida.

 

Da amada nem se fala, tudo

que ela deseja é para si:

mude de amada se não pode

mais, nunca mais, mudar de vida.

 

A poesia não é mais feita

de água, de colírio indulgente:

mude de verso se não pode

mais, nunca mais, mudar de vida.

 

Diante do nascente alugam-se

espaços claros e andorinhas:

mude de casa se não pode

mais, nunca mais, mudar de vida.

 

Uma terça parte dos anjos

já veste túnicas vermelhas:

mude de roupa se não pode

mais, nunca mais, mudar de vida.

 



Casa Vazia

Poema nenhum, nunca mais,
será um acontecimento:
escrevemos cada vez mais
para um mundo cada vez menos,

para esse público dos ermos
composto apenas de nós mesmos,

uns joões batistas a pregar
para as dobras de suas túnicas
seu deserto particular,

ou cães latindo, noite e dia,
dentro de uma casa vazia.

 




1942 - 2007

José ALBERTO Tavares DA CUNHA MELO, poeta, jornalista e sociólogo,
nasceu em Jaboatão, Pernambuco, em 08 de abril de 1942.
Filho e neto de poetas, fez parte do Grupo de Jaboatão que, conforme
o historiador Tadeu Rocha, constitui a nascente da Geração 65 de
poetas pernambucanos. Dentre os fatos que marcaram a sua intensa
atividade cultural, destacam-se a sua atuação nas Edições Piratas [1979 a 1984],
movimento editorial alternativo que publicou mais de 300 títulos
de autores novos e consagrados, a criação e organização do
Prêmio Anual de Poesia Carlos Pena Filho [1982 e 1983] e a
editoria das páginas do Commercio Cultural, do Jornal do Commercio
[1982 a 1985]. Na área oficial, exerceu vários cargos públicos,
destacando-se a de Gerente de Bem-Estar Social do SESC -
Delegacia do Estado do Acre [1980 - 1981]; duas vezes Diretor de
Assuntos Culturais da FUNDARPE - Fundação do Patrimônio Histórico
e Artístico de Pernambuco [1979/l980 e l987 a l989 e o cargo de
Diretor do Arquivo Público Estadual de Pernambuco [1988].
Na virada do século [2001], foi incluído nas antologias de edição nacional,
Os Cem Melhores Poetas Brasileiros do Século [2001] e 100 Anos de Poesia -
Um panorama da poesia brasileira no século XX. Sua obra,
Meditação sob os Lajedos [2002], mereceu o quarto lugar da primeira
versão do Prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira No livro Yacala [1999],
Alfredo Bosi, coloca a sua obra à altura das dos poetas, Jorge de Lima,
Carlos Pena Filho e João Cabral de Melo Neto. Em grande parte de sua
poesia, no aspecto formal, destaca-se uso o sistemático do metro
octossílabo, o mais rara em língua portuguesa, conforme anota o poeta
e crítico César Leal. Atualmente o poeta trabalha no setor de
Obras Raras da Biblioteca Pública Central e é editor da coluna
Marco Zero, da revista Continente Multicultural. No site pessoal do poeta,
é possível obter mais informações:
Obra publicada: Círculo Cósmico [1966]; Oração pelo Poema [1967];
Publicação do Corpo [1974]; Dez Poemas Políticos [1979]: Noticiário [1979];
Poemas à Mão Livre [1981]; Soma dos Sumos [1983]; Poemas Anteriores [1989];
Clau [1992]; Carne de Terceira com Poemas à Mão Livre [1996]; Yacala [1999];
Yacala [2000]; Um Certo Louro do Pajeú [2001]; Um Certo Jó [2002];
Meditação sob os Lajedos [2002]; Dois Caminhos e uma Oração [2003].

 



Todas as informações desta página foram obtidas nos excelentes sites:

http://www.plataforma.paraapoesia.nom.br

http://www.albertocmelo.com

http://www.poetasdelmundo.com

http://www.algumapoesia.com.br
 


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