Pária
Para Moacyr Costa e Domingos Fernandes
Onde eu nasci a servidãoreinava
insone (ao rés do lentovaivém
dos dias) e estar vivo jábastava.
Onde eu cresci meu reino
eraninguém.
Eu sou aquele a quem não
seesperava
com a chave de um nome ou dovintém
e se algum rito interno merondava
era uma reza que só tinhaamém.
Viver era avançar emretrocesso
por entre rotas ínvias, semacesso,
a desbravar o mar semcaravelas:
qual pária, que ao nutrir-seem seu
reverso
- o nada ter lhe tendo e portabela
-,
só restem as palavras e asestrelas.
Mangue
Despido de defesa ao que me é dano
já nem sei se me elevo ou me
alucino
ou se entro – simplesmente –
pelo cano
onde sonhar pareça um desatino.
A doer-me a dor tornou-me um
decano
no vício da virtude em que me
assino
não sei se pobre diabo ou santo
insano,
seria eu – talvez – um
assassino?
(...) e rolam-se os dados ao vão
da sorte
ficando a vida à sanha do mais
forte
e o sonho ao rés da vala e ao
bang-bang
da usura cega e do seu
passaporte.
E onde o que me cabe nesse
mangue,
que planto flores quando pedem
sangue?
Do Sopro
O sopro que intercepta
o self dos meninos
avança
as águas turvas
e o rasgo
da mirada.
(Límpido perfil do gesto
atado ao transe.)
O sopro lume
e lavra
pedra
sangue
flor
face ao que consagra
e nutre,
face ao vário
desvario
onde anjos rotos
rezam aos abutres.
Há uma zona
em que os cristais
se partem
sob essa aragem ancestral
do sangue.
Há incêndios na raiz
Do gesto. Vestígios
de pólvora nas palavras.
E quando há voz,
É a cicatriz que canta.