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Sobras
a mim
o que resta
:
uma fresta
na janela
onde faz festa
o sabiá

Gravidez
e foi naquela noite enluarada
que o gameta-luz
fecundou
as letras
houve um trepidar de estrelas
no vasto
céu de minha boca
aos poucos tudo silencia
faço uma
descoberta
:
estou grávida
grávida
de poesia

Espelho
Dor que lateja
em lascas de sangue
jorrando da face
que o
espelho reflete
Navalha afiada
transfigura o rosto
que não
reconheço
Antigo álbum
de fotografias
detalhes que nunca
existiram
Um sinal, uma ruga
um olhar
que já
se foi
Presa no reflexo
côncavo e convexo
não sou eu
mas a
dor é minha

Artesã de sonhos
Sento-me no
Entrelaço os
tecendo
e
De
de
revelam
de
percorre
na
da
a
dos
Tecelã de
amadas
no vai-e-vem
das
do
sentada na
artesã
de

Achados e Perdidos
Perdi a minha bolsa
carregada de sonhos
e contas vencidas
balas de hortelã
beijos desejados
palavras escondidas
Perdi minha bolsa
na esquina
dos pesadelos
cruzamento
entre o sorriso
e a lágrima
Quem a achar
favor não guardar
jogue-a no abismo
da esperança
para que um dia
eu possa
encontrá-la

Labirinto
tranquei-me
dentro
de mim
depois
joguei
as chaves
fora

Embriaguez
Hipnotizada
pelo reflexo da Lua
dispo-me
de mim
e mergulho
profundamente
nesta taça
de vinho tinto
sobre a
mesa
Conduzo-me
ao fundo
onde posso
abrir os olhos
e ver-me
claramente
refletida
no cristal
do
tempo
Embriago-me
em mim
só me basta eu
totalmente desnuda
imersa
no sangue-tinto
do seco
vinho
Afogo-me
em meu delírio
até a última gota
de
esperança
Após a ressaca
volto a ser
apenas mais uma
na multidão
que
passa

Tempero da Baiana
Mulher baiana
sorriso dendê
estampado na cara
lágrima transformada
em batuque
de berimbau
Pau-de-chuva
pulsante som
que ecoa
por todo horizonte
leva o gingado
do corpo dançante
enquanto seduz
teu prazer
Pimenta vermelha
na branca pele
ardente em teu desejo
bailado em atabaques
percussão ritmada
no palpitar do asfalto
em que desfila
alfazemas incandescentes
Baiana mulher
pecado entre as pernas
cintura corri mão
onde sobes os degraus
da paixão des medida
em doses afro disíacas
de mel e tequila
que formatam
teus sentidos sutis
Mulher baiana
sobe a ladeira
samba em flores
suor cascata
entre os seios
que seguem a marcação
do pulsar febril
emanado dos
olhares ciganos
que se rendem
ao seu
encanto

Sabedoria
Luh Oliveira / Luiz Prôa
no balanço das ondas
em ritmo de lua cheia
a maré vem e vai
como se soubesse
que a vida
é sempre mais
que
brincadeira

Poema Instante
Profundo silêncio da madrugada
um ruído-inquietação em meu peito
Desligo o computador
por vezes, único companheiro
nas solitárias noites sem fim.
Percorro os cômodos da casa
Confiro se tudo está bem fechado
(Tempos em que bandidos ficam soltos
e inocentes presos em suas celas)
Paro diante do quarto das crianças
Tudo tão quieto!
As camas perfeitamente arrumadas
Todos os bichinhos de pelúcia no lugar
Os livros uniformemente organizados na prateleira
Nenhuma sandália espalhada pelo chão
Por alguns instantes saio de mim mesma
e viajo em um tempo transcendental
Parada diante do quarto
vejo berço, móbiles, fraldas
Escuto chorinhos dengosos
Seios fartos de leite-vida
Sinto o perfume lavanda-bebê
As camas vão chegando
Os sapatinhos aumentam de tamanho
(Como aumentam rápido!)
Chegam os uniformes escolares
As mochilas do Piu-piu
As paredes riscadas com garatujas
Os livros ilustrados preenchendo toda a estante
Chegam os diários
O rosa das colchas e lençóis muda de tom
No lugar das bonecas
um mp3 em alto e bom som
Chegam as chaves das portas
e todos seus segredos
O salto alto, o volante
a coragem e todos os medos
No porta-retrato chegam as imagens masculinas
Os livros de histórias tornam-se romances
Os desenhos livres transformam-se em poesia.
O som das risadas e das temidas lágrimas
Os sonhos para o futuro
O eterno discordar de tudo
e seguir seu próprio destino
Naquele breve instante
ali
parada
diante do quarto
vejo o tempo diante de meus olhos
Estive presente a cada segundo
como anjo-da-guarda
como mãe ou como fada
Errando para acertar
amando só por AMAR
Peço com força a Deus
que as flores que de mim brotaram
sejam muito melhores
e mais
felizes que eu

En cena
Seria bom ser artista
por um dia
vestir a máscara da alegria
tirar a maquiagem
sair do salto
pisar na areia
sorrir para o dia
Seria bom ser artista
por uma semana inteira
falar verdades e baboseira
nada de monotonia
platéias, bandeiras
destino jogado
sem eira nem beira
Seria bom ser artista
por um mês fechado
curtir a vida adoidado
ser mocinho, ser bandido
criar verdades e pecados
ficar rico, ficar pobre
ter um encontro marcado
Seria bom ser artista
pela vida afora
encenar sempre o agora
semana que dá semente
domingo que não demora
ter um palco-brincadeira
ver a vida indo embora
Seria bom ser artista
neste exato minuto
em que escrevo
ensaiando o script
que a vida me deu
por sorteio

Menina
Ei menina
vai embora não
preciso de você
pra poder sonhar
Comer nuvem
com calda de chocolate
morder a lua
e beber água do mar
Acreditar
que o amanhã existe
e que todos são capazes
de mudar
Enxergar a alma
de cada ser
e ter certeza de que
a bondade vai vingar
Ei menina
vai embora não
no corpo desta mulher
ainda bate seu coração

Luh Oliveira, pseudônimo da baiana Luciana
Oliveira, nascida em Ilhéus,
terra de Jorge Amado. Revelou seus versos para o mundo
virtual em 2005
e desde lá tem publicações em sites de literatura,
e-books e em algumas
coletâneas: Coletânea Komedi (2007), Casa do Poeta
Rio-Grandense - 42 anos (2006)
e 43 anos (2007), e Poesia do Brasil, volume 6 e 8.
Participa do Congresso Brasileiro de Poesia desde 2006.
É coordenadora do Proyecto Sur-Brasil
e também coordena o site Alma de Poeta, em sua cidade.
Divide seu tempo com seu trabalho nas escolas,
com suas filhas e com a POESIA, sua paixão.
Se você gostou indique o
endereço:
www.almadepoeta.com/luh_oliveira.htm
E envie seu comentário para o e-mail da autora:
lukaoliveira@oi.com.br
Mais poemas da Luh em:
www.almadepoeta.com/luholiveira.htm
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21/11/2008