Clique: Rômulo Fritscher

Adriana Monteiro de Barros

meus laços               são os acasos              como ocasos               ao acaso



Metamorfose

Sombra genuína em meu corpo, carrega um rio seco que amputa ossos e dentes.

Sou retalho e fadiga de um Deus que amei em algum lugar da eternidade.

Melancolia e melodias, um atalho, um pouco do que a vida se mostrou,

sem ilusões, em cacos de espelhos partidos.

Só em meu peito nu, um gemido de gatos assusta o coração em breves
momentos de calma.

Meus medos gemem e uivam feito lobos atrás de carniça.

Eis o meu corpo atado como estilhaço.

Eis o fel que escorre do coração sobre mãos que insistem em perpetuar

alguns versos no escuro da hora.

Eis-me aqui quase inteira para o seu repasto.
 



                                                                                                        Clique: acervo da autora



Tiro ao alvo

Abro a janela

Cai o pano

Atiram flechas.

Sou o alvo.

Sou a flecha fincada no buraco negro do alvo

Sou a flecha fincada no peito do alvo.

Sou a flecha fincada e mirada no buraco do peito.

Sou a flecha. Sou o alvo.

Atirem! Atirem!  Covardes!

Que não irei reagir

Perdi a coragem arqueada do suicídio.

Que ele vá pra longe,

Que ele seja o alvo de outras flechas fincadas em meu corpo.

Sou flecha andarilha.

Sou a flecha que atinge o ápice do alfabeto.

Sou a linguagem pura e sem dialética.

Sou o alvo da palavra.

Sou a palavra atingida.

Sou arco de palavras e não de flechas.

Mas me disfarço em língua afiada

E me retiro quando não há mais silêncio ou palavras.
 



                                                                                      Clique: acervo da autora



Unhas Vermelhas

Em momentos de cólera

 Olho minhas unhas vermelhas

E sinto escorrerem gotas de sangue

Que teimam em sujar a brancura alva do meu corpo,

Enquanto rôo minhas unhas até o vermelho do esmalte

Tornar-se o vermelho sangue, que escorre cristalino

E incolor sobre o negrume da minha alma.
 



                                                                                                        Clique: acervo da autora



Toda vida uiva
Para Chacal
(do livro A vida é curta para ser pequena)

As borboletas não são azuis nem o céu é cinzento.

Eu, gaivota que não tenho pouso certo,

Que rasgo o ar em busca de novos céus,

Que me arremesso contra oceanos em troca de alimento,

Sublimo as verdades absolutas,

Afirmo que a liberdade é invisível,

Só a chuva tem cheiro

Todo amor é um universo de sombras e arde!

Mas nem todo amor é vida que pulsa,

Nem toda vida que pulsa é vida

Mas toda vida é curta para ser pequena

E morna.
 



                                                                                                                               Clique: Gean Queiroz



Apesar de tudo

Porque ainda sinto e respiro

Por todos os apesares

Por toda lágrima

Por todos os que amo e amam

Por todo encanto

Porque ainda canto

Por tudo que é sagrado

E pelo que não é

Apesar do eterno e do efêmero

Do enterro e do medo,

                            VIVO
 



                                                                               Clique: acervo da autora
 



REGRESSO
para Bruno Cattoni

Há na vida algo maior que não se decompõe com o tempo,

que transpõe a matéria.

Há no amor um acontecimento sublime que ultrapassa o encontro

Há no sonho um fio de realidade, que vai além de uma canção e seu destino.

Há no homem a idade plena da esperança

o gozo supremo de amadurecer como frutos maduros de uma existência.

Haverá sempre o eterno juízo, o eterno retorno ao espírito e ao que ele significa.
 

 


                                                                                                    Clique: Luiz F. Prôa



Palavra-tempo

Hoje desconstruí a palavra.

 Desconstrui o sentido dela.

E o que fica é o que não se escreve,

O que não se fala.

É esse estranho choro na face

Que peço que o tempo se encarregue

E carregue pra longe de mim.

 



                                                       
Clique: Rômulo Fritscher



Ofício de escritor

Para meu pai


Toda
palavra é silêncio.

Toda palavra é alma.

Todo silêncio é palavra.

Toda alma, silêncio.

Todo silêncio é vestido de alma.

Apesar das palavras, minha vida nunca foi silêncio.
 



                                                                                 Clique: acervo da autora



Mareando


Muito
me perdi pelo  mar.

Mesmo o mar é mais previsível e contínuo do que eu.

Eu, não. Eu movimento.

Eu transbordo e navego.

Eu me transformo e transbordo.

Viro enchente e transbordo de desejos pelo mar.

Eu me transformo em enchente de desejos pelo mar.

Eu me afogo e respiro de desejos pelo mar.

Mas até o mar é mais previsível e contínuo do que eu.

Eu movimento.

Nunca represo.

Nunca usina.

Eu navego.

represo o que não for movimento.
 



                                                                                                                                Clique: Carluxo



Fruto e semente


Caminho
sob pés de maracujá,

enquanto o tempo de plantio espera

O pensar infinito sobre a vida

e sua transparente fragilidade.

Aos poucos, toco sentimentos

em busca de aromas líquidos

no silêncio dos sonhos.

Falar não é preciso.

Agora preciso de rosas...
 



                                                                                                        Clique: acervo da autora



Outono

Para
João José de Melo Franco

Caminhos
de areia me trazem ventania

Chuva pedra sal.

Tudo me aquece

e me tece sol a pino.

Paisagens azuis

em invernos outonais

me caminham com jeito de tempestade.

Madrugada insônia verbo

me entristecem.

Sou dia em nuvens a céu aberto.
 



                                                                                                        Clique: acervo da autora



Deslize

Nunca
fui das rotinas.

Retina em preto-e-branco.

Me adapto.

Pertenço ao andar.

Vago. É tudo.
 



                                                                                                                Clique: Karla Sabah



Dizer

Tenho febre de escrever.

Escrevo desde que sinto.

Desde que entendo e não entendo o que sinto.

Falo com palavras e falo com as palavras.

Palavras, eu arrumo.

Sentimentos, não.

Sentimentos são.

Sentimentos me desarrumam.

Palavras, não.

Palavra é o meu corpo todo dizendo sim,

Mesmo quando não.
 


Vídeo

Adriana Monteiro de Barros e sua poesia


Adriana Monteiro de Barros

É carioca, mãe, atriz, jornalista e poeta por opção. Em 2004, venceu o III Festival
Carioca de Poesia, organizado pelo grupo, Poesia Simplesmente e, no ano seguinte,
foi homenageada com uma Moção Honrosa pela Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro.
Já participou de diversas antologias e agendas como, Livro da Tribo (2007)
e Brasil Retratos Poéticos (2008). Volta e meia pode ser vista em diferentes
eventos da cidade como, Dizer Poesia (Corujão na Livraria Letras e Expressões),
Ponte de Versos e o Santa Poesia durante a Semana Santa em Santa Teresa.

 Em 2006, integrou o grupo Movimento Letras Poéticas , no Rio Design Leblon
e atualmente faz parte do grupo Abismos Poéticos,  que se apresenta em diversos
momentos culturais da cidade. Seu trabalho e alguns poemas podem ser
conferidos no site
http://www.almadepoeta.com

Pianos Invisíveis é seu livro de estréia pela editora Íbis Libris e será lançado
dia 7 de maio, no Bar e Restaurante DA GRAÇA, juntamente com o CD  de seus poemas.

 
Algumas Impressões:

 ...leia este livro em voz alta. Absorva: esta poeta é puro Jazz.  Ela, o alto- falante bacante.
Ela e sua voz num livro que quer a cabeceira ao invés da estante. De repente, com ela toda
poesia que resta nesse mundo vira luva e a mão que ela veste se excita.
(Tavinho Paes, poeta e compositor).

Adriana é uma diva. Seus poemas, deixa-nos faltantes e ainda mais famintos,
porém mais fortes, mais silenciosos, mais éticos, de uma ética que antecede o saber.
A ética do face a face, da alteridade radical, única saída do ser na
barafunda babélica do mundo hipermoderno. Quando estiverem lendo

Pianos Invisíveis
, ouçam Chopin com Rubinstein, se possível. 
(Bruno Cattoni, poeta e editor do RJ/TV, Globo).

Pianos Invisíveis é uma reunião de poemas que habitam a tensão geradora de
uma das maiores aprendizagens, a de viver mas, seus poemas acabam trazendo
em si a marca de uma diferença, a da estranheza com o que lhe é íntimo e da intimidade,
com o que lhe é estranho. Muitas vezes, como é o caso de Adriana Monteiro de Barros,
tal perplexidade os torna poetas, artistas, filósofos, pessoas com algo
fundamental a dizer e que merecem ser ouvidas.
(Alberto Pucheu, poeta e professor de filosofia da UFRJ).

 Poeta-ilha, Adriana Monteiro de Barros é uma voz diferente em
nosso mo(vi)mento poético com sua linguagem densa dos poetas tristes
e obscuros,  destes nossos tristes e obscuros tempos.
(Cairo de Assis Trindade, poeta e ator).
 


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Ou envie seu comentário para a autora:
adrianamdebarros@uol.com.br


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